17 de jan. de 2012

AUSÊNCIAS...

Caio Martins

Para Márcia.















(img: cvm - PB sob foto de msluz - jan/2012)


Rolam, ante meus olhos, transparências
de inigualável nitidez, essências
de meus mortos, de meus amores idos.
Cala-se, a voz, num silêncio contido.

Testei-lhe, Vida, todos os limites:
nuns fui herói, já em outros, fugi!
Dos amores que tive, consegui
cicatrizes tais que densos grafites...

Tantos lugares, meus seres queridos
tatuaram suas marcas no que insiste
em triturar os prazos decorridos...

Preciosa me é, a rara existência
e um só amor etéreo, ao fim, resiste.
Nada sei de saudades... Só de ausências...


13 de jan. de 2012

UM VERSO, UMA ROSA...

Caio Martins

Para Jeanne














(img: cvm - rosaverso - 01/12)


Não tremas, nem temas: dança!

Não terás minha cabeça
numa bandeja de lata:
em vão te procuro
nalgum canto escuro
tuas roupas desata...

E somente dança!

Lança tua sedução e fascínio
enquanto escrutino
nas paisagens nuas
tuas grotas,  tuas luas
fervor desatino...

Dança, dança, dança!

Vem dentre os lençóis
de meus delírios, vassalos
sem eira, corcéis
apocalípticos
em fuga preciosa...

Mas, dança...

Após o armagedon, descansa
farta e frouxa e frágil, preguiçosa...
Não terás minha cabeça, quem sabe
te deixarei uns versos, quem sabe
uma rosa...

2 de jan. de 2012

A ESPERA

Caio Martins

Para Márcia Sanchez Luz e Luiz de Miranda














(img:cmbarba2011vidro)


Te olhas ao espelho,
infinitesimal partícula cósmica:
- Que horror, a consciência do mundo!

Khronos, O Implacável,
comeu tuas façanhas,
as entranhas de teus versos
e não és, Poeta, senão
anti-herói de ti mesmo.

Feneceram-te musas e vestais,
as prostitutas do Templo
envelheceram...
- Que trágico! Que lindas... que loucas eram!

Aminimigos mortos
não tens mais batalhas
as tuas guerras
perderam-se no pó da história
- na morlalha da memória -
a esmo...

Nas tuas retinas estilhaçadas
não mais cabe o mundo;
ao redor ruge o caos
aos cacos.

Estás só!
A solidão, se nem a morte,
atemoriza... (Arre!)medos.

O que corrói
é a espera...


Elis: O Bêbado e a Equilibrista - João Bosco.


20 de dez. de 2011

A FLOR DO NATAL

Caio Martins
Mas, chamava-se Flor? Ninguém mais  se chamava Flor de há muito tempo. Flô... Tão certo quanto existir o Efeito Borboleta... Por que não Efeito Lagartixa? Efeito Plasmático Nanotecnológico Orbital? Flor? Não acreditava... Inda por cima, morena tingida... Pior que uma loira burra, só uma morena tingida... Chapinhas... Saltos assassinos... Microssaia imperdível, blusinha ‘tánamão”, batãozão vermelho combinando com a calcinha, sombras azuis... Falsos ouros nos pulsos, orelhas, pescoço... Aquilo não era uma mulher... era um atentado à segurança pública... Não iria ao encontro mas nem se o Cramunhão o levasse pras profundas...

Assim martirizado e angustiado, sufocado e temeroso, lembrou do ditado do Vô Venâncio, criancinha ainda era: “- Firma a cangaia que a coisa ‘tá feia!”... O Vô... bicho brabo, da roça, sertão, pezão espalhado, olhadela de esgueia... jagunço! Saíra atrás dos primos e tios de carabina quando - ele aos doze anos - foram pescar. E, calorão de espoucar macaúba, tchibum no rio, homaiada pelada... Os parentes descobriram que lhe apareciam os primeiros pelos: já era homem! E lhe deram cigarro de palha, cachaça e o levaram à zona. Fora a parte mais difícil, a mulata era grande, farta, carnuda... Ele? Magricela e um trenzinho miúdo, sumido... Desde aquele entonces, só se dedicara às magrelinhas baixinhas...

O Vô ficara macho... Pegara a carabina e a cambada desandara no mato, uns dias... Depois, tudo voltara ao normal. Ele, agora ali de anelão no dedo, nos trinques, pinta de doutor... não podia negar a raça, afinal ganhara a Flor num jogo de bilhar. Não que a periguete fosse o prêmio: vencera um otário que se dizia campeão, levara a grana e a morena se lhe achegara, sestrosa... Morenaça loira... Uns peitos espetados, olhos negros, de volúpia, boca de tesão... e aquelas pernas, suntuosas colunas de ... de... não lembrou de batepronto o nome do material. Lera algo num autor de mais de século atrás: - Êh! bundão véio sem porteira!... Âmbar, cacete!

Na rede social, papeara muito com a Flor... A moça era ligeira, tascava inglês adoidado, dizia que sim, talvez, que não, quem sabe... Marcara o encontro. Ela afirmara que se apaixonara ao vê-lo jogar e quebrar as pernas do Kelvin (sic!), tido por fodão no bilhar, mas, de fato um zéarruela, malandro agulha  dos que quando sai da linha só leva no rabo... Depenara o otário, pagara bebida pro bar inteiro... Agora, ia para o sacrifício... Aquela imagem da mulatona da primeira vez assombrando, nem armamento tivera para tanta batalha... Trauma! Pior ainda: era véspera de Natal... Ele Natal, viajante, perdido na cidade infernal a centenas de quilômetros de casa... Casa?  

Largou o carro no estacionamento, não sem antes dar recado que se sumisse estepe, ou o próprio pé-de-lata, ia ter “cena de sangue” e viraria, o guardador, notícia ruim nos programas carniceiros da TV... Chegou andando feito sapo na porta da buate, de dentro vinha o som do pancadão dos nóias transtornados. Freguês, chegou ao segurança - armário negão de dois por um e meio - e pediu que chamasse a donzela... Sentiu as mãos frias, vontade desesperada de vazar, pegar estrada, voltar para casa... Casa? Não tinha casa... Daí a moça veio, até que estava bonita mesmo tingida... Bonita? Um arrazo!

Saem de braços, cafonas, ela quase um palmo mais alta, direção ao hotel. Diz-lhe que não está bem, melhor um jantarzinho, depois veriam. Flor o observa, já à mesa, longamente em silêncio... E aí na lata, sem tapumes, lhe diz: -Você tem vergonha de mim? Eu sou o que sou, querido... E não fico de santa, de cocota enrustida! Sou puta... e daí? Congela... olha muito o rosto, procurando e procurando... observa feito coruja o gogó... nada! Então se arma de insuspeita coragem da gota serena e mete a mão dentre as generosas coxas cor de âmbar da Flor... Leva soberana bolacha na orelha, a fera já se levantantando na fúria, já tirando o sapato de salto assassino e com febre ainda mais assassina nos olhos...

- Para-para-para-para... ‘Taquepariu! ... e desanda a gargalhar, até às lágrimas e doer de tripas... O povão? Ah! O povão sempre quer sangue... Flor trava, estupefata, a vela de Natal deita uma tépida lágrima vermelha... Conseguindo respirar, ele toma baita alento, abre os braços e desanda a gritar:
'Táqueriu! Deus é pai, não é carrasco... Bendito seja... Louvado seja... ‘Taquepariu!!! Você é mulher! Você é mulher!!! ... O povão? Ah! O povão, exorcizado, aplaude delirante... Natal... Ficam ali enroscados um tempo, entre lágrimas, beijos desesperados, num abraço torto e doído que finalmente sai, meio que cambaleando como que dançando, para a avenida...

(img: mulata - di cavalcanti)

Urupema, 20/12/11.   

26 de nov. de 2011

SILÊNCIOS

Caio Martins

Para Jeanne.
















(img: cvm.kidman - aquarela 2011)


Te amo...

A memória, faca
laica
- insaciável, transitória -
quebra seus pertences
sem contar com glórias.

Fecha seus claustros

- insondáveis pergaminhos -
e cala
a trajetória tensa do sentir
árdua, impenetrável bala.

Contemplo teu olhar
- inquietante arquitetura -
e me diluo aos segundos
de cada século
em que perduras...

A memória insiste
- indecifrável sintonia -
e cala.
Não há tempo, lugar,
nem sinfonias...

Nas luzes de prenúncios
- inda que desande o caos -
te calas...
Sabes que te amarei
ao som de teus silêncios...


15 de out. de 2011

O Erro...

Caio Martins.

Saiu calmo, como se diz, “na moral”, “na boa”. A mulher o espiava da janela do hotel, deu-lhe festivo adeuzinho. No carro (como sempre imundo por fora, mas máquina ajustada em pleno exercício das funções e veterano de outros adeuses) relaxou tratando de ser ágil naquele já então inferno de amebas histéricas submergidas em gases tóxicos, aço e asfalto. Os hormônios da fêmea ainda agiam em suas veias, glândulas, instintos. Pagara a prostituta não pelo serviço, mas, para poder ir-se deslingado, ou para que ela assim se fora. Na estrada parou num frege-moscas, engoliu um gole de cachaça, um sanduíche qualquer com guaraná, um café fervido, calibrou pneus no posto, encheu o tanque. E acelerou.

Recebera avisos, alarmes, insinuações e conselhos. Desnecessários... Sabia que não haveria retorno - a menos que se tornasse um traidor - e que o momento era aquele. Horas mais, teria de brincar de herói ou tornar-se mártir. Não fora para o que nascera. Naquele “treze de dezembro de 1968, vinte e quatro membros do alto escalão do governo militar se reuniram e editaram o Ato Institucional 5, o famigerado AI-5, que possibilitara o fechamento do Congresso Nacional e acabara com o direito de habeas corpus dos parlamentares, direito adquirido com a Constituição - já fajuta - de 1967”. Os anos de chumbo tomavam seu perfil mais ensandecido.

O discurso de um senador, Márcio Moreira Alves, clamando pela volta da democracia, fechara as portas à luta legal e aberta. Era o momento da clandestinidade, da ausência absoluta dos entes queridos, amigos, família; tempo das identidades falsas, da solidão por escolha segura, dos segredos e das entrelinhas. Da certeza que era o momento só do bilhete de ida, e da presença ineludível da morte. Quando se elege lutar contra uma tirania - invés de calar-se ou fugir - e levantar-se em armas, os caminhos da vida se estreitam, beira-se precipícios e, não havendo estrutura moral que sustente, raia-se à loucura. Não há lugar para erros.

Não era o caso. Não temia a morte, mas a dor; não temia o combate, mas a tortura. Não seria presa fácil, como tantos que, inermes, se lançaram contra a máquina de moer gente. Dizia que não se importava em partir desde que levasse alguns canalhas consigo. Acelerava... No coldre uma automática, pelos bolsos carregadores e, dominante, uma saudade infeliz e incômoda, angustiante e incisiva da moça de olhos claros, franzina e esbelta, cujo sorriso lhe derretia as couraças e o transformava, de guerreiro, em deslumbrado menino. Meses... meses... Já não doíam mais o tiro na barriga, outro na perna, mais um no braço. O que doía, era a ausência.

Num posto perto do destino, mandou lavar o carro, fez a barba no banheiro. Cabelos curtos, terno impecável, postura alfa, passou barreiras de desajambrados soldadinhos, deixou o carro no cafofo, ao chegar à cidade, e não resistiu. Assumindo cuidados extraordinários, rondando feito lobo, entrou no edifício. Tinha as chaves, conhecia as manhas da velha fechadura. Girou o trinco, entrou e sentiu o cheiro de coisas de mulher. Acendeu a luz, trancou a porta. Ela deveria estar dormindo, seminua naquele calorão de fim de ano. Ouviu inaudível ruído, como um estalo de cama, dirigiu-se ao quarto na ânsia de vê-la.

Nem se deu conta ao levar o tiro na cara.

(img: cvm - tiro - 2011)




29 de set. de 2011

Canção para Jeanne

Caio Martins










Nas tuas frágeis,
longas noites de silêncios
distâncias, instâncias
precariedades
- impenitente -
és cidade que percorro
a passo, gestos parcos
mudas palavras
eloquentes...

Mas se me dás
nalgum instante
esse prazer finito
de comoção cósmica
cômica
das luzes de teu riso
eu não me importo...

Te amo,
nada mais é preciso.


14 de set. de 2011

SEGREDOS

Caio Martins













(img: franz eybl - mädchen)


Tens ar indefeso
nem de mulher, ou de criança
mas guardas impensáveis segredos
que não os entende nem a própria natureza.

E se acaso me lanço em tuas trilhas
- indecifradas trajetórias sem retornos -
a fúria da terra me aterra
mas, por paixão, não retrocedo.

E me tens como se fosses dona
por mais que eu esperneie e bata e grite
por saberes que estarei em teu caminho
entre troncos, frutas e sementes...

Conheço o teu poder, as tuas manhas
e mesmo que me custe o tempo, a vida
tudo que faço é ceder à tua magia
deslumbrado ante tantos brinquedinhos...

(em “mulher - imagens e poemas” - jan/99 - scsul - fundação pró-memória)





3 de ago. de 2011

LUA

Caio Martins















(img: autorittrato damaride marangelli)

Séria surges
quando não mais te esperam
e vens detrás de olhos verdes
rubra boca vestida de festa.

E mentes, inventas
impudica, descarada
oscilando enfáticos seios
cabelos longos, longos
braços e pernas
noturna praia úmida
ávida de despojos...

Que desperdício de cenário!

Pensar que bastaria um só sorriso
(mesmo que não viesses nua)
e não naufragarias nas armadilhas
de meu amar promíscuo
tão frágil
tão precário...

(em "mulher, imagens e poemas" - 1999 - fundação pró-memória s.c. do sul)

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