
Depois, mão costurada e atada, ignorou a baderna. Pegou a foto - incólume na moldura a prova de tapas - e ficou olhando, olhando e olhando, anestesiado. Não havia dor, nem houvera lesão séria. Na próxima usaria um martelo. Sorriu, por fim. Como não desejar instintivamente a beleza marcada por delicadeza e suavidade, não amar o riso leve, as idéias loucas, a eterna ciclotimia etérea, aquela timidez subjacente num piscar ousado, cruzar de pernas, entremostrar de seios, oscilar de cintura, semovente e, sem explicações, enviar-lhe da boca linda tolo beijo ao partir, sabendo que a queria toda, inteira, pelos séculos? Não amá-la quando, após o sexo eterno e aos pouquinhos, lhe sorria, e adormecia? Tantas outras magias e mistérios, ardis e estratagemas? Os deuses não lhe eram favoráveis, certamente. Maldita estrige, que o instigara com carochinhas para boi dormir... Porém, a lenda implícita o fascinara. Escreveria, fosse dado a tal, conto ou poema, crônica sem adjetivos e advérbios, meramente fática, relato frio de antropólogo.
Diria que, em meio de furioso combate, gritos de morte e de guerra vira, sob uma carreta tombada, aqueles olhos azuis em carinha suja e parara, petrificado. A voz aguda lhe gritara cuidado e o aço adversário o atingira pelas costas transverso, invés de reto. Caíra, espada revirando no ar para longe. O lanfranhudo, horripilante e banhado em sangue alheio, fedendo suor antigo e novo, vísceras e bosta de gado, dera uns passos ao redor para contemplar a caça: gostava de cortar cabeças. Rabo de olho vira a menina sair da encoberta, pegar a pesada espada que lhe escapulira e, silenciosa feito serpente mas rápida feito raio, vir e metê-la, um terço, na coxa do carrasco. Saltara, atracara-se com o molosso, o lançara ao chão e, empunhando a arma alheia, o degolara de um só golpe. A batalha decidira-se em volta, Jormungand morta. Pegara a menina ao colo, ao vir, o dono das tropas, cobrá-la. - “Thrud é minha!” - dissera. A soldadesca enristara lanças, aquilo era afronta punível com a vida.
“- Lutaste bem, mataste muitos e me serviste com honra! É tua!” - A levara às montanhas, seu ermo. Cuidara-lhe as feridas, deixara a cabana limpa, até botara cortinas floridas nas janelas. Entendia da cozinha, dos bichos e das roupas lavadas. Sempre muda e calada, cabisbaixa, interrogada por que não falava ou encarava, dissera-lhe que era uma escrava e elas não deveriam incomodar seu amo. Fora quando depositara-se, definitivamente, naqueles olhos azuis, perdera-se naquele sorriso lindo... E dissera que não era escrava mas, seria sua mulher, quando crescesse. Ela queria voltar à própria aldeia, sua casa. Quisera ver, foram e voltaram; não havia mais uma nem outra. Não chorara. Meio da noite seguinte, viera até seu canto e perguntara: “- Se eu não quiser ser sua mulher, me mata?” Respondera que a trocaria por um cavalo, virara para o lado e dormira. Nunca mais a vira. Deixara florezinhas amarelas no mesão da cozinha... Ainda escreveria a história, quem sabe... um dia... ‘taquepariu...
Adormeceu pesadamente, chapado com os medicamentos. Anestesia e antibióticos, antitetânica e sabe-se lá que poções sintéticas diabólicas... não se fazia mais guerreiros como antigamente. Acordou com o gato se enroscando no travesseiro e ronronando alto, contente. Janelas abertas, casa arrumada, cheiro bom de comida. Na mesa da cozinha bocas-de-leão e, do chuveiro, o vulto no vidro embaçado e o canto enigmático da mulher imprevisível. Era feliz e nem sabia.
(img-art: cvm - crisricci - tela)
(adaptado de Zero Hora: um anjo perdido)
É, Caio. Tão comuns estes fatos que muita gente não se dá conta.
ResponderExcluirO deus dos eslavos sempre comandando estes embates. E afinal, "era feliz e nem sabia"!
Talento não se compra no bar da esquina, caro amigo. Tem quem nasceu, como você.
Abraço,
Jorge
O texto é muito bom, Caio! A forma como narra o episódio me fez visualizar a cena... A paixão está sempre presente de modo intenso em tudo o que escreve.
ResponderExcluirBeijos
Márcia
Jorge e Márcia, grato por suas palavras,insisto que são muito generosos. A "paixão" subjaz do relato mais seco do jornalismo aos delírios dos inconformados. Às vezes os melhores sonhos estão presentes, materializados e não vemos ou não queremos ver. Prefere-se o terreno perigoso da ilusão e da fantasia. Raramente, na queda em si, há florezinhas amarelas sobre a mesa...
ResponderExcluirAbraços, meus queridos amigos.
Florzinhas amarelas sobre a mesa
ResponderExcluirforam arrancadas de algum lugar.
Melhor deixá-las viver.
Deixar vir e ir quem entra em nossas vidas. Quem fica, gostou de ficar, não é?
Mas o que você escreveu tá bom demais, mano velho.
Aracéli,as flores também podem estar num vaso,no qual nasceram, n'é não? A personagem delirante não vê a riqueza do que a cerca, centra-se num papel de anti-herói e vítima, na verdade. Tem quem a ama, vizinho solidário, e até um gato que o não leva a sério... E é certo, fica quem tem interesse nisso. Abração, maninha.
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