Caio Martins
Para Stela.
(img: cvm - lucienne059 s/hubble - tela 2007)
A exorbitância de cerveja
os restos de música
estonteavam-me.
A estrada de volta ora se estreitava
ora adquiria os limites do mundo.
Ficava para trás, na velocidade
passava de novo adiante.
Santo porre, confesso.
O guarda noturno, oculto
pelas árvores da minha rua
espreitava
sinistro e curioso.
Saudei-o de um buzinaço...
infelizmente não morreu de susto.
E no meu portão
e no meu jardim
me esperavas, irritada.
Tudo ficara por falar.
Nada nos dissemos, no instante
murmurei “- Vem!”
Na bagunça de meu quarto invadido
baixaste os olhos, engoliste
um soluço, arrancaste tuas roupas,
frenética
as minhas roupas
e nos mordemos, arranhamos, lambemos
uivamos
embriagados de cio.
Prodigiosos
reinventamos o sexo.
Litúrgicos
nos lambuzamos de mel.
E, quando já dia
saí de teu corpo zonzo, extenuado, incrédulo
te demoraste em meu olhar
e levantaste, inspecionaste
os destroços do cenário cheirando a mar e mel
teu corpo e meu corpo
como para ver se restara algo.
Foi nesse estranho momento
que me ocorreu, ateu que sou
que deus ainda inventa coisas como as tuas
e disseste enternecida, como dona:
"- Palhaço!"
(16/03/1986-06:00 -terra nova - sbc.)