Ao Mestre Jorge Sader
Quieto no sofá surrado, tenso, ombros travados e doloridos, fixa-se com olhos injetados no alvo à frente. Cada vez que a moça se mexe ou fala, o sismógrafo interno pula ou se arrasta, pára ou desvaira. Não sorri. Nada diz. Na mão esquerda, como dizem ser de boa etiqueta, o copo de uísque alterna-se com os cigarros. Na direita, clandestino 38 niquelado carregado. A moça não vê a arma. Segue maneando-se, divertida, frente a basbaque como infinitos, sem pressa, devagar mostrando cada brinquedinho com zelo e, mesmo, desfaçatez. Diz em inglês que o ama, mas que não se mova, por favor. Requintada, não precisa de legendas; as coxas, bunda, seios, lábios e demais acessórios falam mais que palavras.
Aproxima o rosto, língua entre os dentes, meio sorriso e a mão sorrateira entre as pernas. Geme baixinho. Num arranque, simula lacinante orgasmo e começa tudo de novo. Sempre começa tudo de novo. Não toca na ereção incontrolável, numa mão o copo, noutra a arma. Ela não percebe a tensão dolorosa, concentra-se em ser fêmea no cio, vira, mexe, remexe, escolhe os ângulos mais favoráveis para toda sorte de obscenidades. Já vira esse filme infinitas vezes, obviamente igual, mas sempre diferente.
Aí, numa fração de segundo, tudo se transforma. A mão, pesada, aperta a coronha mas o indicador ainda permanece fora do gatilho. Por instinto a mulher percebe uma ameaça, os olhos molhados se ampliam, cobre-se precipitadamente com um toalhão azul, recua para o canto da cama gritando que não e não... Não é um homem, é um monstro assassino que lhe vem em cima. Polegar armando o cão, aponta com perícia, contém a respiração. Ela grita. Ele espera o momento exato.
O indicador entra no guarda-mato, espreme o gatilho suavemente. As molas, peças, o trinquete, o estalo, a agulha, a espoleta, fogo a quase dois mil graus, a violenta expansão de gases, o projétil cortando o curto espaço a uns trezentos metros por segundo... Direto na cabeça... Silêncio... Cheiro de nitratos no ar superando o dos cigarros. Paralisado, ouve com atenção e espera não ter acordado vizinhos. Respira aliviado, por fim. Não há telefonemas ou sirene de polícia. A cidade dorme, indiferente.
Toma novo e longo gole de uísque, contempla o estrago. A ereção se fora, ri de si mesmo sem lamentar-se, bêbado e relaxado. Abre a janela e aspira o ar já poluído da madrugada. Volta-se ao cenário, joga o 38 no sofá, espreguiça-se lentamente e se diz, solene e admirado:
- 'Táquepariu...! Zerei o maluco de merda!
Horas depois, mal acorda, sai para comprar nova TV.
(imgarte: cvm - wiki - lucienne2009)


Entrara na área de diagramação meio tímida, assustada com aquele primeiro estágio caído do céu. O diretor de publicações a apresentara ao pessoal em bloco, dizendo seu nome e para que vinha. O chefe de edição a olhara de alto a baixo, com jeitão guloso e aprovativo. Na verdade fora assim com todos, única mulher na sala; menos o sujeitinho atrás do Mac com fones no ouvido, esparramado na cadeira e um palito cafajeste na boca. Ao lado, junto à tela, uma estatuinha preta, de santo, vestida de vermelho e branco.




