1 de jul. de 2010

INTERMEZZO

Caros leitores,


encerramos nosso trabalho deste primeiro semestre agradecendo a todos que nos acompanharam na rota imprevisível da Internet, neste ano e meio.

Voltaremos a primeiro de agosto e pedimos que, nesse intermezzo, percorram o blog desde o início, em fevereiro de 2009. Basta clicar nos meses, na coluna à direita e, neles, encontrarão publicações que normalmente terminam esquecidas.

Até lá, desejamos a todos muitos sucessos profissionais e pessoais, prosperidade e caminhos abertos, paz e harmonia. Forte abraço, muito obrigado e muito carinho.



(De Vinícius e Tom Jobim. Gal e Tom no "Concert for Planet Earth", Rio, 7/o6/92)
(img: cvm - poeta e musa - jul2010.)

29 de jun. de 2010

ROMANCE EM CIO MENOR


Caio Martins
Para Lua Celta de Assis.











(img: boris vallejo - erotic fantasy)

Dez horas da noite. Tristes
apitam fábricas em si menor...
Nos enroscamos aflitos
num banco de jardim.

Nosso amar é complicado.

Exigimos estrelas, luas, brisas
mas entre gases, pó, venenos
dá-se alucinado beijar.

Somos intensos, quase rudes
teu seio cabe em minha mão
tuas mãos, qualquer lugar.

Nada sabe esse beijar
deslizar impudico de mãos
da cidade que se infiltra.

Na penumbra do subúrbio
(céu escuro na face desta terra destroçada)
a sinfonia de sons confusos
dá ao nosso enredo
o fundo musical.

Preferiríamos Chopin, Lizst, Debussy, Bach...

Engolimos livros, músicas, poemas
assembléias, discursos, conferências
filmes, jornais, teatro, pinturas
porém os corpos frementes
se esmagam ansiosos
transgredindo pecados mortais
num reles banco de jardim...

Porém não, não te angusties!

Ainda assim não profanamos
o cio simples dos animais.

(cascs - 23/12/68 - sp - 29/06/10)

24 de jun. de 2010

O MEU AMOR

Caio Martins
Para Jeanne D'Arc













(
img: moon goddess - josephine wall )


Meu amor, amor,
não tem fim
nem tem começo
não tem regra
não tem preço
não tem pressa
ou endereço...

Dirás, amor, que amar

é sempre eterno mar
que pusesse em tua boca
um gosto de sal, de sol
de mel, de maresia.

Que uivarias à Lua

nua, molhada, fugidia
predadora presa em agonia
aos teus infernos, pedindo
que te levassem ao fundo
tumulto de licores e venenos
a rasgar teu chão, teu mundo.

Ah!, meu amor, minha menina...

tão mais singelo seria
nesse amar tão só receios
só o mar, só o amar
lambendo tuas feridas
de tantas idas e vindas
enquanto descanso cicatrizes
de guerra entre teus seios...







19 de jun. de 2010

BECOS


Caio Martins












(img: cvm - janaína/76-02)


Dos becos, em teus cabelos
das tuas sombras me fitas
vagos olhares, aflita
quem sabe ira, ou apelos.

Destinos tolos, sem grita
silêncios largos de zelos,
enrodilhados novelos
entre teias, contraditas.

Ah! teus olhos, tua boca
vincados e sem sorrisos
inexpressivos, sem ecos...

Quisera deixar-te louca
roubar-te beijos de avisos
e perder-me nos teus becos.

19/06/10 - SP.



5 de jun. de 2010

O CARRO DE BOI


Caio Martins

Solicitamos, a quem reproduzir, que respeite a autoria. Encontramos, em alguns sites, plágios descarados deste livro. Não é ético, é imoral e criminoso. Nada a obstar às citações honestas, que mencionem autoria e fonte. Tudo a combater contra "vampiros" e "sanguessugas" que se aproveitam do trabalho alheio. Esta é uma causa de todo escritor honesto e leitor consciente.

1. O carro

Tem carro de boi, e tem carreta. Carreta, ou carroção, tem roda raiada e é muda, não canta. Carro de boi tem roda inteira, e canta para se ouvir de léguas, seja gaita, pombo ou baixão . É coisa de sertanejo, é uma saudade doída de um tempo onde se ia devagar, mas havia mais tempo para ver e entender as coisas. Saber de carro de boi, é mexer com magia, é entender a alma da madeira e do ferro, da terra e do fogo, da água e do ar... [...]

(img: capa -1ª edição- 1997 - esgotada)


Veja matéria completa em http://caiovmartins.blogspot.com/p/o-carro-de-boi.html

30 de mai. de 2010

VISITA


Caio Martins

À Jane Vieira










(img: cvm - elaine16 -/decker)


Fui semente entre severas pedras.

Profetizando tempos de colheitas
nasceram flores mesquinhas
violentando mais e mais a colina.

Areias desoladas clamavam
e debatia entre mistérios
o amor como uma casca.

Em vão tentaram os ímpios socorrer.
Que sabem das tocaias dos vermes
em silêncio nas sementes?

Em vão tentaram, imaculadas virgens
interiores, impudicas e uniformes
resgatar com cantos e mel...

Que sabem desraigados
da deterioração intransponível
das farpas das solidões?

Mas, vieste umedecer o silêncio
com teu corpo (e)terno
capaz, porém, de tantos rituais.

Vieste, então, perplexa murmurar
aos ouvidos tronchos palavras desconexas
pungentes apostasiando a vida.

Vieste...

Como que trazendo perdão
entre prantos sem riso ou música
apoiaste tua face
em minhas mãos qual criança cansada
de brincar
e tanto brincas que me confundo
e meu beijar se repete lasso
e parco
e áspero.

Por que vieste?

Se sabias que de meu canto só nasce
o que não tem tempo de ser semente
e fere quem dele se assenhoreia?

Se sabias que a semente silenciosa
apenas estremece em sortilégios
a inexorabilidade da morte?

Que brotaria inóspitos
cardos e pedras e lajedos
por que vieste?

Fui semente entre severas pedras...

Meu corpo é tenso em teu corpo
minha boca arde em tua boca
e parece-me, no momento,
dilacerar as fímbrias da vida...




"Eu te amo" - Chico Buarque e Tom Jobim - com Telma Costa


18 de mai. de 2010

ONÍRICA


Caio Martins






(img: kboing)


Por que? Por que me olhas assim
onírica, de minhas paredes
lépida, ágil, intrépida
enquanto nestas madrugadas frias
traço com pobres palavras
notícias
relatos de amores, guerras
preces, paixões,
luzes e trevas
e as Musas
ingratas me abandonam
desterram
e ficas como dona, e deixo
encantado em teus mistérios
minha linda lagartixa? ...

9 de mai. de 2010

HOJE


Caio Martins

Ao poeta Luiz de Miranda.










(img: fabian perez - autoretrato)

Hoje, poeta, escrevo
não mais como quem chora
lamenta ou enlouquece,
como quem foge
briga e apanha e bate
e crê salvar-se ileso
e aos faltos do universo.

Hoje, poeta, escrevo
não mais como quem morre
escorrendo por complacentes
moçoilas no cio, vadias
vulgívagas elementares
crendo de amor falar
a torpes desesperados...

Hoje, poeta, escrevo
de caso pensado, sem alma
adrede e premeditado
sem ira ou rancor ou tédio
como quem solerte se exprime
suspeito e dissimulado
para cometer um crime.

Hoje, poeta, escrevo
como quem, por afasia,
declina da Poesia...

1 de mai. de 2010

CHORINHO


Caio Martins

Para Márcia


Saiu a pé pelo sábado choroso de outono, nem frio nem quente, um cheiro de mofo deprimente pelas ruas. Entrou num boteco esconso, trapiche onde estavam todos os amigos começando a noite que naufragaria, inevitavelmente, num oceano de cerveja, chope e cachaça... Todos os olhares cúmplices e solidários, solitários e comoventes antecederam os abraços, saudações, daí começou a alegria... Ou não fora ali o rei do cavaquinho, soberano nos diálogos com o violão do botequeiro e quaisquer vozes, nas místicas noites de chorinho e chorões?

Mastigou um torresminho devagar, ouvindo e desfrutando da zorra da moçada: qualquer desamado sofredor e desmamado, ali era personalidade, tinha ancoradouro. Estava com mal de amor... Tomou um martelinho de cachaça de a golinhos, entremeados por chope, já pegando o andar da carruagem quando a viu. Não a que se fora, mas uma carinha nova, de "olhar e voz envolvente, que atingia a perfeição”... Meteu-se naquele olhar profundo, no fundo decote e respirou, aliviado: o Barbudo, seu amigo, lhe enviava a cura...

Pegou o cavaco, afinou nos trinques e tocou como nunca d’antes na história deste país. Os olhos da moça não desgrudavam baixando-se, timidamente estratégicos, se focados. A galera extasiada nada via, ele entrara num estágio de magia irresistível e fora de questão. Quando pausou o ritual, foi um “- Aaaaahhhhh!” geral... Queriam mais, muito mais. Foi ao balcão de madeira escura (diziam que Cabral ali tomara sua primeira talagada ao chegar ao País das Maravilhas). Perguntou ao povo quem era a menina discretamente, macio feito um gato ladrão. Nada sabiam. Chamou o garçom e pediu que averiguasse se estava sozinha. Foi o velho astuto e perguntou-lhe se seu marido não queria nada. Estava só, com amigos...

Poderia antes, como Neruda, “escribrir los versos más tristes esta noche”... Todas as noites... Não, não o faria jamais: ela se fora? Que se danasse... Duro, todavia, o insistir da memória do corpo, os restos de energia eternamente entranhados, qualquer porcaria dentro e fora de casa lembrando e lembrando e lembrando... Venderia a casa, o carro... E as roupas, objetos pessoais, os móveis, o computador, os livros, mudaria para outra cidade, outro país, outro planeta... Outras mulheres? Estupidamente, no primeiro encontro pós-traumático, momentos decisivos, saíra-lhe o nome da outra; fora-se o doce enleio pelo ataque de ira, catar de roupas e o indignado bater da porta... Ali ficara na cama enorme pequeno feito um rato, chorando feito besta.

Ah! talvez revoltar-se ajudaria... Mas... como? Se ela nem saberia, senão por terceiros e notícia ruim de noticiário marrom, dos esparramos e desmandos? Entupir-se e naufragar em drogas, qualquer porcaria entorpecente e fulminante? Ir, a mão armada, e mostrar ao universo até onde um desesperado pode ser imbecil? Sair do emprego, cair na orgia, zerar a conta bancária e sair com a roupa do corpo pelas ruas atrás do fim do mundo? Procurar psiquiatra, psicólogo, terreiro, templo, mesquita, igreja? Não! Não resolveria... Fora-se? Foda-se! Ainda tinha o cavaquinho. Sorriu para a moça.

E, assim, conversaram sem pressa, de lá e de cá num chorinho vez por outra, lagriminha boba, escapada de um suspiro fundo, as mãos se tocando, litúrgicas. Horas depois, na porta do muquifo, despediram-se com beijo na face. Estava, como ele, em luto. Perdera também um grande amor.

(img:
fabian perez - study for the proposal)


20 de abr. de 2010

RETRATO DO MUNDO


Caio Martins


Para Cidinha Costa











(img: snowland -inga nielsen)


Busquei-te pela cidade toda.
Os lugares percorridos sabiam
de meus passos erráticos os sons
procurando sempre, desencontrando.

Mas te calavas
sentindo dor alguma
na convivência agre
dos desfadados da cidade ébria.

Não havia indigências
desconhecendo teu nome, tua voz
teu riso,
desconhecidos
os mistérios do teu corpo
outros que carregas
e não ousas confessar.

Estranha mulher, a liberdade...

Tolas tremuras cravam as ruas
remaculadas, e tudo foi súplica
falava-se em coisas impossíveis
a cidade mais e mais se iluminando
corpos buscando esconsos vãos
para dormir, a sensação de ausência
apertando, dando seu preço.

Busquei-te pela cidade toda.
Pediria esmolas, não fosse
o meu orgulho de aço...

O peito, agora, descansa frio
sem peso algum que o reconheça, sem
possibilidades de ficar menor.

O peito do poeta, neste instante
é um retrato do mundo.

(Casa do Estudante - XI de Agosto - 09/05/1967).




Com Maria Bethânia - De Chico Buarque e Gilberto Gil - Censurada em 1973.



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