26 de fev de 2009

ORA, POMBAS...


Caio Martins

Com ele? Justo ele? Não, não poderia ser, era uma afronta e, naquele momento, tocaiando sob a marquise fria e indiferente, revela-se a fera em momento crítico: pupilas e narinas dilatadas, a respiração curta e opressiva, a pele fria, mãos suando, músculos tensos, têmporas latejando, esfíncteres contraídos... Não era fuga, mas, combate. Ou não era o líder, o alfa incontestável, cuja simples presença estremecia os mais sólidos executivos e arrebatava plenários e platéias, no exacerbado cenário perigoso e competitivo das lides empresariais?

No início fora tudo maravilhas, ela apaixonada e rastejante pelo belo homem e sua aura de poder, o porte imponente e a atitude decidida, porém... É! Tem dessas imponderabilidades femininas, passados os momentos da curiosidade e da surpresa, de delírio hormonal da fase de pombinhos e maratonas sexuais desbragadas, daquelas cujos gemidos e arfares intermitentes e intermináveis causavam reações fortes no condomínio inteiro. Raros, recatados, coravam e fingiam nada ouvir. A maioria, lasciva, aguardava ansiosa os reinícios das esbórnias noturnas nos dias úteis e maratônicas aos sábados, domingos e feriados que, no correr dos meses, foram passo a passo se espaçando.

Territorialista e egoísta, possessivo e ciumento, como aceitar que, sem aviso prévio, a moça pedisse um tempo, juntasse vestidos, sapatos e calcinhas (como disse o poeta Luiz de Miranda) e simplesmente vazasse de sua vida, alegando necessidade de espaço e redesenhos holísticos, outros horizontes e universos? Que isso acontecesse exatamente quando expusera aos cupinchas e puxa-sacos habituais, doutoral e vaidoso, sua competência quarentona entre lençóis, no outro corner a femeazinha ávida nem bem saída da adolescência? Impossível! Inacreditável!

Cruzaram-se no dia anterior, afirmara que ela almoçaria com ele e discutiriam a relação. A resposta fora que não por dois motivos: primeiro, porque naquele horário tinha um compromisso com uma pessoa para uma pesquisa na biblioteca local; segundo, porque nada mais tinha a dizer. Fora-se, sem olhar para trás.

Hoje, ei-lo ali sob a marquise fria, impecavelmente vestido como de hábito, o blaizer beje-gelo caríssimo (seiscentos dólares em Nova Iorque) a camisa branca imaculada, de olho no ponto de ônibus vendo-a surgir, inefável e leve, cabelos soltos ao vento, a pasta displicentemente pendurada ao ombro, os seios espetados feito bandeiras em dia da pátria sob a blusinha fina, barriguinha adoravelmente exposta, enfim, todo aquele arsenal e jeito de mulher feliz...

Ah! Iria ouvi-lo! Se marcara com alguém, ferraria o esquema no melhor estilo de melar situações complexas, arduamente adquirido em anos de treinamento. E ela vem, se encontra com um pedaço de salame ainda de espinhas na testa, vermelhão e cara de mula, do tipo que qualquer pai, com filha em cio avançado, fica horrorizado ao conhecer. Não tem tempo de ver o beijo pois, acima, o cruel destino, incerto e implacável, afinara a pontaria: “PLOFF!...”

Fosse “poc!”, sólido e íntegro, bateria no alvo e resvalaria. “Ploff!”, não! No arsenal columbídeo, é aquele projétil estilo napalm frio, geleca de guerra química, que bate, gruda, escorre e, quanto mais se tenta limpar, mais se desparrama. Na reação violenta ao ataque, tira o paletó, o esfrega, à orelha e ao colarinho da camisa, piora a situação e nem os vê, metros de distância, passando abraçadinhos e arrulhantes. Ao tentar localizá-los, já sumiram. Ali fica travado e abestalhado, catatônico e... bem, sejamos educados: definitivamente borrado!

(img: cvm2009)

3 comentários:

  1. Consegui abrir só agora.

    Porra, me pediram senha e login. Daí achei marcação.


    Gostei do estilo livro antigo... Adoro isso. Posso sentir até o cheiro. A tipografia, dependendo do conteúdo, assunto, também é legal em formato imitando itálico para acompanhar a obra. Está lindo, ainda não li com o devido merecimento de seus textos. A pombinha chegando no apolo, "é ele?" reflete o encontro entre o homem endeuzado pela fêmea que se encanta com o poder, não só status e posição social, mas também pelo fogo de uma relação inicial.

    Depois vou concluindo o pensamento.

    Preciso desenferrujar, por enquanto é isso.

    Beijos, atenciosamente no plural.
    Lavínia.

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  2. Acho que a moça não entendeu aí que nem é o tar do Apolo, mas um pedaço da estauta do Lacoonte, feita pelo Michelângelo... E a tar pombinha tá mais é cagando na cabeça dele, pra ilustrar o causo muito bão. Tá certa, que paixão é trem matador, despois o fogo apaga e tem que esquentar o fogão noutras bandas. Mais o contador é moço fino de mais, tinha que dizer cagado: c-a-g-a-d-o com as letra toda. O resto tá certo, tá bonitin. Esses beijo no plural tem dono?

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  3. Gosto muito do q vc escreve, seus poemas são ótimos, às vezes me deixam sem argumentos, mas descobri que suas crônicas me surpreendem ainda mais. Parabéns, primo
    bjs

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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