Caio Martins
Para Márcia

Mastigou um torresminho devagar, ouvindo e desfrutando da zorra da moçada: qualquer desamado sofredor e desmamado, ali era personalidade, tinha ancoradouro. Estava com mal de amor... Tomou um martelinho de cachaça de a golinhos, entremeados por chope, já pegando o andar da carruagem quando a viu. Não a que se fora, mas uma carinha nova, de "olhar e voz envolvente, que atingia a perfeição”... Meteu-se naquele olhar profundo, no fundo decote e respirou, aliviado: o Barbudo, seu amigo, lhe enviava a cura...
Pegou o cavaco, afinou nos trinques e tocou como nunca d’antes na história deste país. Os olhos da moça não desgrudavam baixando-se, timidamente estratégicos, se focados. A galera extasiada nada via, ele entrara num estágio de magia irresistível e fora de questão. Quando pausou o ritual, foi um “- Aaaaahhhhh!” geral... Queriam mais, muito mais. Foi ao balcão de madeira escura (diziam que Cabral ali tomara sua primeira talagada ao chegar ao País das Maravilhas). Perguntou ao povo quem era a menina discretamente, macio feito um gato ladrão. Nada sabiam. Chamou o garçom e pediu que averiguasse se estava sozinha. Foi o velho astuto e perguntou-lhe se seu marido não queria nada. Estava só, com amigos...
Poderia antes, como Neruda, “escribrir los versos más tristes esta noche”... Todas as noites... Não, não o faria jamais: ela se fora? Que se danasse... Duro, todavia, o insistir da memória do corpo, os restos de energia eternamente entranhados, qualquer porcaria dentro e fora de casa lembrando e lembrando e lembrando... Venderia a casa, o carro... E as roupas, objetos pessoais, os móveis, o computador, os livros, mudaria para outra cidade, outro país, outro planeta... Outras mulheres? Estupidamente, no primeiro encontro pós-traumático, momentos decisivos, saíra-lhe o nome da outra; fora-se o doce enleio pelo ataque de ira, catar de roupas e o indignado bater da porta... Ali ficara na cama enorme pequeno feito um rato, chorando feito besta.
Ah! talvez revoltar-se ajudaria... Mas... como? Se ela nem saberia, senão por terceiros e notícia ruim de noticiário marrom, dos esparramos e desmandos? Entupir-se e naufragar em drogas, qualquer porcaria entorpecente e fulminante? Ir, a mão armada, e mostrar ao universo até onde um desesperado pode ser imbecil? Sair do emprego, cair na orgia, zerar a conta bancária e sair com a roupa do corpo pelas ruas atrás do fim do mundo? Procurar psiquiatra, psicólogo, terreiro, templo, mesquita, igreja? Não! Não resolveria... Fora-se? Foda-se! Ainda tinha o cavaquinho. Sorriu para a moça.
E, assim, conversaram sem pressa, de lá e de cá num chorinho vez por outra, lagriminha boba, escapada de um suspiro fundo, as mãos se tocando, litúrgicas. Horas depois, na porta do muquifo, despediram-se com beijo na face. Estava, como ele, em luto. Perdera também um grande amor.
(img: fabian perez - study for the proposal)
Estou com mal de amor.
ResponderExcluirBela frase.
Os músicos são privilegiados. Os instrumentos falam. E chegam aos ouvidos de Deus.
ResponderExcluirQualquer agonia cessa, quando um instrumento está dando o seu recado nas mãos de quem sabe tocar!
É assim que vejo seu texto, Caio. Parabéns.
Jorge
Mais uma vez o lirismo de Caio aflora, num misto de revolta, indignação e rebeldia. As amarras se soltam e, como que instantaneamente, são recolhidas. O texto é todo caracterizado por um realismo mágico que nos leva a viagens oníricas ao universo particular do autor. É interessante como ele vai do “profano” ao “sagrado”, do passado ao presente (e também ao futuro) como quem nem saiu do lugar – característica de um poeta engajado com a realidade e consciente de suas inquietações. Ao deixar a sensibilidade transbordar, nos leva para o interior de seus questionamentos e buscas diárias e faz com que cada um de nós se sinta protagonista de seus enredos.
ResponderExcluirParabéns pela magia das palavras e obrigada por dividi-las conosco.
Beijos
Márcia
Um dos textos mais belos e intensos no sentido que me vi dentro dele, que adentrei nos últimos tempos...
ResponderExcluirAbraço
Bom texto! Gostei deste narrador que brinca com o tempo e funde passado,presente e futuro e o usa a seu favor. Até pude ouvir o cavaquinho cantar. Faz tempo que não via esta boemia em textos.
ResponderExcluirSem contar o lirismo contagiante...
Abraços
Eu sempre falo e falo que alguns enlevos quando pegam, ficam marcados (para sempre?) e incomodam. No caso desta bela crônica, o chorinho é um mero consolo. Aliás, o nome: cho-ri-nho. Nem a moça do beijinho resolve nestes casos. É assim. Parabéns. Bonita crônica. Milton martins
ResponderExcluirÉ, Vanessa, bonitinha... O bicho péga se, e como sempre acontece, mal de amor tem a ver com desamor. Daí...
ResponderExcluirJorge, você tem a sensibilidade de quem festeja a vida até nos momentos mais conturbados. Assim se conta a sua história.
Márcia, que tremenda responsabilidade você me atribui: terei de esforçar-me muito, para chegar a tudo isso. Que os deuses me cedam a sua luz...
Quem viveu, sabe, Juan. Não por acaso jovens procuram o ambiente cada vez mais, para fugir da esmagadora e bestializante parafernália eletrônica. Bem vindo ao clube...
Paula, sei não, creio que muitas vezes o tempo é quem brinca conosco... Tentamos, então, interpretá-lo, como os Muvucas da vida.
Milton, o que incomoda não são os enlevos, mas a sua falta, tenho a impressão... No momento em que nada mais move e comove, não haverá beijo de moça, bonita ou não, que nos salve.
"Como é bom saber tocar um instrumento" - Ah, Caio, do que não foi vivido, quando não foi perdido... Belíssimo texto. Vou ler de novo. :) beijo.
ResponderExcluirNydia, tocar, ouvir, cantar, dançar... Mais que as excelências do passado, há que resgatar aquelas do futuro. "Eu acredito na rapaziada...", diz Gonzaguinha... Nós, também! Vamos nessa!
ResponderExcluirChorinho - lamento - enlêvo e nada ou ninguém que valha um choro que não seja simplesmente chorinho.
ResponderExcluirAcesa estava a vital capacidade dos sentidos , não morreu portanto, no fogo e no fogo , assim ficam músicos se muito chorados.
Lembro de quando um maestro meu amigo ficou assim largado pelo amor e veio dormir cá em casa.
Colchonete e uma gata amarela a acariciar-lhe toda a noite não dormida. Pela manhã quando cheguei a sala, ele já estava sem as lágrimas, aceitou café e disse que havia encontrado uma loira.
_ a Shaia, minha gata amarela.
Só quero com isso, dizer que realmente, músicos estão sempre acompanhados e de tudo brotam musas.
Bonito e delicado texto!
ResponderExcluirVc imprimiu um ritmo como a de um cavaquinho, gosto disso! Gosto de ser encantada por palavras e ritmos, e
é sempre um prazer passar por aqui!
Bjs,
Ester
Bárbara, não seria a Shaia por acaso, mais que Musa uma rara deidade capaz de ressuscitar um Maestro reduzido a trapos? Depois o cafezinho feito na hora faz o resto... Gostei da estória. Dá bela crônica.
ResponderExcluirEster, grato pela visita e por suas palavras. O chorinho tem especial complexidade harmônica até nas dissonâncias. Como tudo que é essencialmente sentimento. Há que saber ouvir.
Parabens, Caio: gostei da sua crônica. A atmosfera descrita por você me fez lembrar de uma mesa-redonda que burilei com os meus alunos e que intitulei de "Mesa de bar: uma dose de leitura". Estou pensando reeditar o evento e se isso acontecer trabalhei seus textos, sobretudo essa crônica.
ResponderExcluirEm tempo, grata pelo comentario ao selo Presença Literária. Ficarei feliz se você o aceitar também. Para tanto, envie-me o seu e-mail. Abraços,
Graça Graúna
Maravilhoso ler este seu Chorinho,
ResponderExcluirda gosto, do inicio ao fim,
uma prosa deliciosa,
PARABÉNS
Efigênia Coutinho