Caio Martins

(img:cvm - torres sé - 2007)
Escadas rastejantes jogando
pasadas de bípedes cansados
zumbindo passivamente
saio do buraco
do metrô na Sé.
Cara a cara
com a negra torre do relógio
martelando vagarento sete horas
nos seus mecanismos atrozes
de solução final.
A Praça da Sé se move.
A catedral arrota
medieval solilóquio
de seu bojo estufado.
A catedral estatela-se
de costas, com graça
de gorda matrona gótica
de torres como ameaçadoras tetas
espetando a escuridão pastosa,
escadas de cabeleira
cheia de insetos transitando
em suas bocas.
A catedral boca.
Rara soma arderá
em seus altares solífugos,
enquanto Cristo passeia, cósmico
por outros mananciais.
A Praça da Sé se move.
O camelô vende milagres
um pivete vende santinhos
a zabumba bumba
funcão agastado
a xoróca zabaneira
e vunge
vunza no bolso do otário
que vasconceia, lúbrico
lambidas em seu pescoço.
Na distância de um pulo
a menina canta hinos
às bestas do apocalipse
o fim dos tempos
a palavra final...
Sedutora
vozinha
afinadinha
fatal...
A sanfona agita a bunda
tremelica os peitos
de cafona moça seminua
abrindo coxas e braços
e a dentadura alva
enrubescendo a calva
do marco-zero da cidade.
Não quer ser salva...
A menina hina hinos
olhando faceira o menino
que vende santinhos roubados
da mesa dos cardeais.
A polícia policia
suspirando aliviada
após a tensão formidável
de concentração sindical.
Na catedral o cardeal
absolve e o gado
se retira do quintal.
Em roda
ladrões, pivetes, saltimbancos
travecos, profetas, mascates
traficantes, bicheiros, ladrões,
vigaristas, craqueiros, putas
rondam a multidão passiva
entrassaindo do metrô
e a zabumba bumba um funcão
a catedral sina seu sino
os pregadores ameaçam o universo
e as bestas do apocalipse saemdançando funque-forró.
A Praça da Sé comove
como a carcaça de um cão
atropelado e marginalesfarrapado, e só.
(Pensão da Zulmira - 13/07/1987.)