Caio Martins

- Puta que pariu!... – murmurou baixinho. Como podia não sair da cabeça, aparecer nos momentos menos adequados, estragar a festa na cama feito um Vadinho qualquer assombrando quem não era Dona Flor, nem tinha dois maridos? Entrar-lhe na razão e dar palpites quando lia um livro, via um filme, tomava decisões no trabalho, até quando se comparava às vaidades siliconadas que ameaçavam seus territórios?
Poder, não podia, mas a permanência fazia-se insuportável. Era na hora de trabalhar um tema, de meter-se no trânsito, de vestir-se e, pior, nos momentos íntimos com o fulano da vez. Achava-se tranquila, quanto a sexo. Sem essa de sentir-se invadida, ou usada: gostava, não tentava provar nada, era só uma forma, dentre infinitas, de receber e dar carinho. Achava bom, mesmo que o da vez fosse meio apressadinho.
O de outrora afirmara certa vez, fundamentalista, que o homem sábio não se preocupa com o próprio prazer por saber que, desatado o da mulher, o dele viria normalmente. – Cafajeste...! No mínimo, aprendeu na zona! – pensou. O da vez, até que estava aprendendo com ela, mas queria que fosse para ela (Lá estava o intruso novamente...). E, além de apressado, era metódico demais, suave demais. O outro? - Capeta! Safado! Sem vergonha! ...
Gelada e sentindo crescer a bronca contra o nó cego molhado, deu um safanão no da vez, arrancou o cobertor, enrolou-se e saiu do quarto batendo a porta. Pegou o telefone, digitou no capricho. Dois toques e a voz inconfundível, cheia de rabugice de gênio interrompido em hora imprópria, rosnou “Alô!” do outro lado. Exigira-lhe, há tempos, que não mais o procurasse se nada quisesse com ele, que não lhe alimentasse ilusões... jornalista cretino! Sacudindo os demônios, respirou fundo, o cobertor caindo e a nudez detonando o frio da sala:
- Palhaço! Cafajeste! Safado! Larga do meu pé, seu fiadaputa!
Deixando dois fulanos catatônicos, perplexos e apatetados na madrugada fria, bateu o aparelho, catou a coberta e foi dormir intrépida no sofá, apaziguada e feliz feito gata que comeu todo o creme.
(img: "mulher, imagens e poemas" - perfil&arte .)
(img: "mulher, imagens e poemas" - perfil&arte .)
Gostar de crítica é sinal de vontade de aprender e perfazer-se, e é um ótimo sinal. Mas ia falar da Exorcista, que realmente conseguiu sacudir seus demônios interiores. A narrativa exige excepcional talento se não descrevemos o personagem (é negra, loira, oriental, morena?)e essa é uma característica sua, mostrada em outros textos, nos quais vemos a cena. Mas como não gosta de elogio, é, junto com a "Premeditação" uma das melhores porcarias que li ultimamente...
ResponderExcluirTipicamente feminino tepemêutico... Mas isso não ocorre só com as mulheres, que somos mais sensíveis e, digamos, mais graciosas... Com vocês pode acontecer como o maluco da crônica anterior. Aliás existe alguma ligação muito forte entre elas, uma liga desancando o "intruso" e o outro dispara na televisão. Imagino o barulho que essas personagens devem fazer na sua cabeça. Bjs.
ResponderExcluirA longa experiência de Caio faz com que saiba abordar com segurança assuntos difícéis. Como este, por exemplo. Abraços.
ResponderExcluirÉ jogo duro, quando a gente vive muito tempo com alguém mistura tanto as coisas que depois não tem jeito de limpar os arquivos temporários e desfragmentar o HD... Essa história tem um cheiro de fato real danado mas a mensagem é muito clara sobre o que dá mexer com mulher geniosa e sobre que amor é o que fica. Contaminados para sempre...
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