19 de jun. de 2010

BECOS


Caio Martins












(img: cvm - janaína/76-02)


Dos becos, em teus cabelos
das tuas sombras me fitas
vagos olhares, aflita
quem sabe ira, ou apelos.

Destinos tolos, sem grita
silêncios largos de zelos,
enrodilhados novelos
entre teias, contraditas.

Ah! teus olhos, tua boca
vincados e sem sorrisos
inexpressivos, sem ecos...

Quisera deixar-te louca
roubar-te beijos de avisos
e perder-me nos teus becos.

19/06/10 - SP.



5 de jun. de 2010

O CARRO DE BOI


Caio Martins

Solicitamos, a quem reproduzir, que respeite a autoria. Encontramos, em alguns sites, plágios descarados deste livro. Não é ético, é imoral e criminoso. Nada a obstar às citações honestas, que mencionem autoria e fonte. Tudo a combater contra "vampiros" e "sanguessugas" que se aproveitam do trabalho alheio. Esta é uma causa de todo escritor honesto e leitor consciente.

1. O carro

Tem carro de boi, e tem carreta. Carreta, ou carroção, tem roda raiada e é muda, não canta. Carro de boi tem roda inteira, e canta para se ouvir de léguas, seja gaita, pombo ou baixão . É coisa de sertanejo, é uma saudade doída de um tempo onde se ia devagar, mas havia mais tempo para ver e entender as coisas. Saber de carro de boi, é mexer com magia, é entender a alma da madeira e do ferro, da terra e do fogo, da água e do ar... [...]

(img: capa -1ª edição- 1997 - esgotada)


Veja matéria completa em http://caiovmartins.blogspot.com/p/o-carro-de-boi.html

30 de mai. de 2010

VISITA


Caio Martins

À Jane Vieira










(img: cvm - elaine16 -/decker)


Fui semente entre severas pedras.

Profetizando tempos de colheitas
nasceram flores mesquinhas
violentando mais e mais a colina.

Areias desoladas clamavam
e debatia entre mistérios
o amor como uma casca.

Em vão tentaram os ímpios socorrer.
Que sabem das tocaias dos vermes
em silêncio nas sementes?

Em vão tentaram, imaculadas virgens
interiores, impudicas e uniformes
resgatar com cantos e mel...

Que sabem desraigados
da deterioração intransponível
das farpas das solidões?

Mas, vieste umedecer o silêncio
com teu corpo (e)terno
capaz, porém, de tantos rituais.

Vieste, então, perplexa murmurar
aos ouvidos tronchos palavras desconexas
pungentes apostasiando a vida.

Vieste...

Como que trazendo perdão
entre prantos sem riso ou música
apoiaste tua face
em minhas mãos qual criança cansada
de brincar
e tanto brincas que me confundo
e meu beijar se repete lasso
e parco
e áspero.

Por que vieste?

Se sabias que de meu canto só nasce
o que não tem tempo de ser semente
e fere quem dele se assenhoreia?

Se sabias que a semente silenciosa
apenas estremece em sortilégios
a inexorabilidade da morte?

Que brotaria inóspitos
cardos e pedras e lajedos
por que vieste?

Fui semente entre severas pedras...

Meu corpo é tenso em teu corpo
minha boca arde em tua boca
e parece-me, no momento,
dilacerar as fímbrias da vida...




"Eu te amo" - Chico Buarque e Tom Jobim - com Telma Costa


18 de mai. de 2010

ONÍRICA


Caio Martins






(img: kboing)


Por que? Por que me olhas assim
onírica, de minhas paredes
lépida, ágil, intrépida
enquanto nestas madrugadas frias
traço com pobres palavras
notícias
relatos de amores, guerras
preces, paixões,
luzes e trevas
e as Musas
ingratas me abandonam
desterram
e ficas como dona, e deixo
encantado em teus mistérios
minha linda lagartixa? ...

9 de mai. de 2010

HOJE


Caio Martins

Ao poeta Luiz de Miranda.










(img: fabian perez - autoretrato)

Hoje, poeta, escrevo
não mais como quem chora
lamenta ou enlouquece,
como quem foge
briga e apanha e bate
e crê salvar-se ileso
e aos faltos do universo.

Hoje, poeta, escrevo
não mais como quem morre
escorrendo por complacentes
moçoilas no cio, vadias
vulgívagas elementares
crendo de amor falar
a torpes desesperados...

Hoje, poeta, escrevo
de caso pensado, sem alma
adrede e premeditado
sem ira ou rancor ou tédio
como quem solerte se exprime
suspeito e dissimulado
para cometer um crime.

Hoje, poeta, escrevo
como quem, por afasia,
declina da Poesia...

1 de mai. de 2010

CHORINHO


Caio Martins

Para Márcia


Saiu a pé pelo sábado choroso de outono, nem frio nem quente, um cheiro de mofo deprimente pelas ruas. Entrou num boteco esconso, trapiche onde estavam todos os amigos começando a noite que naufragaria, inevitavelmente, num oceano de cerveja, chope e cachaça... Todos os olhares cúmplices e solidários, solitários e comoventes antecederam os abraços, saudações, daí começou a alegria... Ou não fora ali o rei do cavaquinho, soberano nos diálogos com o violão do botequeiro e quaisquer vozes, nas místicas noites de chorinho e chorões?

Mastigou um torresminho devagar, ouvindo e desfrutando da zorra da moçada: qualquer desamado sofredor e desmamado, ali era personalidade, tinha ancoradouro. Estava com mal de amor... Tomou um martelinho de cachaça de a golinhos, entremeados por chope, já pegando o andar da carruagem quando a viu. Não a que se fora, mas uma carinha nova, de "olhar e voz envolvente, que atingia a perfeição”... Meteu-se naquele olhar profundo, no fundo decote e respirou, aliviado: o Barbudo, seu amigo, lhe enviava a cura...

Pegou o cavaco, afinou nos trinques e tocou como nunca d’antes na história deste país. Os olhos da moça não desgrudavam baixando-se, timidamente estratégicos, se focados. A galera extasiada nada via, ele entrara num estágio de magia irresistível e fora de questão. Quando pausou o ritual, foi um “- Aaaaahhhhh!” geral... Queriam mais, muito mais. Foi ao balcão de madeira escura (diziam que Cabral ali tomara sua primeira talagada ao chegar ao País das Maravilhas). Perguntou ao povo quem era a menina discretamente, macio feito um gato ladrão. Nada sabiam. Chamou o garçom e pediu que averiguasse se estava sozinha. Foi o velho astuto e perguntou-lhe se seu marido não queria nada. Estava só, com amigos...

Poderia antes, como Neruda, “escribrir los versos más tristes esta noche”... Todas as noites... Não, não o faria jamais: ela se fora? Que se danasse... Duro, todavia, o insistir da memória do corpo, os restos de energia eternamente entranhados, qualquer porcaria dentro e fora de casa lembrando e lembrando e lembrando... Venderia a casa, o carro... E as roupas, objetos pessoais, os móveis, o computador, os livros, mudaria para outra cidade, outro país, outro planeta... Outras mulheres? Estupidamente, no primeiro encontro pós-traumático, momentos decisivos, saíra-lhe o nome da outra; fora-se o doce enleio pelo ataque de ira, catar de roupas e o indignado bater da porta... Ali ficara na cama enorme pequeno feito um rato, chorando feito besta.

Ah! talvez revoltar-se ajudaria... Mas... como? Se ela nem saberia, senão por terceiros e notícia ruim de noticiário marrom, dos esparramos e desmandos? Entupir-se e naufragar em drogas, qualquer porcaria entorpecente e fulminante? Ir, a mão armada, e mostrar ao universo até onde um desesperado pode ser imbecil? Sair do emprego, cair na orgia, zerar a conta bancária e sair com a roupa do corpo pelas ruas atrás do fim do mundo? Procurar psiquiatra, psicólogo, terreiro, templo, mesquita, igreja? Não! Não resolveria... Fora-se? Foda-se! Ainda tinha o cavaquinho. Sorriu para a moça.

E, assim, conversaram sem pressa, de lá e de cá num chorinho vez por outra, lagriminha boba, escapada de um suspiro fundo, as mãos se tocando, litúrgicas. Horas depois, na porta do muquifo, despediram-se com beijo na face. Estava, como ele, em luto. Perdera também um grande amor.

(img:
fabian perez - study for the proposal)


20 de abr. de 2010

RETRATO DO MUNDO


Caio Martins


Para Cidinha Costa











(img: snowland -inga nielsen)


Busquei-te pela cidade toda.
Os lugares percorridos sabiam
de meus passos erráticos os sons
procurando sempre, desencontrando.

Mas te calavas
sentindo dor alguma
na convivência agre
dos desfadados da cidade ébria.

Não havia indigências
desconhecendo teu nome, tua voz
teu riso,
desconhecidos
os mistérios do teu corpo
outros que carregas
e não ousas confessar.

Estranha mulher, a liberdade...

Tolas tremuras cravam as ruas
remaculadas, e tudo foi súplica
falava-se em coisas impossíveis
a cidade mais e mais se iluminando
corpos buscando esconsos vãos
para dormir, a sensação de ausência
apertando, dando seu preço.

Busquei-te pela cidade toda.
Pediria esmolas, não fosse
o meu orgulho de aço...

O peito, agora, descansa frio
sem peso algum que o reconheça, sem
possibilidades de ficar menor.

O peito do poeta, neste instante
é um retrato do mundo.

(Casa do Estudante - XI de Agosto - 09/05/1967).




Com Maria Bethânia - De Chico Buarque e Gilberto Gil - Censurada em 1973.



12 de abr. de 2010

O FIO DA VIDA


Caio Martins


À Elodi Barontine










(img: el federal café - fabián perez).

A fluidez das palavras desgastadas
confirmam que a certeza de viver
tanto amor descompassado
morreu! Sempre é partida...

Talvez se brinque, talvez se grite
talvez se brigue, talvez se seja
eternamente nada mais que talvez.

Dos olhos da cidade
maldita
a multidão espia:
hão de querer o poeta, o anarquista
pendurado pela perna em fio de aço
pirueteando sobre o Vale do Anhangabaú...

Hão de querer versos prematuros,
improvisados prantos e risos,
o aguardarão sempre pronto no palco
decorado, precisos
gestos encenados com apuro,
o poema pulando da boca
rápido qual um beijo ou cuspida.
Diferenças? Nada!

Sempre é partida...

Dezenas de metros sob a corda bamba
baba a multidão esperançada
de mais um desastre passional.

Rompesse o fio da vida e ficaria
o silêncio de chumbo oprimindo a vivência
mas ficam
a corrosão de tantas palavras requentadas
latejando nos ouvidos, teu canto
tua música, tua permanência cravadas
febrilmente em meus sentidos
destartalados...

É sempre a vida dispersando
a vontade confinada
aos precários confins do corpo
e infinitos ardis da memória.

Sempre, amor, a vida
é sarcástica partida.

(viaduto do chá - 1968 - editado em 11/04/2010)



6 de abr. de 2010

OS PRAZERES DA PÁSCOA

Caio Martins
"Carácoles! Como és pascua nos fuimos a comer conejitos..."

      Assim falou meu querido amigo Juan Morcilla, no ano passado. Saí de um almoço de páscoa, agorinha, digno de trogloditas: coelhinho, carneirinho, leitãozinho,boizinho etc. ... Ninguém queria se meter na cozinha, fomos para a churrascaria.
     Horas depois, chegados à toca, heroicamente decido não dormir e babar no tapete, meu sofá já ocupado.
Cachaça no meio, estranhos pensamentos ocorrem dentre as volutas da fumaça do cigarro, enquanto contemplo, bestificado, as pernas da moça que resolveu ficar, sob desculpa de não dirigir bêbada. 
    Perfeitas... até demais. Dedinhos, pezinhos, joelhinhos, coxas terminando numa nano-calcinha bordô ridícula (pedirei-lhe, quando saia do coma agápico, o lacinho azul pouco menor que a peça para lembrar-me deste dia)...
    Paro aí, o resto enrolado na leve cortina recém lavada que não instalei e que virou lençol, sobrando-lhe, de fora, um lindo focinho ávido. Vibram, meus extraordinários instintos mais primitivos e atávicos! Uma citrullus lanatus ou opulenta representante das cucurbitaceae nas mesmas condições jamais causaria, sob todas ameaças das penas do inferno ou promessas de bênçãos celestiais, tal exaltação...
    Impávido, politicamente incorreto nato, contemplo extasiado e satisfeito, farto e lascivo, essa maravilhosa obra de arte da criatividade divina que aterrissou, lânguida e tépida e intrépida, confortável e feliz, no meu peji de elevadíssimas reflexões não traumáticas... Concluo que esse Deus ressurgido e comemorado - ou o deus, os deuses, fique-se democraticamente à vontade - deve ser, enfaticamente, meu amigo.
    Que me perdoem os fundamentalistas alimentares, abstêmios e castos, sou carnívoro. Luxuriosa e exaustivamente carnívoro. Definitivamente carnívoro...
(img: paola en el sofá - fabián perez )

3 de abr. de 2010

EL CANTOR


Caio Martins

A Sérgio Mansilla










(img: cvm - sinfonia cósmica)

Cantá, cantor,
seguí, nomás...

El momento de tu agonía
tiene de ser vivido
como el último aliento
de un condenado a muerte.

Rueda en tu voz
en las cuerdas de tu guitarra
el peso violento
de nuestra suerte.

Cantá, nomás, loco,
alucinado como los locos
los músicos, las putas
los poetas, los perros callejeros
los gorriones y los niños...

Cantás, seguí nomás
que todas las soledades amargadas
se te van aderir, apegar,
chuparte la sangre
y después, felices,
bailar una salsa
sobre tu cuerpo agotado...

Cantá, cantor
que el poeta, cual un brujo
las putas, como madres
los perros callejeros de guardianes
los niños de angeles
te resucitarán
para que cantes, cantes
y cantes
hasta explotar
y alumbrar el cielo
con las estrellas de tu voz...

(penã folklórica "los hermanos" - 11/03/1986)

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