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30 de nov. de 2015

BRINQUEDOS

Caio Martins.
















(img: cvm - jaquie - 13/09/2001)

Não me queiras mal,
nem me queiras bem...

No teu abandono
quando, farta
dormitas em meu abraço
depois
de estripulias tantas
e travessuras inconfessáveis
esparramados
dentre travesseiros e lençóis
(a lua indo embora,
transida de susto)
inexplicável
só te quero porque te quero
assim singelo
nada mais...

3 de nov. de 2015

ÀS MUSAS

Caio Martins 


















Perdoem, Musas de meus amores
- eu, que raro falo de mim –
por asperezas e feridades:
não escolhi minhas guerras nem batalhas.
Não me servirão de conforto ou de mortalha
não as percorrerei, como a cidades
devassadas por ímpios mercenários.
Eu
as quero premeditado, sutil, efêmero
vate estrafalário trânsfuga dos guetos
- orgíaco em paixões inexplicáveis -
que amando sedução, aromas, vaidades
tantas malícias e cores
as descrevo e fotografo em branco e preto.

17 de mai. de 2015

SORTILÉGIOS

Caio Martins
(Para Letícia.)













 Percorri a passo
fiel como um cão
cada um de teus roteiros...

Motéis, beiras de estrada
estonteantes céus de estrelas
mares, tempestades, pardieiros.

Até que farta
partistes sem acenos
ou obscenos gestos derradeiros.

Obscuras noites,
tanto vagar em sombras densas
à luz de luas tontas.

E eis que, telúrica,
entre nuvens
nua vens!

Entra...

6 de jan. de 2015

ESPELHOS DE CAMARIM

Caio Martins
















(img: cvm - célia - 02/2001)

Trago fincados os cacos
da tristeza do que não fiz
das guerras que não travei
dos poemas que não escrevi
do vinho que não bebi
do tango que não dancei
na mulher que mais eu quis...


O mundo não dói, só rói
mansamente camuflado
como seu olhar suplicante
como seu olhar de louca
como o beijo de suas bocas
seus abraços delirantes
do jeito que eu sempre quis... 


Trago fincados os cacos
da tristeza que não me quis
e me olham, azuis assim,
teu olho esquerdo vulgívago
teu olho direito infeliz
multívagos estilhaços
de espelhos de camarim.

14 de dez. de 2014

PERDIDOS

Caio Martins.















(img: cvm - Giulia - tela - 13/12/14)

 
Meu destino perdeu-se
como se extravoam
anjos e demônios bêbados
nas putas das esquinas;
perdeu-te
nas marés da tua pele
nos restos benevolentes
que me trouxeste das ruas...
perdeu-me
no teu olhar faminto
de fêmea em cio pungente
de água e ar e terra e frio:
proscritos e medievais
reinventamos antigo inferno
e tu, mulher, louca menina
te perdeste comigo...

23 de nov. de 2014

PROFANOS

Caio Martins

 

















(img: cvm. Jaquie028-2002 - tela)


Não, não me perdoes
não me decifres, nem
adivinhes em tese
ou por força de ofício...

Vem só sóbria, nua
sem fim e sem início.
  
Jamais, meu amor
peças desculpas
ou que te entenda
subentenda ou profetize...

Vem só com o pudor
profano das meretrizes.

(São Caetano do Sul - 23/11/14)

15 de set. de 2014

BRANCO E PRETO

Caio Martins.
 


















 (img: cvm - 2001 - lucienne P&B – tela)


Prefiro-te assim
parca foto em branco e preto
despida de fantasias
só montada em teus desejos.
Quando vens transida, nua
com teus caracóis e tuas tranças
tuas bocas sábias, tanto enleio
teu cheiro de mar,
teu gosto de frutas
a magia dos teus seios.
Quando te debruças
e me resvalas em silêncio
sem pudores, contida
e louca
premeditada
e inerme...
Quando vens
despida de roupas, jóias
tintas, supérfluos requintes
sem compromisso
senão com teus instintos.
Quando vens, inteira
matreira e articulada e voraz  
feito um bicho...
(São Caetano do Sul - 15/09/14)

6 de mai. de 2014

MENINA TRISTE

Caio Martins














 


(img: nathalia - aquarela - P&B - 04/05/14)

Tens no teu olhar um desvanecimento
como se foras a névoa de outono
que lassa e tão perdida em abandono
dissesses, ao passar, de sofrimentos.
 

E segues só, dobrando tuas esquinas
enquanto ao derredor estrala a guerra
inclemente das ruas, que aterra
tantos sonhos perdidos de menina.

Quebrei-me desarvorado em tuas quinas
andarilho em vão, fugaz pó de terra 
que ao ter-te não percebeu os teus lamentos.


Perdidos no cansaço que extermina
tanto amor,  é quando então de rumo erra
tamanha paixão, teu cio e meu tormento.

scs - 04/05/14.


23 de mar. de 2014

Trânsfugas

Caio Martins 
















(img: - cvm - jakie/71)

Te vais de mim
assim mansamente
como um sopro, um
frágil suspiro...

Me deixas na pele
trilhas imprecisas
em meus olhos tua voz
a dizer que me amas.

Por tudo teu cheiro
na boca teu gosto
na cama a calcinha
na mente o caos.

E te esvais de mim...
Eu deveria morrer de desgosto!

Mas, amor, vens e teu poeta
trânsfuga irreparável
dentre tantas Musas vadias
abre porta, braços, geladeira...

Somos depois, enfim,
- entre uma cerveja vulgar
e prosaicas batatas fritas -
o mesmo verso tosco
a mesma torpe poesia.

2 de jan. de 2014

Oceânico

Caio Martins 


Tens, meu amor, em teu olhar
traços de orvalho oceânico
que só os leem sobreviventes
de holocaustos e fins dos tempos
veteranos de amor e guerra
eternos insensatos insolentes.

Deslizo em ti sem que pressintas
e te abraço como um náufrago
contido na boca do pânico
e lamentas e ris e dizes
palavrões e rezas e quebrantos
e me olhas assim sem ver-te
entre delírios, fúria e vaidade...

Tens no olhar fulgores e tormentas
e navego em ti, argonauta solerte
que teme, porém ama as tempestades.

16 de dez. de 2013

Verão

Caio Martins













(foto:cvm - orquídeas - dez.2013)

As flores vadias das ruas
enciumadas
espiam as moças que passam
seminuas
vestidas de verão...

26 de nov. de 2013

Não olhes assim

Caio Martins
















(img: d. richards- tv - 2013 - tela)

Sei dos teus caprichos
marcas, cicatrizes e feitiços
paixão e ira em solstícios
além de qualquer previsão.

Sei de teus amores e sumiços
pendores e calores e odores
ódios e desejos e clamores
riscando o universo de giz.

Não inventei tua beleza
nem és assim por que eu quis
e se me perdi em teus nichos
não é o amor que se desfaz.

O tempo é que é curto e que surta
e encurta e furta a leveza, mas
não me olhes assim, feito bicho!

6 de nov. de 2013

Resquícios

Caio Martins
















(img: cvm - anne67 - 2001) 

Quando eu me for, não lamentes...
Por favor, não chores!

Terás, de meu acidioso ofício
de insanas batalhas contra o Tempo
versos, montes de palavras vadias
fotos de flores, velharias, resquícios
do que se foi, e não se saberá.

Caberá, se um dia amante
relendo antigas poesias,
entrever tantas mulheres comungadas
em profanos rituais e sacrifícios
cujos segredos jamais se saberá.

Mas, amor, se me tens assim, já ido
mesmo que brandindo, patético
espadas e bandeiras em combates
inúteis, não lamentes, nem chores:
de teu amor, tudo se enuncia.

Saberás, só tu, que a nada me neguei
invocando os mistérios de teu riso
de tanto que te amei, um dia...

(scs-06nov13-p/j. d'arc) 

14 de mai. de 2013

Garcia Lorca

Caio Martins
Para Márcia TQM.

 


Escolheu-te ofício áspero, ingrato
de destilar em versos tantos fatos
e dar-te em vez de sóis ou luz de lua
o horizonte escuro, ao rés das ruas.

Te acompanharam sempre os libertários,
as putas com a escória, incendiários.
Por cantares no amor, os seus amores
verteram o teu  sangue, os ditadores.

Espanha cinza de Garcia Lorca!
Longe de tuas guitarras, vinho e dança
tirou-te a vida, a bala, em fúria torta!

Partiste sem grinaldas, excelências,
qual criança de encontro com a morte
restando do teu sangue a tua ausência.

10 de mai. de 2013

Acalanto

Caio Martins
















(img: night - inga nielsen)


Encontrei-te, mulher,
tensa e pretensa e perdida
sem bilhete de volta, diluída
no tapete feroz das ruas
passeios, avenidas...

Comoveu-me teu olhar
de susto, como fosses nua
teu tremor de frio, uma
expressão crua
como que ante um massacre...
Comoveu-me tua beleza
gasta, de menina acre
em bordéis intangíveis
puxados sem pudor onde a fúria
dos homens desatina.

Abriria, não fosse o cansaço
de tantas guerras, incúrias,
braços gentis num abraço
e choraria teu pranto, pronto
cúmplice tonto,  aos pedaços.
Mas,  sem (a)deus te foste
tragada pela multidão faminta
e o mercado e o circo e a feira
- ávidos de fel e restos e mortalhas -
me restaram sem bandeiras. 


A noite, em espanto cinza
(o Sol, covarde,  ocultou-se!)
ruiu ao teu ir de desencanto
e mudo, sorumbático, ranzinza
fui beber um acalento.

Soturno poeta do efêmero
travou-se, seco, meu verso.
No bar, morreu meu canto. 

(scsul - 10/05/13)
 


24 de abr. de 2013

Vertentes

Caio Martins















imgart: cvm - kate beckinsale - tv - abril 2013).


Mesmo que vás
ou eu claudique
- descompasso
de caóticas vertentes -
não te deixarei, renuente
do que amo, tentes ver...

Quimeras vãs, sussurros
clandestinos delirantes

não perfazem tessituras
do que não foi, senão amor,
coisa vã e desvarios
de frágil mente amante...


Se fores luz
serei tua sombra
se pele
serei teu beijo...
Mas, a dor do não ter-te,
não é menor à de perder-te.

Amar... vertentes...

Tentes ver
que a mente amante
mente...

21 de mar. de 2013

Não chora

Caio Martins

Para Jeanne




 












(img.art:cvm - elizabeth 3/2013/contraluz/aquarela)

Não chora, minha menina, o frio espelho
não vai te delatar nem por um triz
ao revelar teus olhos, teu nariz
constritos e culpados, já vermelhos.

Se te faço rir, se triste, perdoa!
As palavras nada dizem, teu riso
(enquanto em meio delas se revoa)
espalha borboletas sem juízo...

Diz que aceitas o aconchego do abraço
que leve, mais sutil do que safado
te faz rir das ciladas que te faço.

E se, farta de riso, eu já calado,
quiseres surpreender o teu palhaço
bastará que me tenhas sem cuidado.


16 de mar. de 2013

Musas

Caio Martins














(img. arte: cvm - elizabeth-2013)


Ah, poeta...
que cenáculo arbitrário escolhem
as Musas
para servir-te ao jantar.
Tens, cibernético e alhures
de escrevinhar a sangue
o mundo que te engole,
expele e reclama e recolhe
até que o tritures,
telúrico moinho inexistencial...

Ah, Musas!
De seus dias em frangalhos, ao poeta
perdoai-lhe
o azedume, a palavra amarga,
o verso troncho e ranzinza
o sentir de impertinência...
Bailareis, eu sei, no templo
espalhando suas cinzas...

Mas tu, Musa tardia, vestal 
irresponsável, fugidia
de meus amores vadios:
me salvas lépida dos festins
de tuas irmãs, eterno cio...

- Que coragem louca e vã...

Divagais, todas, docemente
selvagens, dentre os dentes
de minhas engrenagens...

5 de mar. de 2013

Cortesãs

Caio Martins















(imgart: cvm - kunstlerintv)   


Quando eu não quis morrer, Ela
chegou-se mansa e doce e bela
a perguntar “... e, se se despisse?”...

Arcano das lides e tolices
das (e)ternas prostitutas das ruas
desfrutei-a plena e louca e nua.

Tanto brincamos, vezes tantas
a violar lugares (con)sagrados
bares, templos, gramas, cantos
até partir, tonta de pecados.

Paguei seu preço não pelos ardores,
mas, para que se fora. A Morte
cedeu ao me eximir de seus  favores
emprestando-me à Vida e sua corte.

22 de fev. de 2013

Flor precária

Caio Martins
Para Márcia Sanchez e Luiz de Miranda.
 















(Valkyrie's Vigil by Edward Robert Hughes) 


Quando, feroz e imortal, rugia
aços massacrados em fúria
de combates porventura confessáveis
amores me foram prêmio fugidio.

E  se aqui, a amar insisto e persevero
às valquírias - caprichosas no refrange
dos que vão morrer em batalha -
é que sei do gosto de meu sangue...

De solertes inimigos depredados
o tive farto, nas lanças mercenárias  
e renuir a batalhas de salvar o gado

leva a verve a sendeiros protelados...
Por um só amor cala-se a espada
à Poesia, flor inatingível por precária.


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