17 de mar. de 2011

COISA DE BICHOS

Caio Martins
Para Stela e Alceu Valença.













(img: cvm - kelly/galaxia - 1999)

Estendeu-se
num gesto sublinhado
o véu de teus cabelos sobre meus olhos.
Diluí-me nas sombras de teus olhos
sem ansiedade, apenas
vacilei entre a dúvida
e a ironia.

O brilho de um rubi em tua orelha
revelou-me a ardentia de teu rosto.
Percorri teu rosto
vacilando entre o alumbramento
e a fria perfeição de teus traços.

O som de tua voz metálica
como o sustenido de um harmônio
fixou-me em tua boca.
Vacilei entre beijos
ou mordidas.

E assim foi lentamente
com teus braços
tuas mãos
teus seios
tuas pernas
teus pés
teu ventre
até ter-te incontida.

Até sucumbirem tramas
regras, usos e costumes
tua perspicácia
meus notáveis argumentos
diluídos febrilmente
na sofreguidão de momento
da umidade convulsa do sexo
em delírio e desvario.

Coisa de bicho-gente
no cio....


(07/03/1986. Peña Los Hermanos - Pensão da Zulmira)
Como dois animais - Alceu Valença - 1997



4 de mar. de 2011

A Espada

Caio Martins

(Veja abaixo "O Espelho", complemento desta crônica)


Aproveitando propício momento, fora atrás do sonho ainda muito menina, uma criança. A “Primavera de Praga” sucumbira sob os tanques soviéticos, havia desencontros e confusões, agitação e tristeza por toda a então Tchecoslováquia. Passou sua figura miúda e leve por manifestantes, soldados, chuva de pedras e nuvens de gás lacrimogêneo. Encontrou a ladeira de pedras antigas e a porta de ferro batido, as escadarias de carvalho e, numa sala soturna, iluminada por candeeiro a óleo, o velho sumido em trapos. A mão da mãe a soltou.

- Vim buscar a espada!
- disse, num idioma inóspito e que lhe era estranho. O velho indicou-lhe onde. Pesada, corroída pelo tempo, a madeira do cabo desaparecera há décadas, talvez, mais de séculos. Beijou a mão ressequida e frágil, pegaram a conquista e saíram apressadas. A relíquia passou alfândegas com funcionários relapsos e cansados de alguns países até, finalmente, chegar em casa. Levou-a, anos depois, a ferreiro perdido no fim do mundo, nas serras de Minas, e pediu-lhe a reconstrução. Esse também, sem palavras vãs, pegou, sopesou e pediu-lhe um mês. Estremecera de emoção. O pai, companheiro da empreitada, também.

Nos trinta dias, pegou-a. Perfeita, polida, o cabo de raiz de jacarandá amoldando-se em suas mãos pequenas como se juntos tivessem nascido. Pagou em ouro, moeda trazida de outras eras e herdadas em gerações. Lauma respirou fundo, intangível, verificando a arma ancestral milímetro a milímetro em busca de imperfeições inexistentes, fora as cicatrizes de batalhas, e pegou o caminho de volta. Completaria o ciclo com o espelho, quase impossível de encontrar. Agora, vinte e um anos passados, haveria de tê-la em ritual milenar, repor sua marca e intensidade para, finalmente, dotar-se do último elemento para a definitiva consagração espiritual.

Contudo havia um homem, frágil e perdido de si e do mundo, que lhe entrara pela pele e tornara-se, ao mesmo tempo, numa promessa de amor e perspectiva de um desastre. Daniel... reduzido, de líder emblemático e moderno guerreiro, a espantalho lamentoso por ter-lhe cruzado o caminho, na hora errada, um anjo perdido; fêmea primitiva e oblíqua, para quem o mundo começava e terminava nas genitálias e, pela graça e beleza, seduzia instintivamente os alfas de sua espécie. Letícia...

Conseguisse centrar-se, seria sua própria salvação, a libertaria para seguir sua saga e seus caminhos. Não podia permitir-se odiá-la, porém, odiava. Na sua linhagem e tradição, eram-lhe vedados humanos sentimentos banais; paixão e ódio, rancor e mágoas, desejo e medo... Filha do equilíbrio e da sabedoria, Lauma chorara apenas uma vez, quando aquele homem fraco a inundara de tanto carinho que perdera, além do controle, a férrea vontade e certeza de sexo ser como singela busca de alimento, madrugada em curso, num assalto à geladeira. Letícia era promíscua, indecorosa, irresponsável, indecente, impudica, compulsiva... E Daniel, um fraco. Ela? Uma vestal...

Teria de purificar-se e elevar-se, pôr-se acima e distante de inconsistências e vulnerabilidades cuja única função era pô-la à prova. A espada, de ferro transformado em aço na têmpera em um ser vivo, quiçá um guerreiro, há séculos, era sua garantia de poderes tais que, num momento relapso, ao putear contra um homem, matara por tabela o cãozinho da família, oculto sob o carro. A espada lhe daria o controle e a sintonia de seu lado destrutivo. Seria sua garantia, na verdade contra si mesma, e sorte de muita gente.

Limpou-a cuidadosamente, em minúcias. Empunhou e cedeu ao peso. Não era para batalhas, em tempos ditos civilizados. Depositou-a carinhosamente num altar na parede norte de seu quarto, entre cristais - alguns preciosos - envolta em villuto carmim sob um atilho de seda azul; o mesmo que, trançado, lhe segurara os cabelos quando conhecera Daniel. Satisfeita, determinada e feliz, foi à cata dos elementos que utilizaria em sua liturgia, na noite em que a lua seria apenas uma curva imperceptível na escuridão do céu. Ervas, pedras, metais, terra, fogo, água e banhada em ar, outros segredos e mistérios.

Sentou-se na cozinha, espichando as pernas e braços, espreguiçando-se prazerosamente. O gato subiu-lhe em cima e, ronronando alto, aninhou-se-lhe no colo. Sentia-se bem, apenas a memória do corpo incomodando sutilmente com reprises do sexo desbragado com um homem instável que, curto tempo atrás, a fizera sentir-se estupidamente mulher pela primeira vez na vida.

- Sabe que mais, gatinho? A sua dona está ficando louca...

(img: cvm - têmpera - trecho de “zero-hora: um anjo perdido” 1996 - publicada em 16/09/2009 .)


O Espelho

Caio Martins
A habitação é singela e minuciosa: forro e assoalho de madeira escura, móveis antigos restaurados com primor, pesado candelabro de cristais no teto, janelas e venezianas deste ao chão dando para o pequeno balcão de grades de ferro forjado. Há bibelôs caros, de coleção, dispostos como que se ao acaso nas estantes de livros como que para justificá-las. A cortina, levemente entre o bege e azul, deixa entrar a luz da manhã e impede a visão de vizinhos abelhudos. O tom, no interior, é sutilmente azulado.

O incenso lembra florestas, os círios em taças vermelhas e azuis mal se consomem. À sua frente, numa bandeja de cobre, estão pequenos objetos como cristais, gemas, pedrinhas, ossinhos, metais, sementes, cercando pesado meteorito quase esférico. Atrás, próxima de suas costas, está fincada a espada com sua empunhadura de madeira sangue, defesa e cabeça de bronze e lâmina polida e brilhante, marcada de cicatrizes de batalhas; oscila quase imperceptível, a sensibilidade da têmpera do aço absorve as menores vibrações da rua, da casa, do ar, da dona. Após, o grande espelho oval de cristal eslovaco.

Minuciosa e pacientemente, Lauma centra-se no espelho às suas costas. É alto, apresenta na superfície relevos apenas perceptíveis, sulcos improváveis, depressões aparentemente ilógicas e a austeridade de existir desde sempre. O bisel do perímetro irradia arcos-íris. Vira-o em sonhos percorrendo os espaços, percorrera antiquários até encontrá-lo, novamente em Praga. O “marchand” descrevera-o como milenar, elaborado do mais puro cristal de quartzo, revestido da mais pura prata. E propusera preço bestial. Contrapusera oferta ridícula, brigaram, mas o “marchand” fora incapaz de sustentar seu preço: despira-se ante o objeto, observara-se uns minutos nua e afirmara convicta: “- É meu!”.

Ao homem boquiaberto, estendera-lhe um cheque de valor sofrível e ordenara que o embalassem rigorosamente, acompanhando embarque e desembarque. Recorrera ao velho mestre restaurador das Minas Gerais, pagara sem discutir uma exorbitância em moedas de ouro e tinha-o, desde então, com rara moldura de ferro batido e jabuticabeira. Submetera-o a complexos rituais de exposição ao sol e à lua, limpezas com águas de mar, chuva e de fonte, batismo com arabescos de seu próprio sangue até o encantamento final, no círculo de velas e círios. Ele respondera, o triângulo central se lhe revelara nítido, a miríade de inscrições, figuras, traços e sinais deixaram-se contemplar.

Os cabelos negros, ainda curtos, estão macios e brilham como pelo de bicho sadio; os olhos poucamente rasgados harmonizam-se com o nariz pequeno, a boca de traços nítidos e equilibrados. O oval do rosto concebe-se com exatidão sobre o pescoço longo e fino, ombros frágeis e o colo atraem pela sensação de aconchego e maciez, seios surgindo sem resistências, pequenos e de aréolas ligeiramente escuras, síncronos. Os braços seguem a tendência, as mãos são delicadas e finas, de longos dedos; a cintura marca-se naturalmente e as costas retas encimam nádegas firmes, coxas de proporções esmeradas, pernas e pés são obras de joalheria. Há que saber ver Lauma. O sexo de forma extremamente precisa tem a candura do de uma criança, parcamente relevado sob negros velos, recendendo a mar. No instante, é nele que Lauma se resume.

As ondas de calor, luz e radiações percorrem-na na pele eriçada, penetram-na fluídos, dissipam-se por seus pés, afloram-lhe na mente. Repete-se o ciclo sem pressa ou interrupções, nas horas que passa depositada em pequeno tapete grená, as mãos cruzadas sob o diafragma portando a opala opalescente. No centro da cabeça, um topázio, sob a separação da vulva e o ânus, a turmalina negra. Concentra, dirige, absorve e dissipa energias pelo prazer de transformar instinto em luz. Hoje, sabe conviver com esse prazer, conhece os mecanismos dessa preparação, agindo sem esforço, totalmente abstraída de si e do local. Sintoniza-se com segredos e objetos milenares e, sentada de pernas entrelaçadas, dir-se-ia melhormente que flutua.

Tem o domínio do corpo, é esse ambiente. Sua beleza apura-se, perfaz-se atemporalmente, encontra-se no auge de força e poderes, nada afeta sua ligação cósmica. Afaga com ternura seus anjos e demônios. Ronronando, o gato cinza de tons escuros próximos ao azul profundo esparrama-se na cama ao lado, observando-a de olhos semicerrados, pontinha de língua de fora. Vez por outra, move um mínimo o rabo. Lauma descruza eternamente as mãos, estende ao alto os braços de dedos entrelaçados e indicadores retos. A lentitude dá maior beleza ao movimento em direção ao teto e além deste. Os seios realçam-se, bicos duros, o rosto expressa paz e serenidade, a boca abre-se demasiadamente perfeita, lábios aquecidos e confortantes. O gato, inquieto, muda de posição, ronronando alto.

No conjunto de sensualidade, paz, delicadeza e suavidade Lauma condensa-se em sua plenitude, sabe que deve obrigatoriamente desfrutar desse momento incomum e quase impossível de ser conseguido, pois antes não era capaz, depois não mais terá condições. Outro será seu trabalho. Despede-se de vínculos, um vento agita as cortinas, o gato mia e escorrega para o sol lá fora. Retoma-se no momento em que vive. Boceja, sorri, respira com gosto. Junta os badulaques parcimoniosamente, cantando cantigas de encantar. Depõe os círios na lousa de mármore azul da parede norte, ao lado e alto da cama, à cabeceira da qual a espada é ajustada em seus suportes. Envolve-se num roupão cor de pitanga e vai contemplar o bairro desde o balcão. O espelho a espia, agora opaco, pelas costas.

(img: womanstudio81 - trecho de zero hora, um anjo perdido - 1996.)

25 de fev. de 2011

PEIXES FRITOS

Caio Martins
















(img: grilhões. foto: lee garland/bbc brasil)

Os meus amigos sabem:
não zombarei das palavras.
Brincarei, contudo
com seu sentido, porém
exigirei de mim um instante
de disciplina e solidão.

As usarei, impunes
na comoção de moça reticente
justificação de noite mal dormida
prisão de ventre
dizer, do governo,
que é ladrão.

Desprezo montagens raras
purpurinas, holofotes
parafernálias visuais...
Bastam-me um lápis, um papel
a voz que não conseguiram calar
nesta curta eternidade consumada.

Desajeitado escriba menor
deixarei as palavras me aliciarem,
eternas visitas inconformistas
feias cicatrizes em feridas
limpando a bunda com mentalidades torpes
demasiado preocupadas com críticos de arte.

Nem brincar com palavras
nem versos como armas, nem
grilhões dourados de escolas, estilos, imposições:
chegará o dia de estarmos todos mortos.

Destilarei meus humores
meus amores
meine Weltanschauung estropiada
mi tesón por la vida como vierem
escrevendo, escrevendo, escrevendo
e me bastará que em meus versos
meus amores se riam, festeiros
meus amigos me abracem,
meus inimigos me desconheçam.

Os restos são o sentir latente
lancinantes gestos, viveres, fatos
consumidos sem tratos
longe de tantos sóis, patéticos
aplausos de deuses, demônios formatados
como peixes fritos
num prato.

Pensão da Zulmira - 26/06/1987.

17 de fev. de 2011

PAPEL NO BAR


Caio Martins.


Amigo fiadaputa... tomava cachaça, nada além de cachaça e chope, dizendo que uísque e quejandos eram coisas de boiola - sem fazer concessões para qualquer química colorida ou perfumada. E triturava, feito um degenerado, pratadas soberanas de torresmo na falta de iscas de peixe, amante obcecado de feijoadas, picanhas, costelas, pernas de cordeiro... Magro feito um cabo USB apesar de tudo, calado e quieto e olhos vigilantes, parecendo estar sempre pronto para saltar e sair na porrada. Não sentava de costas para as portas ou janelas, escolhia sempre os cantos, de onde observava, com olhar cínico e perfunctório, a mulherada. E as havia, aos montes, solitárias e ansiosas e despudoradas.

- E aquela loiraça? Vai dizer que não é um avião? Já-já ‘tô nessa, mano...
- Uh! Sei não! 'Cê ‘tá muito antigo, m’ermão. Agora é informática... Avião já era... Fosse, essa seria teco-teco... Perna curta, bunda baixa, teta de silicone, tingida e mais rolada que pedra de rio... Sucata!
- Caaraalho! Já se olhou no espelho, meu? Passou do prazo de validade faz tempo, nem falar da garantia e esnoba um mulherão desses? ‘Tá precisando de camisa de força, meu!
- ‘Tá afim de faturar uma grinfa, ou tá dando mole p’ra cima de mim? Quero não! Bagulho por bagulho fico comigo mesmo! Vai lá, que o açougue tá aberto, meu! Vai, borracheiro!

Chamou o garçom e pediu mais uma e mais um. Saiu para fumar na esquina. Nestes tempos de “politicamente correto”, era um belzebu anacrônico - a moda era “bala”, cristal, cocaína. Voltou, o amigo papeava com a loiraça, ambos cheios de risos e salamaleques de moda nas baladas. Era dos tempos das noitadas e boemia. Tomou a cachaça de a golinhos, triturou um torresmo, arrematou com o chope. Daí o novo casal da balada veio; levantou-se frio feito rabo de foca. Apresentados, olhou a moça da cabeça aos pés, rodeou, pediu licença e passou-lhe a mão na bunda. Ela deu um pulinho e disparou num riso incontrolável. - Cara mais louco! - repetia.

- ‘Tá certo... Tá certo... Inda ‘tá de jeito, dá pro gasto. Vão com deus, crianças - e voltou a sentar-se, aparentemente alheio a tudo e todos. O outro - indignado - catou a boneca, de arranque, e saíram sem despedirem-se. Ficou no canto, isolado e invisível, os olhos incisivos não perdoando nada nem tudo, manguaçando ritualmente. Levantou o dedo, o garçom veio pachola. Pediu papel e uma caneta. Impudica e misteriosa, ousada e atrevida, mas solene e serena feito uma gota de orvalho num parabrisas (tinham-se extinguido, há tempos, as flores), a lágrima levou uma eternidade até explodir no tampo sintético da mesa. Não é fácil escrever à mulher amada, ausente pelos milênios etc.. - Puta ironia! - se dissera ao despedi-la.

Escreveu um poema devagar e com letra excepcionalmente caprichada como não se usa mais, depois leu várias vezes. O garçom trouxe outra leva de mineirinha esperta, dispensou o chope e o torresmo. Deixando o papel sobre a mesa saiu para outro cigarro politicamente incorreto, chovia parcamente. Pertinho, a praça. Na praça, o banco... Alí o encontraram - a falsa loira siliconada de bunda baixa e o amigo - quase no raiar do dia, teso e lagrimado da chovisna, um rito feliz no rosto paraláxico e mortinho da silva.

Morrera de amor e de saudades.

(img: amigos - tela de joão werner)







10 de fev. de 2011

RÉQUIEM GRANÍTICO


Caio Martins














(img: cvm - jaquie-tela/2001)

Menina vadia
brincando de pedra
cadê tua impudícia
teu jeito de cio?

A pedra é inútil
a pedra é amorfa
a pedra é tão fria
a pedra é estática
a pedra errática
tem oclusões vaginais
tem pedrinha hepática
por beber sonhos demais.

Quer ser celebridade
quer invadir a cidade
nua nos jornais...

A pedra quer ser escultura
a pedra quer ser pintura
a pedra quer ser partitura
quer ser imagem de santa
beijada no pé, num altar
quer ser a heroína
da hecatombe universal.

No meio da vida
nua se viu
no meio do peito
da cama do poeta...

... e armou o capeta.

Vai ver que de tanto
brincar que era pedra
no enleio do ato
chutou o amor
que virou, de repente,
pedrinha miúda
num pé de sapato...

(Vila Mirim, 01/12/1966 - Pensão da Zulmira, 14/06/1987.)


7 de fev. de 2011

OPOSTOS

Caio Martins












(img: carnavalveneza/wikki)

Desde o início foste reticente,
não se perguntou se eu te queria.
Tomaste conta de mim
sem importar-te com meu pranto
e espanto de bofetada.

Houve momentos nos quais
não me dei conta de teu domínio.
Na memória nada resta, o resto
sempre foi teu pé na garganta,
a espada no peito, retilíneo
jogo unilateral.

Inerme
mal aprendi a defender-me
fraco
tentei mostrar-me astuto
insensato
me reconheci no teu oposto.

Julguei, nalguns momentos
tomar-te toda, sugar
os cálices de teu corpo
embebedar-me de teus licores
tomar-te sacrílego, fremente
até ter-te tonta e louca
incapaz de seres sensata.

Desafiei-te:
que esmagasses!
Brigaria e criaria tudo de novo
sem o pânico da alcatéia.

Perdi os momentos, movimentos
do solo desvairado, sem estréias.

E não houve também mulher alguma
capaz de suicidar-me
tirar-me tudo, o nada
que sempre tive... Que pena!

Mas tu, Vida
escorres a cada segundo
dentre meus dedos, te insinuas
e negaceias, me invades
e me deixas só.

A cada segundo, o irritante
é pressentir-te o sorriso no rosto.

No rosto
do teu oposto.

(Hotel Bradesco – Ribeirão Preto.
10/09/1986.)

27 de jan. de 2011

ESPELHO

Caio Martins.















(img: womenstudio-112 - christian coigny)



Não! Não me ames, jamais! Te amas
em mim nua em semiluz, destelhos
de teu olhar, em teu corpo flamas
como fora eu só teu espelho.

Exerces sem pudor os teus enfeites
de vestal e vês, no vidro, teus silêncios
marcados por teus dentes em meu peito.

Não, não amas senão a irreverência
das doidices que invento tão a esmo
somente para refletir teus risos.

Mas se vens tão intangente, alheia
de teus brinquedos, jogos e artifícios
cedo, em abandono, aos teus caprichos
precários de mulher, ninfa, sereia...



15 de jan. de 2011

DRÍADE

Caio Martins

Não viria? Não? Despedaçou o celular na parede. Chutou a porta, derrubou cadeiras, o gato Loki, assustado, escafedeu feito um capeta. Da estante, aquela fotografia em moldura acrílica - tão adorada - a espiá-lo impunemente voou com soberana bolacha, o sangue do talho na mão abriu caminho purpurando e puxou o freio: a hematofobia vinha das reminiscências de guerras, arquetípicas, eras de espadas e setas, lanças e óleo fervente e que tais. A bruxa Baba-Yaga diria que fora guerreiro feroz - dileto filho de Thor e neto de Odin - caído em desgraça pela paixão por mulher insólita por ele requestada ainda menina, cujos olhos azuis e riso de prazeres, formas e gestos inimagináveis sob a revoada da cabeleira clara aturdiam e ensandeciam os homens. Zonzo, tentou limpar o corte e o envolveu com um pano de prato. Não podia desmaiar. Maldita! Bendita! Filha da puta! Amor da sua vida... anjo... vadia... Foi ao vizinho, pálido e cambaleante, pedir-lhe que o levasse ao pronto-socorro.

Depois, mão costurada e atada, ignorou a baderna. Pegou a foto - incólume na moldura a prova de tapas - e ficou olhando, olhando e olhando, anestesiado. Não havia dor, nem houvera lesão séria. Na próxima usaria um martelo. Sorriu, por fim. Como não desejar instintivamente a beleza marcada por delicadeza e suavidade, não amar o riso leve, as idéias loucas, a eterna ciclotimia etérea, aquela timidez subjacente num piscar ousado, cruzar de pernas, entremostrar de seios, oscilar de cintura, semovente e, sem explicações, enviar-lhe da boca linda tolo beijo ao partir, sabendo que a queria toda, inteira, pelos séculos? Não amá-la quando, após o sexo eterno e aos pouquinhos, lhe sorria, e adormecia? Tantas outras magias e mistérios, ardis e estratagemas? Os deuses não lhe eram favoráveis, certamente. Maldita estrige, que o instigara com carochinhas para boi dormir... Porém, a lenda implícita o fascinara. Escreveria, fosse dado a tal, conto ou poema, crônica sem adjetivos e advérbios, meramente fática, relato frio de antropólogo.

Diria que, em meio de furioso combate, gritos de morte e de guerra vira, sob uma carreta tombada, aqueles olhos azuis em carinha suja e parara, petrificado. A voz aguda lhe gritara cuidado e o aço adversário o atingira pelas costas transverso, invés de reto. Caíra, espada revirando no ar para longe. O lanfranhudo, horripilante e banhado em sangue alheio, fedendo suor antigo e novo, vísceras e bosta de gado, dera uns passos ao redor para contemplar a caça: gostava de cortar cabeças. Rabo de olho vira a menina sair da encoberta, pegar a pesada espada que lhe escapulira e, silenciosa feito serpente mas rápida feito raio, vir e metê-la, um terço, na coxa do carrasco. Saltara, atracara-se com o molosso, o lançara ao chão e, empunhando a arma alheia, o degolara de um só golpe. A batalha decidira-se em volta, Jormungand morta. Pegara a menina ao colo, ao vir, o dono das tropas, cobrá-la. - “Thrud é minha!” - dissera. A soldadesca enristara lanças, aquilo era afronta punível com a vida.

“- Lutaste bem, mataste muitos e me serviste com honra! É tua!” - A levara às montanhas, seu ermo. Cuidara-lhe as feridas, deixara a cabana limpa, até botara cortinas floridas nas janelas. Entendia da cozinha, dos bichos e das roupas lavadas. Sempre muda e calada, cabisbaixa, interrogada por que não falava ou encarava, dissera-lhe que era uma escrava e elas não deveriam incomodar seu amo. Fora quando depositara-se, definitivamente, naqueles olhos azuis, perdera-se naquele sorriso lindo... E dissera que não era escrava mas, seria sua mulher, quando crescesse. Ela queria voltar à própria aldeia, sua casa. Quisera ver, foram e voltaram; não havia mais uma nem outra. Não chorara. Meio da noite seguinte, viera até seu canto e perguntara: “- Se eu não quiser ser sua mulher, me mata?” Respondera que a trocaria por um cavalo, virara para o lado e dormira. Nunca mais a vira. Deixara florezinhas amarelas no mesão da cozinha... Ainda escreveria a história, quem sabe... um dia... ‘taquepariu...

Adormeceu pesadamente, chapado com os medicamentos. Anestesia e antibióticos, antitetânica e sabe-se lá que poções sintéticas diabólicas... não se fazia mais guerreiros como antigamente. Acordou com o gato se enroscando no travesseiro e ronronando alto, contente. Janelas abertas, casa arrumada, cheiro bom de comida. Na mesa da cozinha bocas-de-leão e, do chuveiro, o vulto no vidro embaçado e o canto enigmático da mulher imprevisível. Era feliz e nem sabia.


(img-art: cvm - crisricci - tela)
(adaptado de Zero Hora: um anjo perdido)



3 de jan. de 2011

ACHADOS PERDIDOS

Caio Martins
para Jeanne














(img-art: cvm - bonhan-carter )

Te amo...
Mas, não lutarás minhas batalhas
nem poderás, ensandecida e frágil
conhecer minha luz, minha loucura.

Te amo...
Dizes que não mais, enquanto espalhas
vestígios de teu riso inigualável
no pó de meus caminhos obscuros.

E no teu tecer de leves brilhos, insolúveis
fantasias e tontos dizeres de descrença
curiosa qual criança, vem, e te diria...

... te amo...
menos que posso
mais que deveria.






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