28 de abr. de 2011

LARGO DE SÃO FRANCISCO

Caio Martins
Para Silvana Garcia











(imgart: cvm - lgosfrancisco-beijo-2009)


Passam as gentes pelos átrios
arcos e capitéis, no páteo
vem a moça sem pressa
levando os seios espetados
bandeiras em dia da pátria
e a menininha disfarça
o medo da imensidão...

O Largo não passa.  

A Faculdade de Direito
de tradição libertária
saúda o velho menestrel.
Já a ocupei em armas
bradei da tribuna alarmas
fugi de ser bacharel.

A Igreja atrapalha
o fluxo da cidade
faz caretas à mocidade
que nela não liga mais.

O Largo de São Francisco
suspira um tempo passado
num templo embolorado
onde havia idéias, ideais
escorrem com letras mortas.

Carrega ossos em suas tumbas
já não produz mais poetas
noturnos de alvorecer
requenta memórias das quais
a cidade esqueceu de esquecer.

A única elisão simpática
na patética estética eclética
cinza, suja, gris
é Silvana que vem flutuante
atrás de seus peitos densos
atrás de seus jeitos mansos
de sorriso desbragado
com sua voz quase rouca
vestido entrado nas coxas
despertar um poeta infenso
que a beija com deleite
e leva como enfeite
rubra boca na boca.

A menininha alerta:
- Mamãe... olha um palhaço! -
e sai correndo, feliz.

(Pensão da Zulmira - 20/07/1987

21 de abr. de 2011

PECADOS...

Caio Martins.














(img:cvm - mariann - 1999)


Tivesses, talvez
apagadas estrelas, outros
tempos, ritmos, rituais
não farias, quem sabe
arderem em fúria medíocres átomos
e amebas cruas, partes
atávicas deste universo
elementar.

Porém, ao teu corpo consumir
meus olhos, estruturas,
a textura de meu sexo
meu nexo e sentidos,
pulsaste liberta e vadia,
ilha in(can)descente
de magia essencial.

Mulher...

E depois ficaram
só os traços
de tuas unhas e dentes
teu abraço
de longos braços e pernas,
teu cheiro, o jeito
de menina antiga, (e)terna,
o sabor acre
desta paixão desorbitada,
ancestral.

Soubessem deste delírio
“irreverente-devasso-amoral”
medíocres átomos e amebas
cruas empedradas,
suspeitassem
- os puros, santos e anódinos -
desta loucura atemporal
e seríamos fuzilados...

(26/12/1990 - sb. do campo)

13 de abr. de 2011

“SHIFT + DEL”: O MUNDO AZUL

Caio Martins
Recebera, numa noite chuvosa e fria, mais uma mensagem da “ex”, intempestiva mulher que o deixara feito trapo de chão ao partir inopinadamente... Pedira-lhe não telefonar (a voz o detonava!) Dizia-se amiga, mas que “estavam num jogo perigoso” ao trocar “e-mails". Dos anos vividos juntos questionara: “- Foi tão ruim assim?” - e que não precisava ser grosseiro ao responder suas mensagens, patati-patatá... Pirou na batatinha! Escrevera em minutos, enviara a mensagem e suspirara fundo... Só releu longo tempo depois:

“Foi mal... E não tenho desculpas para a raiva, bronca ou, como diz elegantemente, "grosseria". Supõe, ainda, reações que uma mulher nunca teve ou terá, no mais das vezes rindo dos meus ou seus momentos de cio e impertinência. Não importasse, não teria suposto e errado. Então diz que sente saudade, sim, e me chama de ingrato... Ou nunca soube, sequer entendeu o que houve comigo até partir e menos ainda depois, ou faz jogo no mínimo irresponsável e noutro extremo, não importando as intenções, muito safado. Luz no picadeiro, a questão como sempre é a do método, todavia este nos trai na mesma proporção que o prazer do jogo nos atrai. Cremos que sempre é menos arriscado com time conhecido. As lembranças de pele são, via de regra, traiçoeiras. Amar é outra coisa, pelo que me penitencio.

Ficaram-lhe, porém, marcas profundas, além de um nome profissional que sempre exigirá explicações principalmente para quem nunca gostará de ouvi-las, às vezes um lugar, ou o comentário num filme, um gesto, cheiro, cor, insignificâncias, quando fantasmas sempre sairão do baú, pois se não há vontade de preservar o outro, NADA foi resolvido e o ciclo se perpetua, com ele péssimos momentos para mim, como os deste ano. Se não pensou nisso, é mais que hora. Não terminou. Tem de terminar. Se pensou, então haja bronca ante a sacanagem.

Fiquei na toca por sobrevivência. Deveria partir, queimar os navios, não deixar rastros nem traços. Deveria ter sido realmente grosseiro e dito que jamais a veria, ouviria ou leria de novo, que fim é fim, porta na cara sem o pé no vão do batente. Contudo, não fui capaz. Errei pensando que você seria. E toda vez na qual cheguei a pensar que, enfim, tinha superado o desastre, a moça vem, virtualmente (timidez?), começando tudo de novo. Qual TUDO? O que couber na pasta Sentimento de Perda. Nada desejável ou elogiável. É tão difícil de entender isso? Que remexer na cicatriz causa dor maior que a do ferimento? Êta! Dramalhão mexicano! Nelson Rodrigues diria diferente, que amor de pica é o que fica... Começamos mal, terminamos pior,e não acho um termo adequado para esta parte do roteiro definido por você como "ficando perigoso". Então, porque cutucar o pior de mim?


Aí, partido entre o orgulho de sabê-la bem sucedida, com promoção, apartamento, telefone, carro e esse "tudo" acima, entre a sensação de prazer por haver acertado plenamente na perspectiva de sua trajetória e o inferno da sua ausência (lá vai o Nelsão, de novo!), não posso adoçar, descartado, ao tê-la remexendo a lixeira. É pedir o impossível. O sintoma mais "dramático", destrutivo e corrosivo é ontológico: a mediocridade do ciúme. Coisas absolutamente imbecis como encher a cabeça perguntando com quem estará, dando para quem, vivendo o quê com quem, e se o tal quem (estranho nome!) sabe que a ... (evitemos palavrões, é grosseria, certo?) telefona e escreve gracinhas, filho da puta de um corno (ao menos intelectualmente...). Ou, do lado adversário, comprar provocação primária e dizer que a outra me mandaria tomar no cu (tanta delicadeza comove!), partindo para trocação (veja os combates do MMA) retórica.


Daí, o Bozzo se pergunta: puta que pariu!!! O quê essa &%$#@+-/|\ quer comigo, aqui quietinho no meu canto, tentando botar ordem na vida no pior ano vivido? Tá com saudade? Foda-se! Se aguente! Tá no cio sem macho? Vá se catar! E segue por aí adiante... É ruim! Muito ruim! Preciso de tudo, menos disso!


Se (ah!, esse infernal, traiçoeiro e covarde recurso patético de sempre deixar uma porta aberta...) não é nada disso, então fodeu tudo de uma vez! Aí só teria o caminho de sumir no mundo, e essa merda dá um trabalho do cacete; não estou mais para heroísmos. Sou eu, não importa como? Sabe o caminho! Não? Perdoe a teatralidade ridícula, mas, fique longe de mim. Não quero brincar mais, estou fora do jogo...”
 


Riu-se do (agora!) ridículo. Nunca obtivera resposta. Nunca mais soubera dela. Veterano de tantas “guerras” - aquela fora a mais dramática - selecionou o arquivo, apertou as teclas “Shift+Del”, desligou a máquina de fazer doido e foi dar peixe ao gato vira-lata na janela. Lá fora naquele outono magistral, tirante a luz amarela da rua, o mundo era azul...

(img: fabian pérez - el farol) 


5 de abr. de 2011

PERMANÊNCIA

Caio Martins













(Img: cvm - jackie2001 s/unbekannt)


Vês, nesta cidade ensandecida
esta casa escancarada?
Entra, fica um só instante.

Não há cadeiras, cama, mesa
só resta um poço com água.
O balde sumiu...

Havia um jardim, já sem flores
mas ainda há terra
não oxidada pelas guerras.

O telhado já caiu, não tenhas medo.
No porão há velharias
famintas de companhia.

Entra! Vem!
Num caco de espelho reflete
teu olhar de susto, tua vida
tão esperada pelas paredes mambembes
ameaçando ruir ao teu menor suspiro.

Estas ruínas pedem
que tua vida as habitem.
Este jardim só deseja
ver crescer capim, matinho...
Pedir flor
seria descabida exigência.

Não temas, não!
De nada importa o que sejas, ou ainda
o que pensas, venhas ser:
esta casa te aceita, não te explica.

Sempre parti cantando
sempre voltei amargo.
- Nunca fui bonzinho, perdoai!

Mas já sonhei, foi lindo
até a vida (re)voltar-se
e dar-me cuspida na cara.

O medo habita comigo
ulcera meu umbigo
corrói meu ânimo
macula meu beijo, mas te recebo
sem qualquer explicação.

(centro acadêmico de scs - a casa da esquina - I. 17/03/1968)

29 de mar. de 2011

NOVO AMOR


Caio Martins

Pour J. D'Arc.












(img:cvm-portman/holograma2011)


Meu novo amor é um mistério!

Surgiu assim como do caos
incólume, envolta em rituais
de inomináveis transparências
a sorrir, eu quedo e sério...

Meu novo amor se manifesta
com palavras pegas a dedo
exige sigilos, segredos
e os deixa em versos num varal...

Não sei de seu gosto ou cheiro
sua voz nunca ouvi, um lampejo
do olhar me diz ser ardente
e louca, palhaça, fatalle.

Se brinco ela chora
se brigo faz festa
a chamo de bicho,
diz que sou bobo
a chamo de tonta,
me diz que sou lobo...

Meu novo amor neutrônico
catódico, cibernético e anônimo
é virtual, quando quer.
Mas, meu deus...

... que linda mulher!...


17 de mar. de 2011

COISA DE BICHOS

Caio Martins
Para Stela e Alceu Valença.













(img: cvm - kelly/galaxia - 1999)

Estendeu-se
num gesto sublinhado
o véu de teus cabelos sobre meus olhos.
Diluí-me nas sombras de teus olhos
sem ansiedade, apenas
vacilei entre a dúvida
e a ironia.

O brilho de um rubi em tua orelha
revelou-me a ardentia de teu rosto.
Percorri teu rosto
vacilando entre o alumbramento
e a fria perfeição de teus traços.

O som de tua voz metálica
como o sustenido de um harmônio
fixou-me em tua boca.
Vacilei entre beijos
ou mordidas.

E assim foi lentamente
com teus braços
tuas mãos
teus seios
tuas pernas
teus pés
teu ventre
até ter-te incontida.

Até sucumbirem tramas
regras, usos e costumes
tua perspicácia
meus notáveis argumentos
diluídos febrilmente
na sofreguidão de momento
da umidade convulsa do sexo
em delírio e desvario.

Coisa de bicho-gente
no cio....


(07/03/1986. Peña Los Hermanos - Pensão da Zulmira)
Como dois animais - Alceu Valença - 1997



4 de mar. de 2011

A Espada

Caio Martins

(Veja abaixo "O Espelho", complemento desta crônica)


Aproveitando propício momento, fora atrás do sonho ainda muito menina, uma criança. A “Primavera de Praga” sucumbira sob os tanques soviéticos, havia desencontros e confusões, agitação e tristeza por toda a então Tchecoslováquia. Passou sua figura miúda e leve por manifestantes, soldados, chuva de pedras e nuvens de gás lacrimogêneo. Encontrou a ladeira de pedras antigas e a porta de ferro batido, as escadarias de carvalho e, numa sala soturna, iluminada por candeeiro a óleo, o velho sumido em trapos. A mão da mãe a soltou.

- Vim buscar a espada!
- disse, num idioma inóspito e que lhe era estranho. O velho indicou-lhe onde. Pesada, corroída pelo tempo, a madeira do cabo desaparecera há décadas, talvez, mais de séculos. Beijou a mão ressequida e frágil, pegaram a conquista e saíram apressadas. A relíquia passou alfândegas com funcionários relapsos e cansados de alguns países até, finalmente, chegar em casa. Levou-a, anos depois, a ferreiro perdido no fim do mundo, nas serras de Minas, e pediu-lhe a reconstrução. Esse também, sem palavras vãs, pegou, sopesou e pediu-lhe um mês. Estremecera de emoção. O pai, companheiro da empreitada, também.

Nos trinta dias, pegou-a. Perfeita, polida, o cabo de raiz de jacarandá amoldando-se em suas mãos pequenas como se juntos tivessem nascido. Pagou em ouro, moeda trazida de outras eras e herdadas em gerações. Lauma respirou fundo, intangível, verificando a arma ancestral milímetro a milímetro em busca de imperfeições inexistentes, fora as cicatrizes de batalhas, e pegou o caminho de volta. Completaria o ciclo com o espelho, quase impossível de encontrar. Agora, vinte e um anos passados, haveria de tê-la em ritual milenar, repor sua marca e intensidade para, finalmente, dotar-se do último elemento para a definitiva consagração espiritual.

Contudo havia um homem, frágil e perdido de si e do mundo, que lhe entrara pela pele e tornara-se, ao mesmo tempo, numa promessa de amor e perspectiva de um desastre. Daniel... reduzido, de líder emblemático e moderno guerreiro, a espantalho lamentoso por ter-lhe cruzado o caminho, na hora errada, um anjo perdido; fêmea primitiva e oblíqua, para quem o mundo começava e terminava nas genitálias e, pela graça e beleza, seduzia instintivamente os alfas de sua espécie. Letícia...

Conseguisse centrar-se, seria sua própria salvação, a libertaria para seguir sua saga e seus caminhos. Não podia permitir-se odiá-la, porém, odiava. Na sua linhagem e tradição, eram-lhe vedados humanos sentimentos banais; paixão e ódio, rancor e mágoas, desejo e medo... Filha do equilíbrio e da sabedoria, Lauma chorara apenas uma vez, quando aquele homem fraco a inundara de tanto carinho que perdera, além do controle, a férrea vontade e certeza de sexo ser como singela busca de alimento, madrugada em curso, num assalto à geladeira. Letícia era promíscua, indecorosa, irresponsável, indecente, impudica, compulsiva... E Daniel, um fraco. Ela? Uma vestal...

Teria de purificar-se e elevar-se, pôr-se acima e distante de inconsistências e vulnerabilidades cuja única função era pô-la à prova. A espada, de ferro transformado em aço na têmpera em um ser vivo, quiçá um guerreiro, há séculos, era sua garantia de poderes tais que, num momento relapso, ao putear contra um homem, matara por tabela o cãozinho da família, oculto sob o carro. A espada lhe daria o controle e a sintonia de seu lado destrutivo. Seria sua garantia, na verdade contra si mesma, e sorte de muita gente.

Limpou-a cuidadosamente, em minúcias. Empunhou e cedeu ao peso. Não era para batalhas, em tempos ditos civilizados. Depositou-a carinhosamente num altar na parede norte de seu quarto, entre cristais - alguns preciosos - envolta em villuto carmim sob um atilho de seda azul; o mesmo que, trançado, lhe segurara os cabelos quando conhecera Daniel. Satisfeita, determinada e feliz, foi à cata dos elementos que utilizaria em sua liturgia, na noite em que a lua seria apenas uma curva imperceptível na escuridão do céu. Ervas, pedras, metais, terra, fogo, água e banhada em ar, outros segredos e mistérios.

Sentou-se na cozinha, espichando as pernas e braços, espreguiçando-se prazerosamente. O gato subiu-lhe em cima e, ronronando alto, aninhou-se-lhe no colo. Sentia-se bem, apenas a memória do corpo incomodando sutilmente com reprises do sexo desbragado com um homem instável que, curto tempo atrás, a fizera sentir-se estupidamente mulher pela primeira vez na vida.

- Sabe que mais, gatinho? A sua dona está ficando louca...

(img: cvm - têmpera - trecho de “zero-hora: um anjo perdido” 1996 - publicada em 16/09/2009 .)


O Espelho

Caio Martins
A habitação é singela e minuciosa: forro e assoalho de madeira escura, móveis antigos restaurados com primor, pesado candelabro de cristais no teto, janelas e venezianas deste ao chão dando para o pequeno balcão de grades de ferro forjado. Há bibelôs caros, de coleção, dispostos como que se ao acaso nas estantes de livros como que para justificá-las. A cortina, levemente entre o bege e azul, deixa entrar a luz da manhã e impede a visão de vizinhos abelhudos. O tom, no interior, é sutilmente azulado.

O incenso lembra florestas, os círios em taças vermelhas e azuis mal se consomem. À sua frente, numa bandeja de cobre, estão pequenos objetos como cristais, gemas, pedrinhas, ossinhos, metais, sementes, cercando pesado meteorito quase esférico. Atrás, próxima de suas costas, está fincada a espada com sua empunhadura de madeira sangue, defesa e cabeça de bronze e lâmina polida e brilhante, marcada de cicatrizes de batalhas; oscila quase imperceptível, a sensibilidade da têmpera do aço absorve as menores vibrações da rua, da casa, do ar, da dona. Após, o grande espelho oval de cristal eslovaco.

Minuciosa e pacientemente, Lauma centra-se no espelho às suas costas. É alto, apresenta na superfície relevos apenas perceptíveis, sulcos improváveis, depressões aparentemente ilógicas e a austeridade de existir desde sempre. O bisel do perímetro irradia arcos-íris. Vira-o em sonhos percorrendo os espaços, percorrera antiquários até encontrá-lo, novamente em Praga. O “marchand” descrevera-o como milenar, elaborado do mais puro cristal de quartzo, revestido da mais pura prata. E propusera preço bestial. Contrapusera oferta ridícula, brigaram, mas o “marchand” fora incapaz de sustentar seu preço: despira-se ante o objeto, observara-se uns minutos nua e afirmara convicta: “- É meu!”.

Ao homem boquiaberto, estendera-lhe um cheque de valor sofrível e ordenara que o embalassem rigorosamente, acompanhando embarque e desembarque. Recorrera ao velho mestre restaurador das Minas Gerais, pagara sem discutir uma exorbitância em moedas de ouro e tinha-o, desde então, com rara moldura de ferro batido e jabuticabeira. Submetera-o a complexos rituais de exposição ao sol e à lua, limpezas com águas de mar, chuva e de fonte, batismo com arabescos de seu próprio sangue até o encantamento final, no círculo de velas e círios. Ele respondera, o triângulo central se lhe revelara nítido, a miríade de inscrições, figuras, traços e sinais deixaram-se contemplar.

Os cabelos negros, ainda curtos, estão macios e brilham como pelo de bicho sadio; os olhos poucamente rasgados harmonizam-se com o nariz pequeno, a boca de traços nítidos e equilibrados. O oval do rosto concebe-se com exatidão sobre o pescoço longo e fino, ombros frágeis e o colo atraem pela sensação de aconchego e maciez, seios surgindo sem resistências, pequenos e de aréolas ligeiramente escuras, síncronos. Os braços seguem a tendência, as mãos são delicadas e finas, de longos dedos; a cintura marca-se naturalmente e as costas retas encimam nádegas firmes, coxas de proporções esmeradas, pernas e pés são obras de joalheria. Há que saber ver Lauma. O sexo de forma extremamente precisa tem a candura do de uma criança, parcamente relevado sob negros velos, recendendo a mar. No instante, é nele que Lauma se resume.

As ondas de calor, luz e radiações percorrem-na na pele eriçada, penetram-na fluídos, dissipam-se por seus pés, afloram-lhe na mente. Repete-se o ciclo sem pressa ou interrupções, nas horas que passa depositada em pequeno tapete grená, as mãos cruzadas sob o diafragma portando a opala opalescente. No centro da cabeça, um topázio, sob a separação da vulva e o ânus, a turmalina negra. Concentra, dirige, absorve e dissipa energias pelo prazer de transformar instinto em luz. Hoje, sabe conviver com esse prazer, conhece os mecanismos dessa preparação, agindo sem esforço, totalmente abstraída de si e do local. Sintoniza-se com segredos e objetos milenares e, sentada de pernas entrelaçadas, dir-se-ia melhormente que flutua.

Tem o domínio do corpo, é esse ambiente. Sua beleza apura-se, perfaz-se atemporalmente, encontra-se no auge de força e poderes, nada afeta sua ligação cósmica. Afaga com ternura seus anjos e demônios. Ronronando, o gato cinza de tons escuros próximos ao azul profundo esparrama-se na cama ao lado, observando-a de olhos semicerrados, pontinha de língua de fora. Vez por outra, move um mínimo o rabo. Lauma descruza eternamente as mãos, estende ao alto os braços de dedos entrelaçados e indicadores retos. A lentitude dá maior beleza ao movimento em direção ao teto e além deste. Os seios realçam-se, bicos duros, o rosto expressa paz e serenidade, a boca abre-se demasiadamente perfeita, lábios aquecidos e confortantes. O gato, inquieto, muda de posição, ronronando alto.

No conjunto de sensualidade, paz, delicadeza e suavidade Lauma condensa-se em sua plenitude, sabe que deve obrigatoriamente desfrutar desse momento incomum e quase impossível de ser conseguido, pois antes não era capaz, depois não mais terá condições. Outro será seu trabalho. Despede-se de vínculos, um vento agita as cortinas, o gato mia e escorrega para o sol lá fora. Retoma-se no momento em que vive. Boceja, sorri, respira com gosto. Junta os badulaques parcimoniosamente, cantando cantigas de encantar. Depõe os círios na lousa de mármore azul da parede norte, ao lado e alto da cama, à cabeceira da qual a espada é ajustada em seus suportes. Envolve-se num roupão cor de pitanga e vai contemplar o bairro desde o balcão. O espelho a espia, agora opaco, pelas costas.

(img: womanstudio81 - trecho de zero hora, um anjo perdido - 1996.)

25 de fev. de 2011

PEIXES FRITOS

Caio Martins
















(img: grilhões. foto: lee garland/bbc brasil)

Os meus amigos sabem:
não zombarei das palavras.
Brincarei, contudo
com seu sentido, porém
exigirei de mim um instante
de disciplina e solidão.

As usarei, impunes
na comoção de moça reticente
justificação de noite mal dormida
prisão de ventre
dizer, do governo,
que é ladrão.

Desprezo montagens raras
purpurinas, holofotes
parafernálias visuais...
Bastam-me um lápis, um papel
a voz que não conseguiram calar
nesta curta eternidade consumada.

Desajeitado escriba menor
deixarei as palavras me aliciarem,
eternas visitas inconformistas
feias cicatrizes em feridas
limpando a bunda com mentalidades torpes
demasiado preocupadas com críticos de arte.

Nem brincar com palavras
nem versos como armas, nem
grilhões dourados de escolas, estilos, imposições:
chegará o dia de estarmos todos mortos.

Destilarei meus humores
meus amores
meine Weltanschauung estropiada
mi tesón por la vida como vierem
escrevendo, escrevendo, escrevendo
e me bastará que em meus versos
meus amores se riam, festeiros
meus amigos me abracem,
meus inimigos me desconheçam.

Os restos são o sentir latente
lancinantes gestos, viveres, fatos
consumidos sem tratos
longe de tantos sóis, patéticos
aplausos de deuses, demônios formatados
como peixes fritos
num prato.

Pensão da Zulmira - 26/06/1987.

17 de fev. de 2011

PAPEL NO BAR


Caio Martins.


Amigo fiadaputa... tomava cachaça, nada além de cachaça e chope, dizendo que uísque e quejandos eram coisas de boiola - sem fazer concessões para qualquer química colorida ou perfumada. E triturava, feito um degenerado, pratadas soberanas de torresmo na falta de iscas de peixe, amante obcecado de feijoadas, picanhas, costelas, pernas de cordeiro... Magro feito um cabo USB apesar de tudo, calado e quieto e olhos vigilantes, parecendo estar sempre pronto para saltar e sair na porrada. Não sentava de costas para as portas ou janelas, escolhia sempre os cantos, de onde observava, com olhar cínico e perfunctório, a mulherada. E as havia, aos montes, solitárias e ansiosas e despudoradas.

- E aquela loiraça? Vai dizer que não é um avião? Já-já ‘tô nessa, mano...
- Uh! Sei não! 'Cê ‘tá muito antigo, m’ermão. Agora é informática... Avião já era... Fosse, essa seria teco-teco... Perna curta, bunda baixa, teta de silicone, tingida e mais rolada que pedra de rio... Sucata!
- Caaraalho! Já se olhou no espelho, meu? Passou do prazo de validade faz tempo, nem falar da garantia e esnoba um mulherão desses? ‘Tá precisando de camisa de força, meu!
- ‘Tá afim de faturar uma grinfa, ou tá dando mole p’ra cima de mim? Quero não! Bagulho por bagulho fico comigo mesmo! Vai lá, que o açougue tá aberto, meu! Vai, borracheiro!

Chamou o garçom e pediu mais uma e mais um. Saiu para fumar na esquina. Nestes tempos de “politicamente correto”, era um belzebu anacrônico - a moda era “bala”, cristal, cocaína. Voltou, o amigo papeava com a loiraça, ambos cheios de risos e salamaleques de moda nas baladas. Era dos tempos das noitadas e boemia. Tomou a cachaça de a golinhos, triturou um torresmo, arrematou com o chope. Daí o novo casal da balada veio; levantou-se frio feito rabo de foca. Apresentados, olhou a moça da cabeça aos pés, rodeou, pediu licença e passou-lhe a mão na bunda. Ela deu um pulinho e disparou num riso incontrolável. - Cara mais louco! - repetia.

- ‘Tá certo... Tá certo... Inda ‘tá de jeito, dá pro gasto. Vão com deus, crianças - e voltou a sentar-se, aparentemente alheio a tudo e todos. O outro - indignado - catou a boneca, de arranque, e saíram sem despedirem-se. Ficou no canto, isolado e invisível, os olhos incisivos não perdoando nada nem tudo, manguaçando ritualmente. Levantou o dedo, o garçom veio pachola. Pediu papel e uma caneta. Impudica e misteriosa, ousada e atrevida, mas solene e serena feito uma gota de orvalho num parabrisas (tinham-se extinguido, há tempos, as flores), a lágrima levou uma eternidade até explodir no tampo sintético da mesa. Não é fácil escrever à mulher amada, ausente pelos milênios etc.. - Puta ironia! - se dissera ao despedi-la.

Escreveu um poema devagar e com letra excepcionalmente caprichada como não se usa mais, depois leu várias vezes. O garçom trouxe outra leva de mineirinha esperta, dispensou o chope e o torresmo. Deixando o papel sobre a mesa saiu para outro cigarro politicamente incorreto, chovia parcamente. Pertinho, a praça. Na praça, o banco... Alí o encontraram - a falsa loira siliconada de bunda baixa e o amigo - quase no raiar do dia, teso e lagrimado da chovisna, um rito feliz no rosto paraláxico e mortinho da silva.

Morrera de amor e de saudades.

(img: amigos - tela de joão werner)







Categorias, temas e títulos

Seguidores