Caio Martins.

- E aquela loiraça? Vai dizer que não é um avião? Já-já ‘tô nessa, mano...
- Uh! Sei não! 'Cê ‘tá muito antigo, m’ermão. Agora é informática... Avião já era... Fosse, essa seria teco-teco... Perna curta, bunda baixa, teta de silicone, tingida e mais rolada que pedra de rio... Sucata!
- Caaraalho! Já se olhou no espelho, meu? Passou do prazo de validade faz tempo, nem falar da garantia e esnoba um mulherão desses? ‘Tá precisando de camisa de força, meu!
- ‘Tá afim de faturar uma grinfa, ou tá dando mole p’ra cima de mim? Quero não! Bagulho por bagulho fico comigo mesmo! Vai lá, que o açougue tá aberto, meu! Vai, borracheiro!
Chamou o garçom e pediu mais uma e mais um. Saiu para fumar na esquina. Nestes tempos de “politicamente correto”, era um belzebu anacrônico - a moda era “bala”, cristal, cocaína. Voltou, o amigo papeava com a loiraça, ambos cheios de risos e salamaleques de moda nas baladas. Era dos tempos das noitadas e boemia. Tomou a cachaça de a golinhos, triturou um torresmo, arrematou com o chope. Daí o novo casal da balada veio; levantou-se frio feito rabo de foca. Apresentados, olhou a moça da cabeça aos pés, rodeou, pediu licença e passou-lhe a mão na bunda. Ela deu um pulinho e disparou num riso incontrolável. - Cara mais louco! - repetia.
- ‘Tá certo... Tá certo... Inda ‘tá de jeito, dá pro gasto. Vão com deus, crianças - e voltou a sentar-se, aparentemente alheio a tudo e todos. O outro - indignado - catou a boneca, de arranque, e saíram sem despedirem-se. Ficou no canto, isolado e invisível, os olhos incisivos não perdoando nada nem tudo, manguaçando ritualmente. Levantou o dedo, o garçom veio pachola. Pediu papel e uma caneta. Impudica e misteriosa, ousada e atrevida, mas solene e serena feito uma gota de orvalho num parabrisas (tinham-se extinguido, há tempos, as flores), a lágrima levou uma eternidade até explodir no tampo sintético da mesa. Não é fácil escrever à mulher amada, ausente pelos milênios etc.. - Puta ironia! - se dissera ao despedi-la.
Escreveu um poema devagar e com letra excepcionalmente caprichada como não se usa mais, depois leu várias vezes. O garçom trouxe outra leva de mineirinha esperta, dispensou o chope e o torresmo. Deixando o papel sobre a mesa saiu para outro cigarro politicamente incorreto, chovia parcamente. Pertinho, a praça. Na praça, o banco... Alí o encontraram - a falsa loira siliconada de bunda baixa e o amigo - quase no raiar do dia, teso e lagrimado da chovisna, um rito feliz no rosto paraláxico e mortinho da silva.
Morrera de amor e de saudades.
(img: amigos - tela de joão werner)
Excelente conto de poesia, de amor, de vida e de morte, acompnhado de maravilhosa canção interpretada por divina artista...fecha-se o círculo perfeito.Bom demais!
ResponderExcluirCaio
ResponderExcluirUm cara que come torresmo e bebe cachaça e fuma morreu de amor, de saudade...e de cachaça e torresmo e de fumo. Putz. Legal a crônica tragi-cômica. Abraço. Milton Martins.
Esse poeta morreu mais é de torresmo e de birita,concordo com o Milton; muito confortável responsabilizar os velhos amores ausentes havia milênios pelas gororobas que engoliu anos a fio. A cigarraiada que entupiu seus pobres pulmõezinhos ficam inocentes, isentas de qualquer peso. "Fumar é um prazer, sensual, lalala´... fumando espero aquela que mais quero..." Estranha felicidade, bem narrada num tom de ironia.Gardel ao fundo.
ResponderExcluirQue imagem bonita a da lágrima, Caio! E o poema, escrito com letra caprichada para falar à mulher amada! Sentimentos e atitudes que a humanidade insiste em matar, mas que permanecem intactos em quem não tem a alma pequena...
ResponderExcluirBeijos
Márcia
Caio, cada vez que eu venho no teu blog mais encantada eu fico com teu absoluto bom gosto na forma e no conteúdo. Espero que, no futuro, todos sejamos como você. Bjão.
ResponderExcluirIsabel.
www.isabelvasconcellos.com.br
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twitter: @bellavas
Guaraciaba, tentei deixar margem a todo tipo de especulações, dado que vivemos num tempo no qual "não se morre mais de amor". Feliz que tenha gostado, volte sempre.
ResponderExcluirMilton, a personagem atípica (e contraditória) revela, no fundo, que tudo "politica ou culturalmente correto" é de celestial chatice... Todavia, ri muito do seu comentário, poético apesar do pragmatismo. Forte abraço, Mestre.
Aracéli, como autor bom de garfo/copo e boêmio, não "mataria" a personagem de cirrose, embolia pulmonar, enfarte ou bala, seria muito melodramático: a chave é a frase da despedida da mulher ausente (morta) há milênios, ele ficando: "-Puta ironia!" E, foi atrás, foi feliz... Preferi, por isso, Pixinguinha e João de Barro, por Elis, ao Gardel. De fato, "estranha felicidade". Beijos, maninha.
Essas são outras âncoras da crônica, Márcia: o "ponto final" da lágrima, ausência de flores (humanidade), a letra impecável para palavras não reveladas, o papel ficando no bar com seu mistério. Ausências insolúveis podem ser extremamente pungentes. Grato por sua presença, minha amiga. Beijos.
Isabel, é uma honra receber suas palavras tão generosas. Creio, definitivamente, que melhor seria serem, todos, como você. Obrigado pela visita, é sempre bem vinda. Beijos.
No fundo todos quereriam um tasco do torresmo do tempo do jeito.
ResponderExcluirDesce tudo muito bem com uma geladinha.
Muito fiel à conversa de bar e criações etílicas! Parabéns!
ResponderExcluirAraceli Sobreira
Cronista da vida.Gostei.Cronista de noites e bares.Muito bom.
ResponderExcluirMe fez voar no tempo, velha Porto Alegre...
ResponderExcluirsaudações,
Paulo.
Até o título tem alguma coisa camuflada e o personagem fêz o seu "papel no bar" antes de ir desencantar na praça. Todo mundo vai um dia, que importância tem se foi de colesterol ou de amor. O "b" está certo, manda uma gelada com torresminho para acompanhar a ouvir a Elis. E tenho dito.
ResponderExcluirOsmar Grazzini
Se se morre de amor :)
ResponderExcluirBárbara (b), está certa! Tenho muita precaução com fundamentalistas, principalmente os inquisidores xiitas da moral e dos costumes. Saúde!
ResponderExcluirAraceli (Pedra do sertão), agradeço sua visita e o comentário. Quem escreve, como você, sobre jasmins e ama beija-flores, só pode ser iluminada dos deuses. Volte sempre. Abraço.
Cristina, o que incomoda é existir tanta riqueza por aí, pela Vida, e não sermos capazes de retratá-la nem em várias existências. Mas, não há que parar de tentar. Grato pela visita, volte sempre.
Paulo, que saudades da velha Porto Alegre... Tenho por aí o meu irmão Luiz de Miranda, que a canta (e decanta) em versos épicos e líricos. Agradeço sua visita, suas palavras e o cumprimento pelo seu blog.
Osmar, fez seu papel, sim... Não importa como se morre, mas, como se vive. Em tempo: "b" não é menino, é menina... Abraço, volte sempre.
Vanessa, fiquei feliz com sua visita (sempre uma honra), estava sentindo sua falta. Lembranças à Luísa, sempre inefável e intangível. Quando um dia eu morrer de alguma coisa, que seja de amor... o resto é muito prosaíco. Beijo.
Um bar, noite, cerveja, cachaça e torresmo. Loura suspeita complementando.
ResponderExcluirEntão o poeta pega a pena e num papel deixa o seu verso. O que seria? Caio não conta!
Abraço,
Jorge
Jorge, não é preciso dizer, está nas entrelinhas. A noite dos bares é carregada de fatos, situações e intenções - quase sempre insólitas - dentre tantas solidões perdidas. Às vezes, "la vida nos dá sorpresas". Abração, Mestre Escriba.
ResponderExcluirEis a noite do poetas...E se fazem poetas hj como os de antigamente? Menos bares, bebidas e torresmo, mais vida e muita poesia...
ResponderExcluiradorei o texto!
bjs