19 de mai de 2009

O BAIRRO E A BRUXA


Caio Martins

Há bairros que ainda são bairros, as pessoas ainda se saúdam, amiúde trocam comidinhas, cebolas, açúcar e muito mexerico. Ainda se casam entre si e são ligeiramente agressivos com estrangeiros. De certa maneira, tratam de proteger suas fêmeas, machos e crias, ante a imponderável ameaça que oscila nas fronteiras desde as ruas tal e tal. Lauma ama o bairro. Nascera dali. Manhã cedinho dessa sexta-feira, na porta da padaria, um alienígena sorve lentamente o seu café e dirige olhares pecaminosos para as mulheres que passam. Cada uma é devidamente desvestida, exposta pelo olhar morno e concupiscente ganhando, queira ou não, uma gracinha para estragar-lhe a manhã.

É nessa hora que estão presentes os comerciantes do lugar, seus funcionários, eventuais bêbados matutinos e a macharia local em peso. O alienígena não percebe os brilhos de pontas de faca nas miradas e, ousado, impecável no terno cor de vinho, a camisa creme pespontada suportando inacreditável gravata vermelho-sangue matizada de azuis, sapatos brevemente índicos ostentando insuportáveis fivelas douradas, a pasta imitação de jacaré, a xícara segurada no melindre das pontas dos dedos com o mindinho apontando o infinito, os óculos escuros estilo Matrix reforçando os cabelos estilo idem, enfim, tudo isso de otário e mais algumas coisas não perdoa representante do sexo feminino de menos de vinte anos que por ali passe. O concentrado de cafajeste gosta de piteuzinhos... Nem vê que o perigo ronda.

Nisso, devagar, vem Lauma pela ladeirinha, mansa-mansa, subindo com o sol da manhã que lhe põe brilhos nos olhos e acaricia. Sabe que ao passar pela padaria ouvirá coro de bons-dias, um que outro fiu-fiu e o Portuga a pedirá em casamento de alguma forma criativa e original. O camoniano ensaia sempre uma forma diferente na expectativa, talvez, de pegá-la desprevenida. Vem, e é bela nessa luz, atrás deixa perfume exótico muito sutil, entre capim molhado, manacá-da-serra e maciez de sexo. O alienígena vê a mulher, sorve golico de café, raspa a garganta. Tem bela voz, modulada, como convém a um vendedor. No instante em que ela cruza a escuridão dos óculos matrixianos, a gravata ridícula e pênis ligeiramente pulsante, escapa-lhe a temeridade:

- Tesão!... – e Lauma dá mais um passo, vira-se inteira olhando-o divertida, mas dura, nos olhos ocultos espantantes, o balaio de machos agitando-se-lhe pelas costas e, com voz clara, de meso-soprano, estampa-lhe a resposta contundente, vibrante clarinada a sacudir a manhã:

- Dá o cu que passa!

O pedaço de otário engasga-se, o último gole é da camisa, a galera explode em gargalhadas e aplausos, guardam-se facas e porretes. Deposita a xícara no balcão, paga rapidamente, retira-se com os risos e vaias mordendo-lhe o rabo, apoiados por agudos assobios e muito palavrão. Lauma curva-se à platéia e segue seu caminho, medindo passos miúdos nos saltos altos, belas pernas e redondezas, reentrâncias et cetera dançando suavemente em harmonia com o vento, o barulho do trânsito, a energia cósmica universal. Não ousasse, alguém, estragar aquele espetáculo de todas as manhãs...

Protejam festa para a noite, a frase “sabem o que a Lauma fez?” percorre o bairro. Quando volta, findo o dia, é cercada, pique-piques, aplausos, metem-lhe na mão um caneco de cerveja. O Portuga Manuel, de quase oito lustros, pespega-lhe sonoro beijo nas bochechas, ganha um na boca e quase morre de enfarte. Aparecem instrumentos e pedem- lhe que cante, bêbados e equilibristas sacudindo a vizinhança. Desfilam, horas, o relicário da flor e a nata da MPB.

O pagode só se extingue pelas duas da madrugada, quando um vizinho mal-amado chama a polícia, perdendo-se o mais etéreo da noite pelas amarguras e neuroses de algum desventurado. Mas Lauma explode com Gonzaguinha, cantando a vida e a pureza da resposta das crianças e só então vai para a toca, escoltada por muitos bêbados, os músicos, três soldados da Polícia Militar e uma imensidão de desejos. Não sabem, mas está só, já recolhida na própria intimidade, saboreando ainda o dia, a sensação gostosa de poder, da posição de mulher acima dos meros mortais que sempre, abobados, aplaudem. Pesadelo do mulherio não convidado para quem é, então e para todo o sempre, uma bruxa, uma cadela...

(img: cvm-denise291. trecho de “zero hora: um anjo perdido” 1996)

3 comentários:

  1. Caio, comecei a leitura e acabei direto. Fui obrigado a voltar. Muito bom mesmo!

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  2. Reinaldo e Mirtes21/5/09 16:14

    Zero Hora: um anjo perdido está vindo em conta gotas pelo visto? Do lido dá para perceber muita intensidade e atores sólidos além do clima de conflito. Vai estar na banca logo ou vai ficar no suspense dos aperitivos?

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  3. Wesley Queiroz25/5/09 16:21

    Foi um tempo bom esse dos bairros, a turma que nasce em cupinzeiros não tem a menor idéia do que é isso e o que sobrou está dominado pelo tráfico e a violência no país inteiro. Porisso esse é um belo resgate de um tempo que não volta mais mas deveria.

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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