2 de set de 2009

A MOÇA QUE ATOLOU NO BREJO


Caio Martins

Ao Paulino Venâncio Martins, meu avô.

Diz que micuim de amor não tem juízo. Daí, que o fazendeiro de infinitas léguas, coroné de baraço e cutelo, pegou umas rosquinhas, uma garrafa de licor de jenipapo, a filha dum compadre de coronelice e farreio, moçoila alemoa solteira e fogosa, ponhou tudo no carrão recém chegado das Oropa e disparou pr'os lajedos do Rio Pardo, perto d'onde hoje ainda é a Fazenda Amália, só pr'a vadiá. Casado e renomado, quando passava com a máquina preta roncando, até galinha ficava uma semana sem botá.

Mas, perto do Águas Claras, a moça grudou ele, o fazendeiro perdeu o bridão do bicho e os dois meteram os quarenta cavalos no afamado Brejão do Sapo, do lado da estrada. E veio gente, tentaram com cavalo e burro de tropa, e puxa e repuxa, o trem parecia era cada vez mais grudado, nada de despená.

Aí, num carro de boi cantador de gaita, veio chegando o Paulino Venâncio, pai do contador que então inda era menino, devagar como se tivesse a vida inteira pr'a chegar em nenhum canto. Tinha oito boi na junta, desses de encher os zóio, cada beleza de animal que Deus fez só para se gabar.

Chegou, parou, assuntou e riu dum jeito matreiro, lá com seus bigodão. Não gostava muito do fulano, e aquela história ia correr o mundo. Ademais a moça era filha de terratenente jagunceiro arrespeitado. Diz-que acoitava o Dioguinho, é, mas ele, sim. E a mulher do atolado era uma jaguatirica de braba, dessas de capá marrote só de zoiá.

- Ô Paulino! Desatrela os bois, puxa e despena meu carro desse atoleiro desgraçado!
- Ô, Coroné!...Uai, sô! 'cê num disse que esse trem tem mais de quarenta cavalo? E tá pedindo ajuda de uns boizim?

E o outro implorou que desatrelasse os oito bois, a moça atolada dentro do carro chorando, aquele povo de capiau na flirtiva se rindo.

- Tá bão, cumpadre! Vou arresorvê! Vou tirá essa porquera pr'ocê!

Gritou para o Aquiles Grande, disfarçado de carreiro, que desatrelasse só a junta de guia, pois para tirar uma tranqueira daquelas, dois boizinhos bastavam. O Sacamoto e o Graúna, no aboio e som do ferrão e atolados até na barbela, foram puxando, estirando e, dai a pouco máquina, moça rindo, licor de jenipapo e rosquinhas estavam na estrada, tudo despenado.

Porque boi, contrário de cavalo, mula e burro, não dá tranco, arrancada, solavanco. Puxa estirado, vai aumentando a força devagar, na sabedoria. Aí, pr'a encurtar essa prosa que já foi longe demais, o fazendeiro disse que o Venâncio podia pedir o que quisesse, já que viu que ele não desgrudava o olho da alemoa, moça ancuda e volteada, parecendo 'té canga ajeitada nas curva das beleza lá dela, agarrada c'o a garrafa de licor e a lata de rosquinha.

Venâncio coçou a barba, ajeitou o bigodão, assuntando a moça, olho no chão, no fulano, foi e voltou, rezoiou, parecendo boi ruminando lá as maracutáia dele.

- Êh, trem bão... 'tá bão! Só que num sei se 'ocê vai dá concordânça! O que eu vô querê, acho que ocê num vai podê me dá!

O fazendeiro, que não queria ser o único a responder por descaminho de moça solteira, crime naquela época, filha de acoitador de jagunço - coisa pior ainda - já basofiou, montando empinado nas botas de canela alta embolostradas de barro:

- Pois, Seu Venâncio: é só pedir e pode levar!

A moça abriu o berreiro, soluçando fundo e magoado.

- Pois, Seu Fabrício: pode me passá o licor de jenipapo e os biscoito, aí, que inté 'tá bem pagado, pela tunda que meus dois boi deu nos seus quarenta cavalo...

*(“Causo” estoriado, de Jayme Venâncio Martins, e publicado no livro “Carro de Boi”, compilação do autor com base na tese de mesmo nome de Horácio Ramalho e apresentação de Luiz Tortorello, para a 8ª Festa do Peão de Boiadeiro de São Caetano do Sul, 1997. O vocabulário manteve-se fiel à gravação. Gráfica Romus. Img: carro de boi de quatro juntas, 1916 - arquivos)


5 comentários:

  1. Sempre inovando, vejo que Caio tem o domínio da prosa poética. A história é de lascar!
    Abraço, mano.

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  2. Guilherme JR3/9/09 16:25

    Na mesma linha que "Coisa Feita", só que retratando a malícia cabocla e não considerando as regras eruditas da escrita: usa a cultura da fala caipira sem retoques ou lapidações, de onde o apelo da história.

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  3. MILTON MARTINS5/9/09 17:42

    Que coisa linda, sô, que surpresa. As rosquinha e o jenipapo é mai seguro, sô. Milton Martins - Piracicaba

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  4. Jayme de Lima5/9/09 21:25

    Tá aí que o mano-véio vai de oito a oitenta.... tem um causo lá atrás numa gíria pesada pra qualquer mano babá na saia - Fuzuê - (dei uma mãozinha) e esse aí tá em caipireis lascado..... Pega no Vote Brasil e é estiloso, não deixa nada pro Rui, o mano respeita o idioma e conhece e sabe!!

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  5. ta bão por demais a tar história do vô Paulino.eta cabra valente, hein? É muito legal poder transitar por várias formas da linguagem. Gostei.

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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