21 de mar. de 2013

Não chora

Caio Martins

Para Jeanne




 












(img.art:cvm - elizabeth 3/2013/contraluz/aquarela)

Não chora, minha menina, o frio espelho
não vai te delatar nem por um triz
ao revelar teus olhos, teu nariz
constritos e culpados, já vermelhos.

Se te faço rir, se triste, perdoa!
As palavras nada dizem, teu riso
(enquanto em meio delas se revoa)
espalha borboletas sem juízo...

Diz que aceitas o aconchego do abraço
que leve, mais sutil do que safado
te faz rir das ciladas que te faço.

E se, farta de riso, eu já calado,
quiseres surpreender o teu palhaço
bastará que me tenhas sem cuidado.


16 de mar. de 2013

Musas

Caio Martins














(img. arte: cvm - elizabeth-2013)


Ah, poeta...
que cenáculo arbitrário escolhem
as Musas
para servir-te ao jantar.
Tens, cibernético e alhures
de escrevinhar a sangue
o mundo que te engole,
expele e reclama e recolhe
até que o tritures,
telúrico moinho inexistencial...

Ah, Musas!
De seus dias em frangalhos, ao poeta
perdoai-lhe
o azedume, a palavra amarga,
o verso troncho e ranzinza
o sentir de impertinência...
Bailareis, eu sei, no templo
espalhando suas cinzas...

Mas tu, Musa tardia, vestal 
irresponsável, fugidia
de meus amores vadios:
me salvas lépida dos festins
de tuas irmãs, eterno cio...

- Que coragem louca e vã...

Divagais, todas, docemente
selvagens, dentre os dentes
de minhas engrenagens...

5 de mar. de 2013

Cortesãs

Caio Martins















(imgart: cvm - kunstlerintv)   


Quando eu não quis morrer, Ela
chegou-se mansa e doce e bela
a perguntar “... e, se se despisse?”...

Arcano das lides e tolices
das (e)ternas prostitutas das ruas
desfrutei-a plena e louca e nua.

Tanto brincamos, vezes tantas
a violar lugares (con)sagrados
bares, templos, gramas, cantos
até partir, tonta de pecados.

Paguei seu preço não pelos ardores,
mas, para que se fora. A Morte
cedeu ao me eximir de seus  favores
emprestando-me à Vida e sua corte.

1 de mar. de 2013

Vinte dias...


Caio Martins

O bar era mais uma das infinitas arapucas da moda, barulho exasperante de roqueiros alucinados e todo mundo gritando sem se ouvir, menos ainda, entender. Comida aceitável, a menos que se quisesse, por impertinência, um vinho especialmente honesto. Não era mais menina, menos ainda criança, como as amigas também não. Porém, ao contrário delas, não estava à caça, queria só rir e dançar, extravasar o cansaço e o tédio de uma semana endemoniada, evitar a tristeza pungente dos fins de semana solitários a que o divórcio e o trabalho a reduziam.

Foi quando o viu. Belo homem, o dono do local e alfa da alcateia. Ali, por trás de tantos sorrisos concupiscentes, uivava-se como lobos no cio.

 Irritou-se. Conhecia suas fraquezas e, ao não atender os alertas de perigo, ilusões e sonhos irracionais e hormônios agitados levaram-na ao sujeito errado, algumas vezes. A estupidez da situação é que não sabia qual seria o certo. Bela, que fora e era, fixava-se na estampa, nas exteriorizações testosterônicas e maneios, mesmo os triviais, naturalmente utilizados para comer moça tonta de graça. Encolhera-se, no dia, desapercebendo-se.

Contudo, fim de semana seguinte, viera armada à guerra. Do último fio de cabelo às unhas dos pés, do traje vermelho decotado - e sabia ter lindos seios - à gargantilha negra, do batom combinando com os sapatos ao minúsculo relógio mecânico, enfim, em todos os detalhes, produzira-se para a batalha. E, o sujeito veio. Tratou-o bem, mas distante. A arte da sedução, supunha, era fazer-se desinteressada, de difícil, flertar (meu Deus, que palavra vetusta!) dissimulada e saber, no momento certo e com a magia certa, entremostrar-se sutilmente. Ah, benditos decotes, saias generosas, olhares e sorrisos dúbios sob um ar blasé, displicente...

Negara-lhe seguidamente, veemente mas num tácito talvez, telefone e endereço, falara de banalidades e generalidades por algum tempo... com as amigas, comentava os fatos como reles adolescente apaixonada, sem esquecer os irritantes gritinhos e risinhos nervosos. Outras vezes tantas, negara-se a sair com o pavão... Até que, após um fim de semana quase perfeito, feito de promessas, juras, enfim, o besteirol todo do cardápio de cantadas ao pé do ouvido, cedera. Daria para o alfa. Comemorara com as amigas excitadas e a palavra mais ouvida foi “casamento", mantra mágico no universo feminino.  

Não deu. Vinte dias após verifica que o sujeito é, novamente, o errado, ao ser dispensada até com certa dureza (outro rabo de saia, por certo) e não querendo, o energúmeno, sequer ser seu amigo - súplica final das rejeitadas. Roda a baiana, da classe sempre presente e sua característica principal, sai-se com um barraqueiro “ - Vai te catar, mané! Filho da puta bundão!” - para salvar, perdidas as aparências, ao menos a dignidade e o amor próprio feito trapos.  

E os salva. Em que pese o pranto, a raiva da estupidez hormonal, a sensação amarga de usada (mesmo que por culpa própria), do peso dramático de solidão, levanta-se no dia seguinte com uma leve sensação de liberdade. Vê-se ao espelho: está horrorosa, olhos inchados, desgrenhada e tendo ainda, a escarnecer de sua auto-estima, baita marca de chupada no pescoço, ainda da outra semana. Após demorado banho (para exorcizar as energias negativas) liga a um amigo dos tempos de infância, companheiro intimorato de andanças por bares, cantorias, danças, risos, despreocupações. Nunca lhe caíra dentro do decote, jamais o pegara olhando-lhe gulosamente a bunda.  

Papo de aranha vai, papo de aranha vem, confessa-lhe o romance... bem... o mal parido caso dos vinte dias. Ele - território conhecido - diz-lhe que tudo que não presta vem de graça, e o que é bom dá trabalho, às vezes de uma vida inteira. Manda-a olhar-se no espelho, dizer o que vê. Ela olha.
- Um farrapo... uma bruxa feia e velha, meu amigo...   
- Eu veria uma linda mulher! Triste e burra, mas, linda! ... Bom, você sabe que amigo de mulher bonita não é irmãozinho, n’é? Quer um colinho, um cafuné?... Quer?  

Ri por fim, condescendente... quer!    

(img: n.kidman - molin rouge - foto cvm/tv - 27/02/2013)

22 de fev. de 2013

Flor precária

Caio Martins
Para Márcia Sanchez e Luiz de Miranda.
 















(Valkyrie's Vigil by Edward Robert Hughes) 


Quando, feroz e imortal, rugia
aços massacrados em fúria
de combates porventura confessáveis
amores me foram prêmio fugidio.

E  se aqui, a amar insisto e persevero
às valquírias - caprichosas no refrange
dos que vão morrer em batalha -
é que sei do gosto de meu sangue...

De solertes inimigos depredados
o tive farto, nas lanças mercenárias  
e renuir a batalhas de salvar o gado

leva a verve a sendeiros protelados...
Por um só amor cala-se a espada
à Poesia, flor inatingível por precária.


19 de dez. de 2012

Benvindo, 2013

Até março, meus amigos! Grato por suas presenças neste ano que finda; que "os laços não sejam lassos" e, "o amor, sempre festeiro"...
A todos desejo paz, saúde, harmonia e caminhos abertos.
Abração!

18 de dez. de 2012

Avatares

Caio Martins



















(img.: cvm-lucienne2001)


Ter-te transcorrido
como se fora um mago
devastando limites
de teus segredos
medos
universos
até gritares de impúdícia
os olhos feito lagos...

Só para, depois
- nos bares -
ver-te
de alto a baixo me olhares
desde convulsas galáxias,
chamares audaz
meu nome
como se foras dona
destas esquinas...

Avatares...
Loucas fantasias
de menina...

12 de dez. de 2012

Relíquia de guerra

 Caio Martins

Pegou a arma, relíquia de guerra,  e botou em cima da mesa. Reiúna, como diria seu já falecido e estimado compadre Trindade, que lhe dera couto e abrigo no passado, pondo a enorme estatura épica de ébano e parca artilharia contra as patrulhas do governo. Pois, fora um insurreto, um insurgente, um rebelado...  Dizia-se, a sorrir, velho, muito velho...

A moçoila, monitor à frente, ouvia e gravava - quase catatônica - as histórias de embates, combates, guerras, num rol de violência nos quais astúcias e manhas traçavam, em segundos, táticas e estratégias mais que exemplares: deslumbrantes! Afinal, sempre sobrevivera. Salvara-se de homéricas pancadarias, tiroteios, prisões, cercos, enfim... era um guerreiro. Não se salvara, incidentalmente, das mulheres de sua vida. Sempre estavam presentes, às vezes com muito espalhafato. Que paixões avassaladoras... que freges de tremendo sacana...
   
Dissera ser, ela, a primeira e única a ouvir seus causos, nos quais afirmava a fidelidade  a si mesmo e seus códigos de honra. A cara, um labirinto de rugas. Os olhos baços, com aquele cansaço antigo de quem já percorreu e viveu - ida e volta - a história do mundo. As mãos nem tão firmes, mas ainda capazes de carinhos e desatinos inimagináveis. Elegante. Era, para uma jovem fêmea ativa da espécie, um interessante macho solitário, renuente ao rebanho.

Fumava, o desgraçado... um após o outro. Tomava cachaça braba e, no arrepio das modas circundantes de amplas e abundantes ofertas gratuitas, pagava putas. Dizia, cínico, que não pelo serviço, mas, para que se fossem. Politicamente incorreto; porém, algum sentido oculto e definitivo, premente e sub-reptício, a atraía poderosamente. Mais que o necessário.

Pergunta-lhe, então, de mulher em sua vida. Remontando a placa lateral do revólver, ele pára e sorri, fixando mirada astuta  na câmera do notebook. E após compungido silêncio, barulhento como briga de facas, lhe devolve a pergunta: "- Por que?" Mais que em linha virtual sente-se em campo físico, material. Fora pega... Não por um moleque, descartável com simples e sonoro “- Vaza, mané!”. Mas, por um predador oportunista e experimentado, conhecedor de jogos que não mais são jogados pelas manhas, sensibilidade e inteligência exigidas. Ah! - saberia das coisas.

Prudente seria apertar o botão “off” e sair da entrevista, mas o sentido clandestino não permite. O temor? Por que, aceita a pauta, pusera-se a cuidar de arma enquanto não respondia, mas, virando suas perguntas pelo avesso, dizia somente o que queria? Seria um fato extraordinário - embora pavoroso - se o sujeito se suicidasse ante a câmera. Indícios. Não vacila: suplica-lhe o endereço, veemente, a voz uma oitava acima, já vestindo caríssima blusa de fio de garrafas “pet” recicladas, subindo acrobática nos saltos de policarbonato e exigindo-lhe, com autoridade que jamais pensara ter, que a esperasse. Não descarta o imperioso batom vermelho.

Encontra a porta aberta. No meio da sala de ares solenes de antiquário, a mesa posta à luz de velas, com rosas vermelhas gloriosas exibindo-se impudicas, sombreando um "cabernet" raríssimo à espera e, da cozinha, um cheiro irresistível de delícias inimagináveis vindas da "rotisserie" da esquina... fora, mais que traída, atraída. Mas, afinal, dava-lhe introito de Musa, tratando-a como se à última esperança de Balzac, em harmonia com a ascensão emblemática de Beatriz ao paraíso de Dante. E afinal, ao receber galante beijo na mão, vê ter porte altivo e superior, de quem se basta e providencia, de um cavalheiro intemporal. De quem realmente sabe das coisas... Rituais.

Diria, tempos depois e famosa, que um dia e por acaso, vésperas de Ano Novo, conhecera um homem que a levara a ser muito mais que prosaica mulher. Guardaria a relíquia de guerra como troféu da paixão feérica e deixar-lhe-ía  parcas  lágrimas e rosa vermelha única, no último ritual.

(scs - 12/12/12 - img: sean connery-highlander)


4 de dez. de 2012

A mulher dos homens

Caio Martins

Ao Luiz Zampronha.

Chegou como se fora: quieta, calada e hirta. Ao abrir-lhe a porta do tugúrio num décimo andar perdido no alfineteiro de prédios, somente ouvira: “- Posso?” - e lhe abrira a porta sem perguntas. Nem amigos, nem parceiros, nem amantes. Agora entrava - passado quase um ano - como houvesse sido ontem e o tempo não houvesse transcorrido.

Esparramado na judiada poltrona de couro vinda de brechó, a vê entrar no quarto, deixar a mochila num canto, despir-se e enfiar-se na ducha. Na pia da cozinha, metade de pizza já fria e uma lata de cerveja barata vazia, a térmica com café e um bule esmaltado, de antiquário.
 
Observa-a lavar-se prolixamente, feito gata. Prevê o resto: sairia do chuveiro e após secar-se viria à outra poltrona modernosa, restos de um casamento desfeito, de amigos. Viria enrolada numa toalha, outra enrodilhada na cabeça. Sentaria e esperaria perguntas que jamais seriam feitas. Depois, nada encontrando na geladeira, comeria a pizza e beberia o café devagarinho, olhos fixos no vetusto tapete esfiapado. Assim foi.
 
Mudos, não se olham, como estivessem ali desde sempre. Era da noite, das madrugas, dos palcos e arsenais eletrônicos, do assédio de ansiosas “princesas” solitárias e gratuitas ao som ríspido e frenético e áspero de tendências pesadas estrangeiras, imitador de imitadores talvez, mas, tinha seu brilho. No apartamento fora de moda não havia mais drogas há tempos. As conhecia a todas, correra infindos riscos e delas se livrara. Não, quanto à mulher.

Promíscua, vivia unicamente na busca do sexo por dinheiro, não mais sabia com quem ou quantos estivera, sem referências ou memórias. Outras eram suas noites e madrugadas, em serventias transformadas em lenda. Sempre voltava, indiferente e alheia se encontraria outra em seu lugar. Nisso, viraria “prima em viagem” no início, depois expulsaria a bola da vez e, por curto tempo, se apossaria do pedaço. Essa, a questão: sempre voltava...
 
Finalmente se encaram. Não mostram alegria ou tristeza, rancor ou amor, afeto ou ternura. Talvez, uma réstia de solidariedade pelo sentimento de, não se pertencendo, serem tão iguais. Nada com ela aprendera, nada lhe ensinara. Nada pedira, nada dera.   
- Estou cansada... posso ficar uns dias?
- Sabe que pode... algum problema?
- Não... só preciso um pouco de paz. Um abraço... às vezes estar só assusta...
Liga para um amigo e pede que o substitua uns dias numa banda qualquer, diz-lhe que fique com o cachê, que está com tendinite e os ouvidos zunindo demais, precisa... de um pouco de paz. Agradece e desliga.
- Vem cá!

Ela vem, se lhe aninha no colo, miúda e quietinha. Ajeita-se, familiar, suspira profundamente e logo adormece. Tira-lhe cuidadosamente a toalha dos cabelos e aciona o DVD, vasculha e vê-se improvisando um blues ao qual nenhum B.B. King poria defeito. O intitulara “A mulher dos homens”, o compusera de estalo da última vez que ela se fora. Observa-se “quebrando tudo” na “Fender Stratocaster 62” com prazer, esquecido e aquecido pela prostituta em seus braços. Beija-a suavemente na testa, percebe que sorri. Na sequência cai num sono leve, dele saindo por um carinho na face. Olham-se sem intensidade, talvez curiosos. Ela inverte a posição, acalenta-lhe o rosto ao peito, solene e séria:
- Eu te amo!
- Eu sei...

(img: viejo autorretrado con monica - fabian pérez - scs/12/12) 


Luiz Zampronha: Improviso




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