7 de mai de 2009

ZERO HORA


Caio Martins


O quarto em desordem, a cama desarrumada, compondo-se com um Daniel descomposto na barba por fazer, roupas sujas espalhadas, no embotamento, no suor amargo, cheiro de urina vindo do banheiro, astenia, papéis esparramados, ardor nos olhos injetados, o revólver velho e manchado de ferrugem sobre a mesa há dias. Aos pedaços, fotos de Letícia pelo chão. O ímpeto descarrega-se numa cadeira chutada, no grito de dentes cerrados, o golpe na parede arranca-lhe a pele do nó dos dedos, o sangue mancha-lhe a camisa enodoada.

Daniel deixa o apartamento destrancado, a arma no bolso do blusão e as chaves do carro como partes de si mesmo. Quase dez da noite, recupera certo domínio e faz o percurso bem conhecido pela enésima vez, estaciona no alto da rua, fixa-se na janela do terceiro andar do prédio antigo. Luzes acesas, as cortinas não deixam ver o interior. Há intenso incômodo pela pressão na cabeça, vez por outra a fisgada fina no peito quase o obriga a desistir. Não pode.

Sabe que nas sextas irão jantar e depois para algum motel. Vê a luz apagar-se, logo após saem. Segue-os como fizera tantas vezes. Espera duas horas até saírem do restaurante simpático onde já estivera com essa mulher. Letícia provará o vinho, escolherá o cardápio, dirigirá toda a cena num clima de sedução perfeito. Comerá modestamente. Depois, no motel, quando o outro estiver satisfeito e derrubado, pedirá o que de melhor houver no menu. Comerá com gula, concentração e intenso prazer, então dormirá enrodilhada feito um bicho.

Quando saem, onze e meia, vai atrás pela rodovia, próximo ao motel tenta acelerar para interceptá-los, o carro falha, morre, fica no acostamento. Grita de raiva, corre, mão armada. Ao longe, já foram engolidos pelos jardins da entrada. Soluça, não há mais lágrimas. Volta, dá a partida algumas vezes, o motor pega. Sorri desalentado ante o prosaico da situação. Retorna à pista de mão dupla rumo ao interior, joga a arma fora. Acelera sem urgência, passa os cem, cento e trinta, quarenta e subindo. Há sensação de alívio, na vertigem da velocidade.

No oposto, vem pesada carreta de autopeças. O motorista não força na longa subida, a prostituta ao lado rindo sem parar. Do topo da descida solta as quarenta toneladas no declive desfrutando do poder da máquina e da suavidade das coxas da marafona, entre as quais desliza a mão sem receios.

Baixa os faróis para avisar ao veículo em sentido inverso que os dele estão altos, repete algumas vezes, solta uma enfiada de palavrões quando o outro atinge o ápice do morro varrendo a pista com potente luz alógena. O caminhoneiro diz à mulher que um profissional baixa as luzes bem antes de cruzar para não ofuscar os contrários, evitando acidentes, mas que os filhos da puta dos malditos domingueiros não respeitam nada. O clarão aproxima-se veloz, o motorista tira a mão das coxas da prostituta que se agarra no banco, assustada.

Os faróis chegam esplendorosos, por reflexos reduz marchas, toca cuidadosamente os freios, leva a carreta para a borda do asfalto para evitar o choque. A prostituta grita, ele trata de neutralizar o temível "L" do cavalo e a passagem da carga sobre a cabina. Há um tranco, salto curto e poderoso, a mulher escorrega para baixo do painel, apagam-se as luzes, para trás ficam explosão surda, violentos sons metálicos, o incêndio a esparramar-se pela pista. Seguro, pressiona freios com firmeza, reduz, músculos tensos quase na ruptura, mantendo o monstro alinhado com a pista, na trajetória, e não tomba.

Pára no acostamento de terra. Já desce com o extintor sem o pino, mandando a espuma para as partes em chamas; uma carreta estaciona perto iluminando o cenário irreal de fogo, fumaça e poeira vermelha. Outros viajantes somam-se ao auxílio com vários extintores. A carreta e a carga salvam-se, o combustível vazado queima declinante nos restos do que fora um carro e seus cacos pelo asfalto.

O homem ajuda a rameira histérica a descer tentando acalmá-la. Por fim, grita-lhe que pare de berrar, dá-lhe sonora bolacha e volta a abraçá-la. A deixa choramingando sentadinha no estribo, indo ver o que sobrou do outro. Nada, destroços. No motel Letícia se agita, arrebatada, gritando livremente, como um anjo perdido.

(img: cvm - trecho inicial de “zero-hora: um anjo perdido”).

2 comentários:

  1. Duro. Mas real e muito bem descrito. Esta é uma realidade da vida. Parabéns, Caio.

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  2. Tarcísio & galera8/5/09 13:26

    TEM que publicar isso. A outra crônica que publicou no Prosa e Verso parece vir antes dessa como se fosse uma sequência. O nome é bom e se tudo vem nessa linguagem deve ser um romance forte e intenso. Dá curiosidade de saber o resto.

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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