26 de nov. de 2011

SILÊNCIOS

Caio Martins

Para Jeanne.
















(img: cvm.kidman - aquarela 2011)


Te amo...

A memória, faca
laica
- insaciável, transitória -
quebra seus pertences
sem contar com glórias.

Fecha seus claustros

- insondáveis pergaminhos -
e cala
a trajetória tensa do sentir
árdua, impenetrável bala.

Contemplo teu olhar
- inquietante arquitetura -
e me diluo aos segundos
de cada século
em que perduras...

A memória insiste
- indecifrável sintonia -
e cala.
Não há tempo, lugar,
nem sinfonias...

Nas luzes de prenúncios
- inda que desande o caos -
te calas...
Sabes que te amarei
ao som de teus silêncios...


15 de out. de 2011

O Erro...

Caio Martins.

Saiu calmo, como se diz, “na moral”, “na boa”. A mulher o espiava da janela do hotel, deu-lhe festivo adeuzinho. No carro (como sempre imundo por fora, mas máquina ajustada em pleno exercício das funções e veterano de outros adeuses) relaxou tratando de ser ágil naquele já então inferno de amebas histéricas submergidas em gases tóxicos, aço e asfalto. Os hormônios da fêmea ainda agiam em suas veias, glândulas, instintos. Pagara a prostituta não pelo serviço, mas, para poder ir-se deslingado, ou para que ela assim se fora. Na estrada parou num frege-moscas, engoliu um gole de cachaça, um sanduíche qualquer com guaraná, um café fervido, calibrou pneus no posto, encheu o tanque. E acelerou.

Recebera avisos, alarmes, insinuações e conselhos. Desnecessários... Sabia que não haveria retorno - a menos que se tornasse um traidor - e que o momento era aquele. Horas mais, teria de brincar de herói ou tornar-se mártir. Não fora para o que nascera. Naquele “treze de dezembro de 1968, vinte e quatro membros do alto escalão do governo militar se reuniram e editaram o Ato Institucional 5, o famigerado AI-5, que possibilitara o fechamento do Congresso Nacional e acabara com o direito de habeas corpus dos parlamentares, direito adquirido com a Constituição - já fajuta - de 1967”. Os anos de chumbo tomavam seu perfil mais ensandecido.

O discurso de um senador, Márcio Moreira Alves, clamando pela volta da democracia, fechara as portas à luta legal e aberta. Era o momento da clandestinidade, da ausência absoluta dos entes queridos, amigos, família; tempo das identidades falsas, da solidão por escolha segura, dos segredos e das entrelinhas. Da certeza que era o momento só do bilhete de ida, e da presença ineludível da morte. Quando se elege lutar contra uma tirania - invés de calar-se ou fugir - e levantar-se em armas, os caminhos da vida se estreitam, beira-se precipícios e, não havendo estrutura moral que sustente, raia-se à loucura. Não há lugar para erros.

Não era o caso. Não temia a morte, mas a dor; não temia o combate, mas a tortura. Não seria presa fácil, como tantos que, inermes, se lançaram contra a máquina de moer gente. Dizia que não se importava em partir desde que levasse alguns canalhas consigo. Acelerava... No coldre uma automática, pelos bolsos carregadores e, dominante, uma saudade infeliz e incômoda, angustiante e incisiva da moça de olhos claros, franzina e esbelta, cujo sorriso lhe derretia as couraças e o transformava, de guerreiro, em deslumbrado menino. Meses... meses... Já não doíam mais o tiro na barriga, outro na perna, mais um no braço. O que doía, era a ausência.

Num posto perto do destino, mandou lavar o carro, fez a barba no banheiro. Cabelos curtos, terno impecável, postura alfa, passou barreiras de desajambrados soldadinhos, deixou o carro no cafofo, ao chegar à cidade, e não resistiu. Assumindo cuidados extraordinários, rondando feito lobo, entrou no edifício. Tinha as chaves, conhecia as manhas da velha fechadura. Girou o trinco, entrou e sentiu o cheiro de coisas de mulher. Acendeu a luz, trancou a porta. Ela deveria estar dormindo, seminua naquele calorão de fim de ano. Ouviu inaudível ruído, como um estalo de cama, dirigiu-se ao quarto na ânsia de vê-la.

Nem se deu conta ao levar o tiro na cara.

(img: cvm - tiro - 2011)




29 de set. de 2011

Canção para Jeanne

Caio Martins










Nas tuas frágeis,
longas noites de silêncios
distâncias, instâncias
precariedades
- impenitente -
és cidade que percorro
a passo, gestos parcos
mudas palavras
eloquentes...

Mas se me dás
nalgum instante
esse prazer finito
de comoção cósmica
cômica
das luzes de teu riso
eu não me importo...

Te amo,
nada mais é preciso.


14 de set. de 2011

SEGREDOS

Caio Martins













(img: franz eybl - mädchen)


Tens ar indefeso
nem de mulher, ou de criança
mas guardas impensáveis segredos
que não os entende nem a própria natureza.

E se acaso me lanço em tuas trilhas
- indecifradas trajetórias sem retornos -
a fúria da terra me aterra
mas, por paixão, não retrocedo.

E me tens como se fosses dona
por mais que eu esperneie e bata e grite
por saberes que estarei em teu caminho
entre troncos, frutas e sementes...

Conheço o teu poder, as tuas manhas
e mesmo que me custe o tempo, a vida
tudo que faço é ceder à tua magia
deslumbrado ante tantos brinquedinhos...

(em “mulher - imagens e poemas” - jan/99 - scsul - fundação pró-memória)





3 de ago. de 2011

LUA

Caio Martins















(img: autorittrato damaride marangelli)

Séria surges
quando não mais te esperam
e vens detrás de olhos verdes
rubra boca vestida de festa.

E mentes, inventas
impudica, descarada
oscilando enfáticos seios
cabelos longos, longos
braços e pernas
noturna praia úmida
ávida de despojos...

Que desperdício de cenário!

Pensar que bastaria um só sorriso
(mesmo que não viesses nua)
e não naufragarias nas armadilhas
de meu amar promíscuo
tão frágil
tão precário...

(em "mulher, imagens e poemas" - 1999 - fundação pró-memória s.c. do sul)

19 de jul. de 2011

Génesis

Caio Martins













(img: genesis 2011 - tela aramado)


Entre arrepios
de tua pele suada
ofegante, entre
suspiros, queixumes
lágrimas e grito
te desmanchas
comovendo o universo.

Entre tantos entretantos
e tua nudez safada
vou
comovido animal liberto
em disparada
por teus meandros e recantos.

Depois nos olhamos
compreensivos
contemplando o que sobrou
dos bisonhos
fêmea ancestral
e macho astuto
definitivamente
expulsos do rebanho...

28 de jun. de 2011

BAILARINAS

Caio Martins













(img: cvm - mariann/arquivo - 1998)

Atrás da figura
etérea, desconvexa,
que flutua num palco
como quem
se perde na esquina;
atrás
da sinfonia patética
das cruéis sapatilhas
tules arrogantes,
asfixiantes corpetes
e frágeis calcinhas,
está presente
contida
a mulher
onde o homem se perde
onde o homem se encontra
some e consome;
a mulher
onde tudo começa
onde tudo termina
esperando
escondida
a menor distração
da menina...

Adriana Calcanhoto - de Chico Buarque e Edu Lobo





12 de jun. de 2011

TEUS PASSOS

Caio Martins













(img: cvm - leca35 - 2007)



Te diria todas as palavras
me denunciarias em quaisquer gestos
e náufragos, bêbados, tontos
me perderia em teus caprichos
irremediavelmente
até rasgar-me nos cacos
de teu riso cristalino de mulher...

Até
deixares teus cheiros em meu espaço
rastros de tuas garras em minha pele
e em minha boca teu gosto de (a)mar...

Até
ver a porta que abriste
incerta
fechar-se após teus passos desertos.

Até
alçares, liberta, teu voo
após dizer-me até sempre...
quem sabe...
nunca mais...

(aeroporto de congonhas - 25/12/07)
 

22 de mai. de 2011

O MOMENTO MÁGICO

Caio Martins

Para Stela.












(img: cvm - lucienne059 s/hubble - tela 2007)


A exorbitância de cerveja
os restos de música
estonteavam-me.

A estrada de volta ora se estreitava
ora adquiria os limites do mundo.
Ficava para trás, na velocidade
passava de novo adiante.

Santo porre, confesso.

O guarda noturno, oculto
pelas árvores da minha rua
espreitava
sinistro e curioso.
Saudei-o de um buzinaço...
infelizmente não morreu de susto.

E no meu portão
e no meu jardim
me esperavas, irritada.

Tudo ficara por falar.
Nada nos dissemos, no instante
murmurei “- Vem!”

Na bagunça de meu quarto invadido
baixaste os olhos, engoliste
um soluço, arrancaste tuas roupas,
frenética
as minhas roupas
e nos mordemos, arranhamos, lambemos
uivamos
embriagados de cio.

Prodigiosos
reinventamos o sexo.
Litúrgicos
nos lambuzamos de mel.

E, quando já dia
saí de teu corpo zonzo, extenuado, incrédulo
te demoraste em meu olhar
e levantaste, inspecionaste
os destroços do cenário cheirando a mar e mel
teu corpo e meu corpo
como para ver se restara algo.

Foi nesse estranho momento
que me ocorreu, ateu que sou
que deus ainda inventa coisas como as tuas
e disseste enternecida, como dona:

"- Palhaço!"

(16/03/1986-06:00 -terra nova - sbc.)

5 de mai. de 2011

HIATO

Caio Martins.

Para Ethel.












Sempre há
tenso hiato
entre corpos
de mulher e de homem.

O essencial, melancólica
harmonia caótica
na qual intensos se consomem,
se o sentir se pensa, é fato raro.

Entre quatro paredes, entre
dois, a dança crispa seus disparos,
enlanguesce e se define:

os corpos não têm noção,
nem querem, do que oscila
entre o sórdido e o sublime.

(sbc - páginas amarelas - 01/02/1991 - sp - 05/05/2011).

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