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5 de jun. de 2010

O CARRO DE BOI


Caio Martins

Solicitamos, a quem reproduzir, que respeite a autoria. Encontramos, em alguns sites, plágios descarados deste livro. Não é ético, é imoral e criminoso. Nada a obstar às citações honestas, que mencionem autoria e fonte. Tudo a combater contra "vampiros" e "sanguessugas" que se aproveitam do trabalho alheio. Esta é uma causa de todo escritor honesto e leitor consciente.

1. O carro

Tem carro de boi, e tem carreta. Carreta, ou carroção, tem roda raiada e é muda, não canta. Carro de boi tem roda inteira, e canta para se ouvir de léguas, seja gaita, pombo ou baixão . É coisa de sertanejo, é uma saudade doída de um tempo onde se ia devagar, mas havia mais tempo para ver e entender as coisas. Saber de carro de boi, é mexer com magia, é entender a alma da madeira e do ferro, da terra e do fogo, da água e do ar... [...]

(img: capa -1ª edição- 1997 - esgotada)


Veja matéria completa em http://caiovmartins.blogspot.com/p/o-carro-de-boi.html

2 de set. de 2009

A MOÇA QUE ATOLOU NO BREJO


Caio Martins

Ao Paulino Venâncio Martins, meu avô.

Diz que micuim de amor não tem juízo. Daí, que o fazendeiro de infinitas léguas, coroné de baraço e cutelo, pegou umas rosquinhas, uma garrafa de licor de jenipapo, a filha dum compadre de coronelice e farreio, moçoila alemoa solteira e fogosa, ponhou tudo no carrão recém chegado das Oropa e disparou pr'os lajedos do Rio Pardo, perto d'onde hoje ainda é a Fazenda Amália, só pr'a vadiá. Casado e renomado, quando passava com a máquina preta roncando, até galinha ficava uma semana sem botá.

Mas, perto do Águas Claras, a moça grudou ele, o fazendeiro perdeu o bridão do bicho e os dois meteram os quarenta cavalos no afamado Brejão do Sapo, do lado da estrada. E veio gente, tentaram com cavalo e burro de tropa, e puxa e repuxa, o trem parecia era cada vez mais grudado, nada de despená.

Aí, num carro de boi cantador de gaita, veio chegando o Paulino Venâncio, pai do contador que então inda era menino, devagar como se tivesse a vida inteira pr'a chegar em nenhum canto. Tinha oito boi na junta, desses de encher os zóio, cada beleza de animal que Deus fez só para se gabar.

Chegou, parou, assuntou e riu dum jeito matreiro, lá com seus bigodão. Não gostava muito do fulano, e aquela história ia correr o mundo. Ademais a moça era filha de terratenente jagunceiro arrespeitado. Diz-que acoitava o Dioguinho, é, mas ele, sim. E a mulher do atolado era uma jaguatirica de braba, dessas de capá marrote só de zoiá.

- Ô Paulino! Desatrela os bois, puxa e despena meu carro desse atoleiro desgraçado!
- Ô, Coroné!...Uai, sô! 'cê num disse que esse trem tem mais de quarenta cavalo? E tá pedindo ajuda de uns boizim?

E o outro implorou que desatrelasse os oito bois, a moça atolada dentro do carro chorando, aquele povo de capiau na flirtiva se rindo.

- Tá bão, cumpadre! Vou arresorvê! Vou tirá essa porquera pr'ocê!

Gritou para o Aquiles Grande, disfarçado de carreiro, que desatrelasse só a junta de guia, pois para tirar uma tranqueira daquelas, dois boizinhos bastavam. O Sacamoto e o Graúna, no aboio e som do ferrão e atolados até na barbela, foram puxando, estirando e, dai a pouco máquina, moça rindo, licor de jenipapo e rosquinhas estavam na estrada, tudo despenado.

Porque boi, contrário de cavalo, mula e burro, não dá tranco, arrancada, solavanco. Puxa estirado, vai aumentando a força devagar, na sabedoria. Aí, pr'a encurtar essa prosa que já foi longe demais, o fazendeiro disse que o Venâncio podia pedir o que quisesse, já que viu que ele não desgrudava o olho da alemoa, moça ancuda e volteada, parecendo 'té canga ajeitada nas curva das beleza lá dela, agarrada c'o a garrafa de licor e a lata de rosquinha.

Venâncio coçou a barba, ajeitou o bigodão, assuntando a moça, olho no chão, no fulano, foi e voltou, rezoiou, parecendo boi ruminando lá as maracutáia dele.

- Êh, trem bão... 'tá bão! Só que num sei se 'ocê vai dá concordânça! O que eu vô querê, acho que ocê num vai podê me dá!

O fazendeiro, que não queria ser o único a responder por descaminho de moça solteira, crime naquela época, filha de acoitador de jagunço - coisa pior ainda - já basofiou, montando empinado nas botas de canela alta embolostradas de barro:

- Pois, Seu Venâncio: é só pedir e pode levar!

A moça abriu o berreiro, soluçando fundo e magoado.

- Pois, Seu Fabrício: pode me passá o licor de jenipapo e os biscoito, aí, que inté 'tá bem pagado, pela tunda que meus dois boi deu nos seus quarenta cavalo...

*(“Causo” estoriado, de Jayme Venâncio Martins, e publicado no livro “Carro de Boi”, compilação do autor com base na tese de mesmo nome de Horácio Ramalho e apresentação de Luiz Tortorello, para a 8ª Festa do Peão de Boiadeiro de São Caetano do Sul, 1997. O vocabulário manteve-se fiel à gravação. Gráfica Romus. Img: carro de boi de quatro juntas, 1916 - arquivos)


30 de ago. de 2009

COISA FEITA


Caio Martins

Caboclinho calado e magricela, moleque danado posto no eito desde os nove como nos conformes de então e nas lidas da roça, arrastou-se feito cobra entre as taboas do alagado, caçando o vozerio. Falavam arrastado em italianado brasileiro, rindo muito. Assunto? Daí ferveu o sangue: os labrostes falavam de sua mãe, imigrante italiana que, depois de doze filhos, ainda era faceira. O pai, que já fora ilustre nos tempos fartos do café e ia e vinha ao Porto de Santos negociar colheitas na rama, caíra em desgraça por preferir a linda taninha, de treze anos e analfabeta, a uma prima troncha e ilustrada, para garantia das posses da família. Deram-lhe pedaço de terra e o banimento; e um desapego que o acompanhou por vida.

Levavam espingardas e o carcamano debochado e falador, dono da única venda da região, duas garruchas 44 tauxiadas de prata, na cinta. A fúria se aguentou no freio, escorregou feito caxingui e saiu do risco. Subiu, depois da mata, a estrada esburacada e pedregosa, já nas terras do pai. Parou na capelinha e caldeou jura de morte. Não lhe dissera, o velho Aquiles - jagunço que fora pé-de-tronco de Dioguinho nos fins dos oitocentos e que lhe fizera a mão nas armas, que mãe era coisa sagrada? Foi a passo, o sol queimando as costas, aquecendo venenos. Sábado, estavam todos no descanso e preparando o terço. Entrou quieto e saiu calado, a papo-amarelo de esguelha já carregada e o resto da munição no embornal. Pegou o burro Sereno - que burro não dá incerteza - no cabresto, pulou encima em pelo e refez a trilha, a passo.

Desceu fino ante as seis portas da venda, o debochado e a caterva riam no balcão. Chegou manso, cabeça baixa e olhando de lado, de repente falou o nome do sujeito e perguntou que é que estava falando da mãe. Do riso fez-se silêncio de pegar com a mão. Antes de ouvir o “- Que é que tá dizendo, moleque!” - já pipocou o primeiro tiro que torou a ponta da orelha do fulano e botou, eram uns cinco ou seis, os basbaques em correria. E foi a carga toda, menos duas balas, arrebentando garrafas, arrancando trens das prateleiras e, a última, quando o carcamano pulou a janela do fundo, tirou-lhe lasca da bunda. Com duas, ainda tinha de quê se valer no recuo, se acossado, aprendera com o padrinho, o Grande. Saiu devagarinho, solerte, metendo mais munição na carabina. Por todo lado, ninguém. Escafederam.

Chegou em casa na toada em que foi. Na cozinha, pegou os apetrechos do pai e limpou a cortadeira, cuidadosa e concentradamente. A mãe veio e perguntou que diabos andava fazendo com a carabina, no seu sotaque siciliano arrastado e o vestido de terço azul, de golinha e florezinhas fru-fuzando. Disse que só fora afinar a mira, que depois falava com o pai. Veio este, alarmado e bufando. Saíram ao pátio de secar café e contou-lhe os fatos da coisa feita, curto e certeiro. O homem tropicou nos cascos. Parando de xingar, olhou duro o moleque nos olhos, segurando-o pelos ombros e sacudindo:

- Fiadaputa! Cabeça de mula! Por que não me disse antes de armar essa desgraçeira? Eu é que tenho de resolver isso! Por que?
- Porque se o senhor vai, aí ‘tava o boi no chão... Ia e matava. Não tinha senão...
- Senão? Que bosta de senão, seu besta?!
- Daí a mãe ficava sem marido e nós sem pai. Eu sei onde atiro. Eu sumindo, é boca de menos e a família segue sem mais... Mas dá em nada, pai, esse se mete no cu do mundo e nunca mais fala da mãe de ninguém. É um cagão, pai, vai ter outra vez não...

Levou um chacoalhão, sonoro cascudo na cabeça e sapatão na bunda, a ordem de arrumar uma trouxa de roupas, pegar o Sereno e amoitar-se, uns tempos, na distante Lagoa Preta, na casa dos parentes. Lá ainda mantinham, naquele primeiro quarto de século, jagunços e arsenal. Foi. Um tempo, e voltaria herói da mãe, cisma do pai e orgulho do Aquiles Grande, o último dos trabuqueiros. O carcamano sumira e, diz quem conta, estaria correndo até hoje, no Inferno, com o Tinhoso cascando-lhe fogo no rabo.

(img: cvm - pietá - michelangelo, sobre arquivos)

19 de jun. de 2009

O MATO


Caio Martins


Cercado, meteu-se na mata, serra acima. Tirou do carro quebrado e furado de bala apenas a chave de roda, um tapete de borracha, alguns metros de corda de náilon e documentos. No chaveiro, um antigo canivete. Era o que precisava. Não sabia quem eram os perseguidores, mal os vira quando o fecharam com um caminhão velho e, sem aviso, passaram a atirar. Não atinava com motivos, assalto não fora, naquela estradinha safada que ia do nada a lugar nenhum, nela entrara achando que cortaria caminho até alguma via principal.

Não tinha tempo para recriminar-se. Quando ocorre o desconhecido, há que buscar o que se conhece. Num lance entre pedras, já bem acima, viu o caminhão e um carro chegando, os homens saindo de armas na mão. Um deles levava uma carabina. Olharam ao redor, encontraram o rastro, dois ficaram e cinco vieram atrás. No trecho a mata se adensava, havia uma trilha. Desfez, nela, suas marcas com um ramo e meteu-se nas brenhas. Não brigava com as plantas e o terreno: deslizava entre eles.

Sempre para cima, sabia que tinha poucas horas até o fim do dia. A cada fio d’água, bebia o que podia. Avançava devagar, precavido. O perigo maior era uma coral, uma jararaca, jaracuçu, escorpião, correição de formiga, um ninho de quenquém rajada, bichos. Conhecia bem as matas e nada temia, estava em casa. Empurra daqui, rasteja dali, desvia do outro lado, volta e contorna, vai ganhando terreno. Para em intervalos, ouvidos atentos, olhos fechados. Só havia o canto dos pássaros e o zumbido dos insetos. Tinham-lhe perdido o rastro.

Num trecho denso, encontrou a raridade de um jequitibá esguio e muito alto, coberto de cipós desde o topo. Atou as tralhas, buscou o caminho e alcançou a copa, já morrendo o dia. Vistoriou e não havia vizinhos perigosos. Amarrou-se pela cintura e em três pontos dos galhos, o tapete por baixo de encosto, testou o esquema e aprovou. Já passara o medo, o susto. A questão era o porquê. Remexeu cada dia da vida, durante a noite, buscando algum erro, injustiça ou atitude que merecesse ser punida com morte. Nada. Muito longe, clarões denunciavam cidades.

Acordou com a passarada, fim de madrugada fria, mijou no tronco, tirou insetos das roupas. Ali, ele era a comida. Tremia um pouco, ao descer, meio dolorido. No lusco-fusco, acertou o rumo pelo clarão do sol, seguiu noroeste em marcha batida. Ouvia, de muito longe, um rumor permanente. Devia ser a rodovia. Viu um canudo curto saindo de um tronco e comemorou: abelha jataí. A chave de roda foi providencial. À frente, cortou um palmito, achou larva de pau, depois um fio d’água. Fartou-se. Deu graças ao sargento que queria matar, quando no exército.

Meio do dia, ajeitou o tapete num claro e deitou-se. O ruído da rodovia, próxima, o incitava a apressar a caminhada, a razão mandava esperar. Vendo um pedaço de céu, ouvindo o barulho do vento e, de repente, como se lhe caísse um galho na cabeça, atinou: a morena. Há dois dias parara num posto, na barraca de caldo de cana estava a moça linda, que com ele se encantara; pegara um quarto na pousada dos caminhoneiros e, lá, fora a noite de delícias. Ela pouco sabia das coisas. Seriam os irmãos, o pai, namorado, vai saber.

Andou, durante a noite, vários quilômetros até chegar a uma cidade. Lavou-se no posto, comeu, comprou uma mochila, alguns equipamentos úteis e comida em lata. Fez caminho contrário na pressa, de manhãzinha já tocaiava. Conta ao moço da cidade, rindo das memórias de tanto tempo, que, no momento certo, achegou-se ao balcão. Atrás, a morena triste. Fora surrada. Ela confirma, diz que largou tudo e, com extrema cautela, pegaram a estrada do nada para lugar nenhum e sumiram no mato.

(apiaí - dezembro de 1986/2009. img: vale do reibeira - adriano gambarini .)

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