28 de jun. de 2011

BAILARINAS

Caio Martins













(img: cvm - mariann/arquivo - 1998)

Atrás da figura
etérea, desconvexa,
que flutua num palco
como quem
se perde na esquina;
atrás
da sinfonia patética
das cruéis sapatilhas
tules arrogantes,
asfixiantes corpetes
e frágeis calcinhas,
está presente
contida
a mulher
onde o homem se perde
onde o homem se encontra
some e consome;
a mulher
onde tudo começa
onde tudo termina
esperando
escondida
a menor distração
da menina...

Adriana Calcanhoto - de Chico Buarque e Edu Lobo





12 de jun. de 2011

TEUS PASSOS

Caio Martins













(img: cvm - leca35 - 2007)



Te diria todas as palavras
me denunciarias em quaisquer gestos
e náufragos, bêbados, tontos
me perderia em teus caprichos
irremediavelmente
até rasgar-me nos cacos
de teu riso cristalino de mulher...

Até
deixares teus cheiros em meu espaço
rastros de tuas garras em minha pele
e em minha boca teu gosto de (a)mar...

Até
ver a porta que abriste
incerta
fechar-se após teus passos desertos.

Até
alçares, liberta, teu voo
após dizer-me até sempre...
quem sabe...
nunca mais...

(aeroporto de congonhas - 25/12/07)
 

22 de mai. de 2011

O MOMENTO MÁGICO

Caio Martins

Para Stela.












(img: cvm - lucienne059 s/hubble - tela 2007)


A exorbitância de cerveja
os restos de música
estonteavam-me.

A estrada de volta ora se estreitava
ora adquiria os limites do mundo.
Ficava para trás, na velocidade
passava de novo adiante.

Santo porre, confesso.

O guarda noturno, oculto
pelas árvores da minha rua
espreitava
sinistro e curioso.
Saudei-o de um buzinaço...
infelizmente não morreu de susto.

E no meu portão
e no meu jardim
me esperavas, irritada.

Tudo ficara por falar.
Nada nos dissemos, no instante
murmurei “- Vem!”

Na bagunça de meu quarto invadido
baixaste os olhos, engoliste
um soluço, arrancaste tuas roupas,
frenética
as minhas roupas
e nos mordemos, arranhamos, lambemos
uivamos
embriagados de cio.

Prodigiosos
reinventamos o sexo.
Litúrgicos
nos lambuzamos de mel.

E, quando já dia
saí de teu corpo zonzo, extenuado, incrédulo
te demoraste em meu olhar
e levantaste, inspecionaste
os destroços do cenário cheirando a mar e mel
teu corpo e meu corpo
como para ver se restara algo.

Foi nesse estranho momento
que me ocorreu, ateu que sou
que deus ainda inventa coisas como as tuas
e disseste enternecida, como dona:

"- Palhaço!"

(16/03/1986-06:00 -terra nova - sbc.)

5 de mai. de 2011

HIATO

Caio Martins.

Para Ethel.












Sempre há
tenso hiato
entre corpos
de mulher e de homem.

O essencial, melancólica
harmonia caótica
na qual intensos se consomem,
se o sentir se pensa, é fato raro.

Entre quatro paredes, entre
dois, a dança crispa seus disparos,
enlanguesce e se define:

os corpos não têm noção,
nem querem, do que oscila
entre o sórdido e o sublime.

(sbc - páginas amarelas - 01/02/1991 - sp - 05/05/2011).

28 de abr. de 2011

LARGO DE SÃO FRANCISCO

Caio Martins
Para Silvana Garcia











(imgart: cvm - lgosfrancisco-beijo-2009)


Passam as gentes pelos átrios
arcos e capitéis, no páteo
vem a moça sem pressa
levando os seios espetados
bandeiras em dia da pátria
e a menininha disfarça
o medo da imensidão...

O Largo não passa.  

A Faculdade de Direito
de tradição libertária
saúda o velho menestrel.
Já a ocupei em armas
bradei da tribuna alarmas
fugi de ser bacharel.

A Igreja atrapalha
o fluxo da cidade
faz caretas à mocidade
que nela não liga mais.

O Largo de São Francisco
suspira um tempo passado
num templo embolorado
onde havia idéias, ideais
escorrem com letras mortas.

Carrega ossos em suas tumbas
já não produz mais poetas
noturnos de alvorecer
requenta memórias das quais
a cidade esqueceu de esquecer.

A única elisão simpática
na patética estética eclética
cinza, suja, gris
é Silvana que vem flutuante
atrás de seus peitos densos
atrás de seus jeitos mansos
de sorriso desbragado
com sua voz quase rouca
vestido entrado nas coxas
despertar um poeta infenso
que a beija com deleite
e leva como enfeite
rubra boca na boca.

A menininha alerta:
- Mamãe... olha um palhaço! -
e sai correndo, feliz.

(Pensão da Zulmira - 20/07/1987

21 de abr. de 2011

PECADOS...

Caio Martins.














(img:cvm - mariann - 1999)


Tivesses, talvez
apagadas estrelas, outros
tempos, ritmos, rituais
não farias, quem sabe
arderem em fúria medíocres átomos
e amebas cruas, partes
atávicas deste universo
elementar.

Porém, ao teu corpo consumir
meus olhos, estruturas,
a textura de meu sexo
meu nexo e sentidos,
pulsaste liberta e vadia,
ilha in(can)descente
de magia essencial.

Mulher...

E depois ficaram
só os traços
de tuas unhas e dentes
teu abraço
de longos braços e pernas,
teu cheiro, o jeito
de menina antiga, (e)terna,
o sabor acre
desta paixão desorbitada,
ancestral.

Soubessem deste delírio
“irreverente-devasso-amoral”
medíocres átomos e amebas
cruas empedradas,
suspeitassem
- os puros, santos e anódinos -
desta loucura atemporal
e seríamos fuzilados...

(26/12/1990 - sb. do campo)

13 de abr. de 2011

“SHIFT + DEL”: O MUNDO AZUL

Caio Martins
Recebera, numa noite chuvosa e fria, mais uma mensagem da “ex”, intempestiva mulher que o deixara feito trapo de chão ao partir inopinadamente... Pedira-lhe não telefonar (a voz o detonava!) Dizia-se amiga, mas que “estavam num jogo perigoso” ao trocar “e-mails". Dos anos vividos juntos questionara: “- Foi tão ruim assim?” - e que não precisava ser grosseiro ao responder suas mensagens, patati-patatá... Pirou na batatinha! Escrevera em minutos, enviara a mensagem e suspirara fundo... Só releu longo tempo depois:

“Foi mal... E não tenho desculpas para a raiva, bronca ou, como diz elegantemente, "grosseria". Supõe, ainda, reações que uma mulher nunca teve ou terá, no mais das vezes rindo dos meus ou seus momentos de cio e impertinência. Não importasse, não teria suposto e errado. Então diz que sente saudade, sim, e me chama de ingrato... Ou nunca soube, sequer entendeu o que houve comigo até partir e menos ainda depois, ou faz jogo no mínimo irresponsável e noutro extremo, não importando as intenções, muito safado. Luz no picadeiro, a questão como sempre é a do método, todavia este nos trai na mesma proporção que o prazer do jogo nos atrai. Cremos que sempre é menos arriscado com time conhecido. As lembranças de pele são, via de regra, traiçoeiras. Amar é outra coisa, pelo que me penitencio.

Ficaram-lhe, porém, marcas profundas, além de um nome profissional que sempre exigirá explicações principalmente para quem nunca gostará de ouvi-las, às vezes um lugar, ou o comentário num filme, um gesto, cheiro, cor, insignificâncias, quando fantasmas sempre sairão do baú, pois se não há vontade de preservar o outro, NADA foi resolvido e o ciclo se perpetua, com ele péssimos momentos para mim, como os deste ano. Se não pensou nisso, é mais que hora. Não terminou. Tem de terminar. Se pensou, então haja bronca ante a sacanagem.

Fiquei na toca por sobrevivência. Deveria partir, queimar os navios, não deixar rastros nem traços. Deveria ter sido realmente grosseiro e dito que jamais a veria, ouviria ou leria de novo, que fim é fim, porta na cara sem o pé no vão do batente. Contudo, não fui capaz. Errei pensando que você seria. E toda vez na qual cheguei a pensar que, enfim, tinha superado o desastre, a moça vem, virtualmente (timidez?), começando tudo de novo. Qual TUDO? O que couber na pasta Sentimento de Perda. Nada desejável ou elogiável. É tão difícil de entender isso? Que remexer na cicatriz causa dor maior que a do ferimento? Êta! Dramalhão mexicano! Nelson Rodrigues diria diferente, que amor de pica é o que fica... Começamos mal, terminamos pior,e não acho um termo adequado para esta parte do roteiro definido por você como "ficando perigoso". Então, porque cutucar o pior de mim?


Aí, partido entre o orgulho de sabê-la bem sucedida, com promoção, apartamento, telefone, carro e esse "tudo" acima, entre a sensação de prazer por haver acertado plenamente na perspectiva de sua trajetória e o inferno da sua ausência (lá vai o Nelsão, de novo!), não posso adoçar, descartado, ao tê-la remexendo a lixeira. É pedir o impossível. O sintoma mais "dramático", destrutivo e corrosivo é ontológico: a mediocridade do ciúme. Coisas absolutamente imbecis como encher a cabeça perguntando com quem estará, dando para quem, vivendo o quê com quem, e se o tal quem (estranho nome!) sabe que a ... (evitemos palavrões, é grosseria, certo?) telefona e escreve gracinhas, filho da puta de um corno (ao menos intelectualmente...). Ou, do lado adversário, comprar provocação primária e dizer que a outra me mandaria tomar no cu (tanta delicadeza comove!), partindo para trocação (veja os combates do MMA) retórica.


Daí, o Bozzo se pergunta: puta que pariu!!! O quê essa &%$#@+-/|\ quer comigo, aqui quietinho no meu canto, tentando botar ordem na vida no pior ano vivido? Tá com saudade? Foda-se! Se aguente! Tá no cio sem macho? Vá se catar! E segue por aí adiante... É ruim! Muito ruim! Preciso de tudo, menos disso!


Se (ah!, esse infernal, traiçoeiro e covarde recurso patético de sempre deixar uma porta aberta...) não é nada disso, então fodeu tudo de uma vez! Aí só teria o caminho de sumir no mundo, e essa merda dá um trabalho do cacete; não estou mais para heroísmos. Sou eu, não importa como? Sabe o caminho! Não? Perdoe a teatralidade ridícula, mas, fique longe de mim. Não quero brincar mais, estou fora do jogo...”
 


Riu-se do (agora!) ridículo. Nunca obtivera resposta. Nunca mais soubera dela. Veterano de tantas “guerras” - aquela fora a mais dramática - selecionou o arquivo, apertou as teclas “Shift+Del”, desligou a máquina de fazer doido e foi dar peixe ao gato vira-lata na janela. Lá fora naquele outono magistral, tirante a luz amarela da rua, o mundo era azul...

(img: fabian pérez - el farol) 


5 de abr. de 2011

PERMANÊNCIA

Caio Martins













(Img: cvm - jackie2001 s/unbekannt)


Vês, nesta cidade ensandecida
esta casa escancarada?
Entra, fica um só instante.

Não há cadeiras, cama, mesa
só resta um poço com água.
O balde sumiu...

Havia um jardim, já sem flores
mas ainda há terra
não oxidada pelas guerras.

O telhado já caiu, não tenhas medo.
No porão há velharias
famintas de companhia.

Entra! Vem!
Num caco de espelho reflete
teu olhar de susto, tua vida
tão esperada pelas paredes mambembes
ameaçando ruir ao teu menor suspiro.

Estas ruínas pedem
que tua vida as habitem.
Este jardim só deseja
ver crescer capim, matinho...
Pedir flor
seria descabida exigência.

Não temas, não!
De nada importa o que sejas, ou ainda
o que pensas, venhas ser:
esta casa te aceita, não te explica.

Sempre parti cantando
sempre voltei amargo.
- Nunca fui bonzinho, perdoai!

Mas já sonhei, foi lindo
até a vida (re)voltar-se
e dar-me cuspida na cara.

O medo habita comigo
ulcera meu umbigo
corrói meu ânimo
macula meu beijo, mas te recebo
sem qualquer explicação.

(centro acadêmico de scs - a casa da esquina - I. 17/03/1968)

29 de mar. de 2011

NOVO AMOR


Caio Martins

Pour J. D'Arc.












(img:cvm-portman/holograma2011)


Meu novo amor é um mistério!

Surgiu assim como do caos
incólume, envolta em rituais
de inomináveis transparências
a sorrir, eu quedo e sério...

Meu novo amor se manifesta
com palavras pegas a dedo
exige sigilos, segredos
e os deixa em versos num varal...

Não sei de seu gosto ou cheiro
sua voz nunca ouvi, um lampejo
do olhar me diz ser ardente
e louca, palhaça, fatalle.

Se brinco ela chora
se brigo faz festa
a chamo de bicho,
diz que sou bobo
a chamo de tonta,
me diz que sou lobo...

Meu novo amor neutrônico
catódico, cibernético e anônimo
é virtual, quando quer.
Mas, meu deus...

... que linda mulher!...


17 de mar. de 2011

COISA DE BICHOS

Caio Martins
Para Stela e Alceu Valença.













(img: cvm - kelly/galaxia - 1999)

Estendeu-se
num gesto sublinhado
o véu de teus cabelos sobre meus olhos.
Diluí-me nas sombras de teus olhos
sem ansiedade, apenas
vacilei entre a dúvida
e a ironia.

O brilho de um rubi em tua orelha
revelou-me a ardentia de teu rosto.
Percorri teu rosto
vacilando entre o alumbramento
e a fria perfeição de teus traços.

O som de tua voz metálica
como o sustenido de um harmônio
fixou-me em tua boca.
Vacilei entre beijos
ou mordidas.

E assim foi lentamente
com teus braços
tuas mãos
teus seios
tuas pernas
teus pés
teu ventre
até ter-te incontida.

Até sucumbirem tramas
regras, usos e costumes
tua perspicácia
meus notáveis argumentos
diluídos febrilmente
na sofreguidão de momento
da umidade convulsa do sexo
em delírio e desvario.

Coisa de bicho-gente
no cio....


(07/03/1986. Peña Los Hermanos - Pensão da Zulmira)
Como dois animais - Alceu Valença - 1997



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