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28 de abr. de 2011

LARGO DE SÃO FRANCISCO

Caio Martins
Para Silvana Garcia











(imgart: cvm - lgosfrancisco-beijo-2009)


Passam as gentes pelos átrios
arcos e capitéis, no páteo
vem a moça sem pressa
levando os seios espetados
bandeiras em dia da pátria
e a menininha disfarça
o medo da imensidão...

O Largo não passa.  

A Faculdade de Direito
de tradição libertária
saúda o velho menestrel.
Já a ocupei em armas
bradei da tribuna alarmas
fugi de ser bacharel.

A Igreja atrapalha
o fluxo da cidade
faz caretas à mocidade
que nela não liga mais.

O Largo de São Francisco
suspira um tempo passado
num templo embolorado
onde havia idéias, ideais
escorrem com letras mortas.

Carrega ossos em suas tumbas
já não produz mais poetas
noturnos de alvorecer
requenta memórias das quais
a cidade esqueceu de esquecer.

A única elisão simpática
na patética estética eclética
cinza, suja, gris
é Silvana que vem flutuante
atrás de seus peitos densos
atrás de seus jeitos mansos
de sorriso desbragado
com sua voz quase rouca
vestido entrado nas coxas
despertar um poeta infenso
que a beija com deleite
e leva como enfeite
rubra boca na boca.

A menininha alerta:
- Mamãe... olha um palhaço! -
e sai correndo, feliz.

(Pensão da Zulmira - 20/07/1987

17 de mar. de 2011

COISA DE BICHOS

Caio Martins
Para Stela e Alceu Valença.













(img: cvm - kelly/galaxia - 1999)

Estendeu-se
num gesto sublinhado
o véu de teus cabelos sobre meus olhos.
Diluí-me nas sombras de teus olhos
sem ansiedade, apenas
vacilei entre a dúvida
e a ironia.

O brilho de um rubi em tua orelha
revelou-me a ardentia de teu rosto.
Percorri teu rosto
vacilando entre o alumbramento
e a fria perfeição de teus traços.

O som de tua voz metálica
como o sustenido de um harmônio
fixou-me em tua boca.
Vacilei entre beijos
ou mordidas.

E assim foi lentamente
com teus braços
tuas mãos
teus seios
tuas pernas
teus pés
teu ventre
até ter-te incontida.

Até sucumbirem tramas
regras, usos e costumes
tua perspicácia
meus notáveis argumentos
diluídos febrilmente
na sofreguidão de momento
da umidade convulsa do sexo
em delírio e desvario.

Coisa de bicho-gente
no cio....


(07/03/1986. Peña Los Hermanos - Pensão da Zulmira)
Como dois animais - Alceu Valença - 1997



25 de fev. de 2011

PEIXES FRITOS

Caio Martins
















(img: grilhões. foto: lee garland/bbc brasil)

Os meus amigos sabem:
não zombarei das palavras.
Brincarei, contudo
com seu sentido, porém
exigirei de mim um instante
de disciplina e solidão.

As usarei, impunes
na comoção de moça reticente
justificação de noite mal dormida
prisão de ventre
dizer, do governo,
que é ladrão.

Desprezo montagens raras
purpurinas, holofotes
parafernálias visuais...
Bastam-me um lápis, um papel
a voz que não conseguiram calar
nesta curta eternidade consumada.

Desajeitado escriba menor
deixarei as palavras me aliciarem,
eternas visitas inconformistas
feias cicatrizes em feridas
limpando a bunda com mentalidades torpes
demasiado preocupadas com críticos de arte.

Nem brincar com palavras
nem versos como armas, nem
grilhões dourados de escolas, estilos, imposições:
chegará o dia de estarmos todos mortos.

Destilarei meus humores
meus amores
meine Weltanschauung estropiada
mi tesón por la vida como vierem
escrevendo, escrevendo, escrevendo
e me bastará que em meus versos
meus amores se riam, festeiros
meus amigos me abracem,
meus inimigos me desconheçam.

Os restos são o sentir latente
lancinantes gestos, viveres, fatos
consumidos sem tratos
longe de tantos sóis, patéticos
aplausos de deuses, demônios formatados
como peixes fritos
num prato.

Pensão da Zulmira - 26/06/1987.

10 de fev. de 2011

RÉQUIEM GRANÍTICO


Caio Martins














(img: cvm - jaquie-tela/2001)

Menina vadia
brincando de pedra
cadê tua impudícia
teu jeito de cio?

A pedra é inútil
a pedra é amorfa
a pedra é tão fria
a pedra é estática
a pedra errática
tem oclusões vaginais
tem pedrinha hepática
por beber sonhos demais.

Quer ser celebridade
quer invadir a cidade
nua nos jornais...

A pedra quer ser escultura
a pedra quer ser pintura
a pedra quer ser partitura
quer ser imagem de santa
beijada no pé, num altar
quer ser a heroína
da hecatombe universal.

No meio da vida
nua se viu
no meio do peito
da cama do poeta...

... e armou o capeta.

Vai ver que de tanto
brincar que era pedra
no enleio do ato
chutou o amor
que virou, de repente,
pedrinha miúda
num pé de sapato...

(Vila Mirim, 01/12/1966 - Pensão da Zulmira, 14/06/1987.)


7 de fev. de 2011

OPOSTOS

Caio Martins












(img: carnavalveneza/wikki)

Desde o início foste reticente,
não se perguntou se eu te queria.
Tomaste conta de mim
sem importar-te com meu pranto
e espanto de bofetada.

Houve momentos nos quais
não me dei conta de teu domínio.
Na memória nada resta, o resto
sempre foi teu pé na garganta,
a espada no peito, retilíneo
jogo unilateral.

Inerme
mal aprendi a defender-me
fraco
tentei mostrar-me astuto
insensato
me reconheci no teu oposto.

Julguei, nalguns momentos
tomar-te toda, sugar
os cálices de teu corpo
embebedar-me de teus licores
tomar-te sacrílego, fremente
até ter-te tonta e louca
incapaz de seres sensata.

Desafiei-te:
que esmagasses!
Brigaria e criaria tudo de novo
sem o pânico da alcatéia.

Perdi os momentos, movimentos
do solo desvairado, sem estréias.

E não houve também mulher alguma
capaz de suicidar-me
tirar-me tudo, o nada
que sempre tive... Que pena!

Mas tu, Vida
escorres a cada segundo
dentre meus dedos, te insinuas
e negaceias, me invades
e me deixas só.

A cada segundo, o irritante
é pressentir-te o sorriso no rosto.

No rosto
do teu oposto.

(Hotel Bradesco – Ribeirão Preto.
10/09/1986.)

21 de dez. de 2010

NATAL 1987

Caio Martins

À Cristina Lima.












(img: j.foster - divulgação - 2001)

Volto meteórico
da Buenos Aires cafetina
por átimos de tua presença
e não encontro ninguém.
Nada... menina...

Quando, profano e safado
atingido no plexo
recolhi estropiadas asas
em bar inóspito no coração de São Paulo
dormias impune com teu ardor
e Mistérios de teu sexo...

Lá fora havia
hiatos rangentes
de estuporado espasmo,
triste festa tardia.

Ah!, se no teu sono eu,
atrevido, galante,
ectoplasmático
anjo safado, atônito
me materializasse em tua cama...

Acariciaria desvelado
cada de teus poros
e no lamento de teus orgasmos
o natal do dia escancarado
me despedaçaria com sua luz,
anjo profano vitimado
na aura doída de São Paulo.

Natal?
Não, hoje não é mais nada
nenhum dia...

(Casa Rosada - 25/12/1987 - Pensão da Zulmira.)


10 de nov. de 2010

LA CANCIÓN

Caio Martins
A Sérgio, Vania y Cristina.












(Img: cvm - antonietta: fantasias de mujer - portada)

Intentabas una canción de amor...

No era para tanto
pero se te aflojó el brazo
quedó chueco el abrazo
y atragantado tu verso.

Las palabras te salieran amargas.

Amor alucinado
con la ansiedad de un perseguido
un niño asustado
un hombre
que no sabe más jugar al héroe.

En el metro cuadrado del palco
del boliche rasca,
cantor,
la luz de foco de lata
te encandila:
suenan tumbadoras pesadas
llamando demónios atorrantes...
Cantás como nunca
candombes, la salsa más hiriente
y... esa canción de amor...

Delante tuyo
mujeres lindas bailan frenéticas
conscientes del espetáculo...
Y el perfume de hembras
brillo de miradas
movimientos de celo
la provocación
el alcool
humareda de puchos y deseos
cadéncia de mis tumbadoras
locuras de guitarras
esa mujer rúbia
y ardiente
con sus promesas de miel
y de serpientes
tanta danza
tanta música
tanto canto
tanto tanto
te hundieran.

Pero, no era para tanto.


A mi, en las tumbadoras, nomás,
cuando detuve la mirada
en inquietante escote y senos

como otros no hay en la Tierra
solo se me fué un compás...

Cantabas una canción de amor
mientras alli se bailaba a la guerra...

(Los Hermanos. 13/10/86 – 07/05/2007)


20 de out. de 2010

PRAÇA DA SÉ

Caio Martins









(img:cvm - torres sé - 2007)

Escadas rastejantes jogando
pasadas de bípedes cansados
zumbindo passivamente
saio do buraco
do metrô na Sé.

Cara a cara
com a negra torre do relógio
martelando vagarento sete horas
nos seus mecanismos atrozes
de solução final.

A Praça da Sé se move.

A catedral arrota
medieval solilóquio
de seu bojo estufado.

A catedral estatela-se
de costas, com graça
de gorda matrona gótica
de torres como ameaçadoras tetas
espetando a escuridão pastosa,
escadas de cabeleira
cheia de insetos transitando
em suas bocas.

A catedral boca.

Rara soma arderá
em seus altares solífugos,
enquanto Cristo passeia, cósmico
por outros mananciais.

A Praça da Sé se move.

O camelô vende milagres
um pivete vende santinhos
a zabumba bumba
funcão agastado
a xoróca zabaneira
e vunge
vunza no bolso do otário
que vasconceia, lúbrico
lambidas em seu pescoço.

Na distância de um pulo
a menina canta hinos
às bestas do apocalipse
o fim dos tempos
a palavra final...
Sedutora
vozinha
afinadinha
fatal...

A sanfona agita a bunda
tremelica os peitos
de cafona moça seminua
abrindo coxas e braços
e a dentadura alva
enrubescendo a calva
do marco-zero da cidade.

Não quer ser salva...

A menina hina hinos
olhando faceira o menino
que vende santinhos roubados
da mesa dos cardeais.
A polícia policia
suspirando aliviada
após a tensão formidável
de concentração sindical.

Na catedral o cardeal
absolve e o gado
se retira do quintal.
Em roda
ladrões, pivetes, saltimbancos
travecos, profetas, mascates
traficantes, bicheiros, ladrões,
vigaristas, craqueiros, putas
rondam a multidão passiva
entrassaindo do metrô
e a zabumba bumba um funcão
a catedral sina seu sino
os pregadores ameaçam o universo
e as bestas do apocalipse saem
dançando funque-forró.

A Praça da Sé comove
como a carcaça de um cão
atropelado e marginal
esfarrapado, e só.

(Pensão da Zulmira - 13/07/1987.)

27 de set. de 2010

TRAVESSURA

Caio Martins
Para Cristina Lima











(img: PB & cores - Isabel Filipe)


Te amei... Como te amei...

Quando te conheci, teu cio
temia as profecias de um amante.
Meu vazio nada temia,
não tinha mais acertos.

A ti, te inventou deus ciumento
zeloso de sua cria.
A mim abortou-me apressada
deusa renegada
bêbada de ironia.

Te vestias de negro, eu
o branco
sujo de tantas cores.
Eras arredia, olhavas
desconfiada um homem sem alvuras.

Te levei a ver a lua...

Na ida ao teu corpo
perdi-me, porém cada poro teu
eu reconheço.
Sabes, hoje,
da minha geografia.

Como te amei... e foi tão pouco!

E no crivo do olhar,
frágeis espelhos findos,
duas crianças se contemplam nuas
assustadas,
rindo.

Pensão da Zulmira
23/06/1987

2 de mar. de 2010

GESTOS NO BAR


Caio Martins

À Silvana - Peña Cauã.










(img:cvm -lucienne037 - tela)

Estes bares noturnos, moça
são antros de gente perigosa.

Em que pese, são (e)ternos
os músicos mercenários
as bem amadas triunfantes
os amantes latinos
as mal-amadas teatrais
os solitários de sempre
e até mesmo teu poeta
de incêndios orquestrais.

Hermético, teu gesto
jogando negros cabelos
tua afoita blusa exótica
deslizando sem escombros:

- Que belos ombros...

És toda uma mulher
e me assombro, moça
com tua cortante beleza
em sapatinhos de cristal.

A luz raquítica
musica arcos-íris
no compasso de teus braços,
movimento
de dança de teus seios...
(lamento a mesa te ocultando a cintura).

Que cores raras tem a música!
Que gula, no ritual de olhares!
Te falo, invento histórias
falo, falo, falo
e desmonta-se em frangalhos
tanto cenário, e calo...

Cabeça dura, teimosia
seguir querendo ver-te
em meu corpo
a bailar nua.

Guardamos nas sombras das roupas
nas dobras do tremor das ruas
arsenais de sorrisos
armadilhas de palavras
etéreos e afiados punhais.

Nos olhamos intimidados
cúmplices, irreais
o garçom passa e pisca
em fantasia pomposa.

É que estes bares noturnos, moça
são antro de gente perigosa.

(Peña Cauan. Pensão da Zulmira -15/04/1987).

20 de fev. de 2010

AVENIDA PAULISTA


Caio Martins
Para Marici.











(img: av.paulista 1922 - pmsp-arquivos)

Esquina da Brigadeiro:
o pipoqueiro de branco
fecha a panela e zarpa
destartalada nave sem bandeira
em fuga do curral.

Um filho de puta baba
e dorme aos trancos, desbarrancos
num canteiro, mijado .

Negócios, formados em batalhão
arpoam a penumbra avermelhada
com seus vorazes olhos in(can)descentes:
tétrica beleza como restos de incêndio
na tragédia da tarde moribunda.

Vai o pipoqueiro de branco
navegando encardido na corrente do trânsito
que escorre pelo MASP como vespertino vômito .

Navega em pesadelos
o menino predador pardo
sacode um pé, range bruxismo,
o trânsito range cataclismos
nada há mais a despertar.

Turbilhão de ansiedades
nos flancos escorre
compacto rebanho remexendo
retensadas vísceras
coléricas, terminais...

O pipoqueiro é preso por não ter licença
e navegar na contramão
o pivete mijado salta e esca(pa)fede no ar.

Das casamatas bancárias fuzilam
raios cibernéticos no seu rastro
latitude 26,56 e longitude 46,64 graus...

Na esquina da Augusta
pipoca um tiro ocasional
a moça grita, tudo é nervo retesado
raspou, não feriu nem matou
para desconsolo geral.

Terminas, corredor
de orgias e latrina financeira
num buraco abrupto e estreito.

Esquina da Consolação:
indo sempre em frente, talvez
a gente consiga sair
- mesmo que poucos se salvem -
da (vora)cidade.

O poeta busca consternado
na ausência do olhar de Marici
os olhos de adeus de Marici
ancorado na esquina do cemitério
estatelado, a ver navios...

(13/07/1987- Pensão da Zulmira.)

30 de jan. de 2010

RUA DA CONSOLAÇÃO


Caio Martins

Para Simone.








(img: cvm - den222A - 2003)

Menina de olhar claro
corre, me sinto mal...
Chama a yalorisha, me traz
um rum, rumpi, um lê
uma cachaça, porção de sal...

Ardo em desolação...

Corre, menina clara
vem, eu nada quero
só este vinho batizado
esta sopa de cebolas
estas sobras de solidão
feito restos de feira,
quero
levar São Paulo no bolso
explodir na Consolação.

Sôfrego, consumido
quero afagar delirante
teu corpo magoado
alucinar-me com o gosto
de teu suor, saliva, licores
beijar-te, beijar-te,
quero
tocar-te fundo, mais fundo
vezes, mais vezes
sobre mim
não pesarás...

Há um grito nas ruas.
No dolorido silêncio das ruas
há um fulgor na noite...

Será fulminante espetáculo
chama os bombeiros e vira-latas e suicidas
um poeta vai implodir no berço esplêndido
desta pátria mal nascida.

Escorro
pelos vãos de meus medos,
pelos vãos de teus dedos.

Menina de olhar claro
qui tollis peccata mundi,
miserere nobis...
mas, corre!... corre!

Ardo em desolação...

(06/07/1987. Pensão da Zulmira.)



15 de dez. de 2009

PENSÃO DA ZULMIRA


Caio Martins.










(img: cvm - jaquieO3A - 2001)

Zulmira ficou prenha
nem bem saiu de menina...
Botada que foi na rua
virou-se pelas esquinas.

Virou-se de madrugada
juntou cacarecos do chão
levando em cima o filho
virou dona de pensão.

De dia enche a barriga
de bandos de comensais
de noite dorme encolhida
suspirando antigos áis.

Tem olhos de galardia
tem jeito de comichão
todo o resto ficou velho
embora diga que não.

Cozinha, lava e passa
diz sempre que não dá mais
se remexe cheia de dengues
produz cenas teatrais.

Manda à puta que os pariu
diz pencas de palavrões,
na desforra grita sempre
que maluca é o cú da mãe.

Quando lhe disse, porém,
da minha partida tão perto
botou-me seus olhos d’água
botou flores em meu quarto.

Não mais cobrou a comida
chorou de se consumir.
Foi a última inocência
que me restou no Brasil.

(Pensão da Zulmira - 23/06/1987)


12 de dez. de 2009

QUANDO SÃO PAULO CHORA


Caio Martins

Ao poeta Luiz de Miranda








(img: uísque en "las brujas" - fabian perez.)

Deste céu de São Paulo
de estrelas canceladas
caem lágrimas de ácidos.

Num soturno bar oculto
me confronto com o Poeta.

Comovidos,
estampamos na atitude
duas décadas ausentes
de encarniçado pelear
armas e palavras.

Luiz Miranda
vento pampeiro, ciranda
saudando, querendo
salvar o mundo.

Da natureza desolada
desfolhada
esfolada
a pó, resíduos químicos
fumaça de autos
e autômatos
cinzas
de um sonho impretérito
de cimento, vidro e aço
deste inseto canceroso
que chamam cidade
caem
sobre tuas profecias
lágrimas de ácido.

Com que coragem, irmão
lançastes tuas poesias ao trabalho...

Tiveras, talvez, a ventura
de ver teus versos repartidos
“entre vestidos, calcinhas
e sapatos...”

Na tua órbita azul de planetas
na poeira azul de sóis dos anos
não sabes mais amar o transitório,
matéria do meu canto.

E a vida, ávida
atrás de um copo, maneios
das mocinhas ansiosas
te faz gestos obscenos,
te comprime
qual vagina angustiada
de prostituta paulistana
corrosiva
ácida
azul...

(Pensão da Zulmira - 01/07/1987.)


18 de nov. de 2009

TIRO NO PEITO


Caio Martins.

(Despedida de São Paulo - 11/07/1987)











(img: estação júlio prestes - scrappercity)

A cada dia
me despeço um pouco de ti,
lento tiro no peito.

O copo até a boca
teme a gota derradeira.
O corpo do poeta
te percorre, lento
a pé. A passo
percorro teu espaço
num carinho direto
e orbital.

A cada sol
a cada rua
madrugadas
o corpo até a boca
teme a gota derradeira.

O copo até a boca
e meto-lhe o dedo adentro.

Despeço-me de São Paulo
aos poucos, lágrima
escorrendo devagar no vinho
espraiando
nos vincos acres
da boca amarga.

Aqui
não vendi meus versos nas esquinas
não os pendurei nas quinas
de prateleiras e vitrais...
Bati-me a bala, pancada, palavras
ideais...

O nó na garganta
a cabeça oca
passo por estas ruas infelizes
desta cidade sortílega
e infernal.

Profissional de despedidas
vou cada dia um pouco
sem rancores ou revoltas.

A cidade entorna o copo, teatral.

Ah! Como te amo, cidade prostituta
ladra, megera dissoluta
meretriz astuta
marafona demencial...

O copo entornado
na camisa branca
é, a cada dia esvaecente
tua carícia indecente
rubra, despudorada, sem jeito.

A cada dia pungente
é mais um tiro no peito...

1 de jul. de 2009

O CÃO DE AVISOS


Caio Martins










(img: cvm - porta do cárcere da Central de Polícia montevideana, esquina de San José e Yi)

A estaca
estanca a corda
no caminho da rua.

Nesta madrugada em solitária
tudo foi gasto, perdido
na corrosão de mitos.

Já gritei, briguei, joguei
a sorte, a vida, a morte
preparei conspirações
quedas e ascensões.
Enjaulado
confesso ter perdido batalhas.

A estaca
estanca a corda
no caminho da rua.

Dentro da madrugada uiva um cão
louco e comovente
desde sempre preso.

Coleira, corda, portão
o caminho da rua e da vida
acenando do outro lado.
Solidarizo-me.

Sempre fui solidário
com vira-latas,
nem sempre minha mão ficou contida ...

Uiva, meu caro amigo.
Dentro da noite, noite adentro
uiva
até fundires teu lamento
ao cimento da tua estaca.

Uiva alto e a bom som
até fundirem-se, pele e couro
a coleira e teu pescoço, teu ódio
e o osso que roemos juntos.
Uiva, para a noite escutar.

De minha cela de prisão, compañero,
eu que já fui guerreiro
e já não sou poeta, mais nada
uivarei contigo
de meu poleiro.

(montevideo - 27/11/1969 - aislamento del centro general
de instrucción de oficiales de la reserva - cgior)


29 de mai. de 2009

CANÇÃO ACRE PARA LILIANE


Caio Martins
02/02/1968 - Largo de S. Francisco.









(img: cvmO9 - jailson james -XI/O8.)


Ainda eu era menino
botar na linha quiseram.

Não deu certo...
ganhei sermão e pancada.
Desistiram, deram pra rezar.

Sei não, Liliane
mas rezaram errado
nenhum deus me cumprimenta.

Num canto estás
quieta e calada
nua.
(Meu deus, que vergonha!)

Rimos,
não nos deciframos.
(Para quê? Alguém
fugiria com os mistérios...)

Liliane
soltaram a canalha nas ruas
ouvidos secretos soldados
gente rezando errado
com medo de gente nua.

Te dedico meu segredo:
o deus que nos espreita
feroz, violento, forjado
meteria bala de aço
em meu peito aberto
truncado.

Uma bala de chumbo
uma bala de ouro
uma bala...

O resto, Liliane
está guardado na impaciência
de meus atos libertários
armas e livros clandestinos
e nas estórias em que eu,
menino,
alumbrado por tua nudez
desconcertado
sonhava .

8 de mai. de 2009

EULÁLIA


Caio Martins









(img: cvm-eulO34-fractal)

É claro, mulher morena
que me demorei,
tonto
contemplando o agitar de teus seios
movimentos de cio de teus quadris
a reentrância atrevida de teu ventre
tuas coxas perfeitas demais para o momento.

Lá no fundo
(se me deixares conto)
ponto
incandescente de olhos negros
entre um dengo, um palavrão
tua sensualidade agressiva
abria espaços para tua forma de ser
na dor, altiva
no amor uma incógnita
na vida, guerreira
dura chama
que se espalha...

Mas
um carinho e te derretes
um empurrão
e explodes no alarido de mil putas.

E quando entreabres tua boca
úmida de promessas de beijos
quando cantas assim
e teu olhar se abranda
e danças leve, semovente
teu corpo no ritmo perfeito
então, Eulália
teu poeta te percebe
como se fosses uma bailarina
sobre um campo de batalha.

Bar Pão de Queijo - EBID. 14/04/1987-O3:OOh.

19 de abr. de 2009

PEDAÇOS


Caio Martins

Para Cristina Lima









(imgart: cvm - augusto coelho -kelli )

Há um ano,
tantos meses, semanas, dias, horas
(essas bobagens do tempo)
você visitou meu quarto.
Eu era o viajante
o cavaleiro andante
de couraça de lata.

Você visitou meu quarto
perdi minha cama, meu copo
meu prato.
Embebedei-me em seu corpo
chorei em suas mãos,
adormeci exausto de sensualidade
partido em quatro.
Um ano, tanto faz,
tanta memória me atropela.

Partido em quatro
em meu quarto de vida
ficou-me a porta aberta.
Cordial, sempre
a visita de meus fantasmas,
um ano, foi agora
e na cicatriz aberta
seu olhar se desconcerta
enrolada num cobertor azul...

Hoje, agora
o tempo se descompassa
no despertador desconjuntado.
Renuente
observo o telefone e espero
(claro, esqueci o número...)
e tão perto eu lhe pressinto.

Daí fico, neste espaço tão outrora,
numa expectativa baça
em meu quarto agora feito
em pedaços.

(Pensão da Zulmira. 27/05/1987.)

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