Escrever é ofício árduo, dífícil e, quando não, arriscado. Da interminável e densa e intensa batalha entre memória e história, o que resta são palavras. Só palavras.
Serão eventualmente garimpadas nos escombros do futuro. Estão convidados, porém, a revirar hoje o blogue pelo avesso.
Solicitamos, a quem reproduzir, que respeite a autoria. Encontramos, em alguns sites, plágios descarados deste livro. Não é ético, é imoral e criminoso. Nada a obstar às citações honestas, que mencionem autoria e fonte. Tudo a combater contra "vampiros" e "sanguessugas" que se aproveitam do trabalho alheio. Esta é uma causa de todo escritor honesto e leitor consciente. 1. O carro
Tem carro de boi, e tem carreta. Carreta, ou carroção, tem roda raiada e é muda, não canta. Carro de boi tem roda inteira, e canta para se ouvir de léguas, seja gaita, pombo ou baixão . É coisa de sertanejo, é uma saudade doída de um tempo onde se ia devagar, mas havia mais tempo para ver e entender as coisas. Saber de carro de boi, é mexer com magia, é entender a alma da madeira e do ferro, da terra e do fogo, da água e do ar... [...]
Profetizando tempos de colheitas nasceram flores mesquinhas violentando mais e mais a colina.
Areias desoladas clamavam e debatia entre mistérios o amor como uma casca.
Em vão tentaram os ímpios socorrer. Que sabem das tocaias dos vermes em silêncio nas sementes?
Em vão tentaram, imaculadas virgens interiores, impudicas e uniformes resgatar com cantos e mel...
Que sabem desraigados da deterioração intransponível das farpas das solidões?
Mas, vieste umedecer o silêncio com teu corpo (e)terno capaz, porém, de tantos rituais.
Vieste, então, perplexa murmurar aos ouvidos tronchos palavras desconexas pungentes apostasiando a vida.
Vieste...
Como que trazendo perdão entre prantos sem riso ou música apoiaste tua face em minhas mãos qual criança cansada de brincar e tanto brincas que me confundo e meu beijar se repete lasso e parco e áspero.
Por que vieste?
Se sabias que de meu canto só nasce o que não tem tempo de ser semente e fere quem dele se assenhoreia?
Se sabias que a semente silenciosa apenas estremece em sortilégios a inexorabilidade da morte?
Que brotaria inóspitos cardos e pedras e lajedos por que vieste?
Fui semente entre severas pedras...
Meu corpo é tenso em teu corpo minha boca arde em tua boca e parece-me, no momento, dilacerar as fímbrias da vida...
"Eu te amo" - Chico Buarque e Tom Jobim - com Telma Costa
Por que? Por que me olhas assim onírica, de minhas paredes lépida, ágil, intrépida enquanto nestas madrugadas frias traço com pobres palavras notícias relatos de amores, guerras preces, paixões, luzes e trevas e as Musas ingratas me abandonam desterram e ficas como dona, e deixo encantado em teus mistérios minha linda lagartixa? ...
Hoje, poeta, escrevo não mais como quem chora lamenta ou enlouquece, como quem foge briga e apanha e bate e crê salvar-se ileso e aos faltos do universo.
Hoje, poeta, escrevo não mais como quem morre escorrendo por complacentes moçoilas no cio, vadias vulgívagas elementares crendo de amor falar a torpes desesperados...
Hoje, poeta, escrevo de caso pensado, sem alma adrede e premeditado sem ira ou rancor ou tédio como quem solerte se exprime suspeito e dissimulado para cometer um crime.
Hoje, poeta, escrevo como quem, por afasia, declina da Poesia...
Saiu a pé pelo sábado choroso de outono, nem frio nem quente, um cheiro de mofo deprimente pelas ruas. Entrou num boteco esconso, trapiche onde estavam todos os amigos começando a noite que naufragaria, inevitavelmente, num oceano de cerveja, chope e cachaça... Todos os olhares cúmplices e solidários, solitários e comoventes antecederam os abraços, saudações, daí começou a alegria... Ou não fora ali o rei do cavaquinho, soberano nos diálogos com o violão do botequeiro e quaisquer vozes, nas místicas noites de chorinho e chorões?
Mastigou um torresminho devagar, ouvindo e desfrutando da zorra da moçada: qualquer desamado sofredor e desmamado, ali era personalidade, tinha ancoradouro. Estava com mal de amor... Tomou um martelinho de cachaça de a golinhos, entremeados por chope, já pegando o andar da carruagem quando a viu. Não a que se fora, mas uma carinha nova, de "olhar e voz envolvente, que atingia a perfeição”... Meteu-se naquele olhar profundo, no fundo decote e respirou, aliviado: o Barbudo, seu amigo, lhe enviava a cura...
Pegou o cavaco, afinou nos trinques e tocou como nunca d’antes na história deste país. Os olhos da moça não desgrudavam baixando-se, timidamente estratégicos, se focados. A galera extasiada nada via, ele entrara num estágio de magia irresistível e fora de questão. Quando pausou o ritual, foi um “- Aaaaahhhhh!” geral... Queriam mais, muito mais. Foi ao balcão de madeira escura (diziam que Cabral ali tomara sua primeira talagada ao chegar ao País das Maravilhas). Perguntou ao povo quem era a menina discretamente, macio feito um gato ladrão. Nada sabiam. Chamou o garçom e pediu que averiguasse se estava sozinha. Foi o velho astuto e perguntou-lhe se seu marido não queria nada. Estava só, com amigos...
Poderia antes, como Neruda, “escribrir los versos más tristes esta noche”... Todas as noites... Não, não o faria jamais: ela se fora? Que se danasse... Duro, todavia, o insistir da memória do corpo, os restos de energia eternamente entranhados, qualquer porcaria dentro e fora de casa lembrando e lembrando e lembrando... Venderia a casa, o carro... E as roupas, objetos pessoais, os móveis, o computador, os livros, mudaria para outra cidade, outro país, outro planeta... Outras mulheres? Estupidamente, no primeiro encontro pós-traumático, momentos decisivos, saíra-lhe o nome da outra; fora-se o doce enleio pelo ataque de ira, catar de roupas e o indignado bater da porta... Ali ficara na cama enorme pequeno feito um rato, chorando feito besta.
Ah! talvez revoltar-se ajudaria... Mas... como? Se ela nem saberia, senão por terceiros e notícia ruim de noticiário marrom, dos esparramos e desmandos? Entupir-se e naufragar em drogas, qualquer porcaria entorpecente e fulminante? Ir, a mão armada, e mostrar ao universo até onde um desesperado pode ser imbecil? Sair do emprego, cair na orgia, zerar a conta bancária e sair com a roupa do corpo pelas ruas atrás do fim do mundo? Procurar psiquiatra, psicólogo, terreiro, templo, mesquita, igreja? Não! Não resolveria... Fora-se? Foda-se! Ainda tinha o cavaquinho. Sorriu para a moça.
E, assim, conversaram sem pressa, de lá e de cá num chorinho vez por outra, lagriminha boba, escapada de um suspiro fundo, as mãos se tocando, litúrgicas. Horas depois, na porta do muquifo, despediram-se com beijo na face. Estava, como ele, em luto. Perdera também um grande amor. (img: fabian perez - study for the proposal)
Busquei-te pela cidade toda. Os lugares percorridos sabiam de meus passos erráticos os sons procurando sempre, desencontrando.
Mas te calavas sentindo dor alguma na convivência agre dos desfadados da cidade ébria.
Não havia indigências desconhecendo teu nome, tua voz teu riso, desconhecidos os mistérios do teu corpo outros que carregas e não ousas confessar.
Estranha mulher, a liberdade...
Tolas tremuras cravam as ruas remaculadas, e tudo foi súplica falava-se em coisas impossíveis a cidade mais e mais se iluminando corpos buscando esconsos vãos para dormir, a sensação de ausência apertando, dando seu preço.
Busquei-te pela cidade toda. Pediria esmolas, não fosse o meu orgulho de aço...
O peito, agora, descansa frio sem peso algum que o reconheça, sem possibilidades de ficar menor.
O peito do poeta, neste instante é um retrato do mundo.
(Casa do Estudante - XI de Agosto - 09/05/1967).
Com Maria Bethânia - De Chico Buarque e Gilberto Gil - Censurada em 1973.
A fluidez das palavras desgastadas confirmam que a certeza de viver tanto amor descompassado morreu! Sempre é partida...
Talvez se brinque, talvez se grite talvez se brigue, talvez se seja eternamente nada mais que talvez.
Dos olhos da cidade maldita a multidão espia: hão de querer o poeta, o anarquista pendurado pela perna em fio de aço pirueteando sobre o Vale do Anhangabaú...
Hão de querer versos prematuros, improvisados prantos e risos, o aguardarão sempre pronto no palco decorado, precisos gestos encenados com apuro, o poema pulando da boca rápido qual um beijo ou cuspida. Diferenças? Nada!
Sempre é partida...
Dezenas de metros sob a corda bamba baba a multidão esperançada de mais um desastre passional.
Rompesse o fio da vida e ficaria o silêncio de chumbo oprimindo a vivência mas ficam a corrosão de tantas palavras requentadas latejando nos ouvidos, teu canto tua música, tua permanência cravadas febrilmente em meus sentidos destartalados...
É sempre a vida dispersando a vontade confinada aos precários confins do corpo e infinitos ardis da memória.
Caio Martins "Carácoles! Como és pascua nos fuimos a comer conejitos..."
Assim falou meu querido amigo Juan Morcilla, no ano passado. Saí de um almoço de páscoa, agorinha, digno de trogloditas: coelhinho, carneirinho, leitãozinho,boizinho etc. ... Ninguém queria se meter na cozinha, fomos para a churrascaria. Horas depois, chegados à toca, heroicamente decido não dormir e babar no tapete, meu sofá já ocupado. Cachaça no meio, estranhos pensamentos ocorrem dentre as volutas da fumaça do cigarro, enquanto contemplo, bestificado, as pernas da moça que resolveu ficar, sob desculpa de não dirigir bêbada. Perfeitas... até demais. Dedinhos, pezinhos, joelhinhos, coxas terminando numa nano-calcinha bordô ridícula (pedirei-lhe, quando saia do coma agápico, o lacinho azul pouco menor que a peça para lembrar-me deste dia)... Paro aí, o resto enrolado na leve cortina recém lavada que não instalei e que virou lençol, sobrando-lhe, de fora, um lindo focinho ávido. Vibram, meus extraordinários instintos mais primitivos e atávicos! Uma citrullus lanatus ou opulenta representante das cucurbitaceae nas mesmas condições jamais causaria, sob todas ameaças das penas do inferno ou promessas de bênçãos celestiais, tal exaltação... Impávido, politicamente incorreto nato, contemplo extasiado e satisfeito, farto e lascivo, essa maravilhosa obra de arte da criatividade divina que aterrissou, lânguida e tépida e intrépida, confortável e feliz, no meu peji de elevadíssimas reflexões não traumáticas... Concluo que esse Deus ressurgido e comemorado - ou o deus, os deuses, fique-se democraticamente à vontade - deve ser, enfaticamente, meu amigo. Que me perdoem os fundamentalistas alimentares, abstêmios e castos, sou carnívoro. Luxuriosa e exaustivamente carnívoro. Definitivamente carnívoro... (img: paola en el sofá - fabián perez )
El momento de tu agonía tiene de ser vivido como el último aliento de un condenado a muerte.
Rueda en tu voz en las cuerdas de tu guitarra el peso violento de nuestra suerte.
Cantá, nomás, loco, alucinado como los locos los músicos, las putas los poetas, los perros callejeros los gorriones y los niños...
Cantás, seguí nomás que todas las soledades amargadas se te van aderir, apegar, chuparte la sangre y después, felices, bailar una salsa sobre tu cuerpo agotado...
Cantá, cantor que el poeta, cual un brujo las putas, como madres los perros callejeros de guardianes los niños de angeles te resucitarán para que cantes, cantes y cantes hasta explotar y alumbrar el cielo con las estrellas de tu voz...