18/11/09

TIRO NO PEITO


Caio Martins.

(Despedida de São Paulo - 11/07/1987)














(img: estação júlio prestes - scrappercity)


A cada dia
me despeço um pouco de ti,
lento tiro no peito.

O copo até a boca
teme a gota derradeira.
O corpo do poeta
te percorre, lento
a pé. A passo
percorro teu espaço
num carinho direto
e orbital.

A cada sol
a cada rua
madrugadas
o corpo até a boca
teme a gota derradeira.

O copo até a boca
e meto-lhe o dedo adentro.

Despeço-me de São Paulo
aos poucos, lágrima
escorrendo devagar no vinho
espraiando
nos vincos acres
da boca amarga.

Aqui
não vendi meus versos nas esquinas
não os pendurei nas quinas
de prateleiras e vitrais...
Bati-me a bala, pancada, palavras
ideais...

O nó na garganta
a cabeça oca
passo por estas ruas infelizes
desta cidade sortílega
e infernal.

Profissional de despedidas
vou cada dia um pouco
sem rancores ou revoltas.

A cidade entorna o copo, teatral.

Ah! Como te amo, cidade prostituta
ladra, megera dissoluta
meretriz astuta
marafona demencial...

O copo entornado
na camisa branca
é, a cada dia esvaecente
tua carícia indecente
rubra, despudorada, sem jeito.

A cada dia pungente
é mais um tiro no peito...

13/11/09

CAMINHOS


Caio Martins.

Dormia, entregue inerme, empapado de suor. Vinda da ducha, ajoelhou-se ao lado mergulhada no calor intenso do sótão, cama larga e lençóis de algodão cru. Prendeu os cabelos molhados, respirou fundo e observou o homem. Na testa, entrada dos cabelos, larga cicatriz muito antiga se mostrava quase nada, no lusco-fusco, azuis cortinas leves endelicando um meio-de-tarde ardido. Intrigou-se. Outras, supercílio esquerdo, lábio superior, corte no queixo, traço na têmpora, a forma de uma moeda perto da orelha. Intrigou-se ainda mais.

Viu-se, fascinada, seguindo as trilhas: contou mais de cem marcas, pequenas, grandes, lineares, disformes, enfim, até os pés, escrevia-se uma história e estórias que lhe eram desconhecidas. Tanto fez que ele resmungou e virou-se, de bruços. E, nada. Não tinha cicatrizes pelas costas, salvo uma redonda e dura, seguida de um traço fino comprido como seu indicador. Tiro? Saída. Na frente, certamente algumas eram de bala, outras pareciam faca; aquele sobrevivente metera-se, trombando de frente, em violências.

Imaginação solta, se diz que aquele não era homem de fugir. Gostou do corpo, de rosto feio. Talhado a cinzel, traços duros, barba densa e áspera, início de calvície avançando e, riu-se, orelhas de abano. Orelhudo. Sentiu-lhe o cheiro: entre cavalo e mel. Avaliou-lhe os músculos. Poderia, quisesse, submetê-la com uma só mão. Grandes, pesadas, grossas, grandes veias no dorso e subindo pelos braços. Um animal saudável... Porém, a tratara com delicadeza e suavidade, sem pressa e dissolvendo-lhe a ansiedade. Só a conduzira. Dança.

Estirou-se ao lado e, apoiada no cotovelo, seguiu bisbilhotando. Como que se comandado, virou-se de costas, esparramando pernas e braços. Sentiu-se coibida, pouco, riu-se nervosa, culpa boba logo desaparecida, nunca tivera a oportunidade de ver um homem assim à vontade, escancarado. No bar disseram-lhe, apresentando, que era um chato maravilhoso, calado e sóbrio, em fase de recuperação de violenta dor de corno por separação, recente e acidentada, de mulher louca. Ela também, de um cafajeste. Apenas lhe dissera: “-Venha!” - e fora.

Levou susto, dando com olhar intrigado e meio sorriso. Perguntou sobre as cicatrizes. O rosto suado endureceu ligeiramente; depois, vencido e sem saída, disse-lhe que era do ofício de caçar e prender. Noite adentro, depois de um jantarzinho caprichado de peixe, contou-lhe o caso de cada uma. Madrugada, e foram ao mar. Matara, quase morrera, vezes. Disse-lhe que não tinha marcas nas costas. Respondeu que entre morrer fugindo ou lutando, preferia a segunda. Perguntou se as cicatrizes, marcas do caminho da vida, doíam.

- Não! Só as de dentro... às vezes muito forte...
- Comigo também... Você é um homem triste.
- Não! Só não temos razão de rir. Acho que andamos bem machucados...
- Acha que poderia me amar?
- Acha que poderia ser minha amiga?

No silêncio de cortar com serra da volta, a mulher ensandecida surgiu-lhes, assombrando, na frente. Na mão a arma; girou-a no ar como se nada, pela primeira vez na vida deu as costas, protegendo, recebeu a carga de tiros. Fugiu, a louca. Ficou em estado de choque. Não se deu conta das pessoas, viatura, ambulância, confusão. Só foi. Nada soube explicar. Tempos depois, caminhos da mesma praia, quebrada por dentro, murmurou vezes, sem lágrimas:

“- Meu amigo!”.


03/11/09

O DIA


Caio Martins













(img: cvm-mesa de bar - laura123)

Como se hoje não fosse
um dia qualquer
o dia roeu suas engrenagens;
a Moça, com seu melhor sorriso,
mastigou as reticências
e não saí inteiro do outro lado.

Não fosse um dia qualquer
mas, O DIA...
repetição do mesmo pânico,
a mesma angústia, síndrome
de um massacre.

Nada valeu:
preces, cânticos
patuá, guia, orixá...

No consolo de uma refeição dura
na ridícula mesa impura
dum restaurante no fim do mundo
o coração rateou, dolorido.

(Hemorróidas nas coronárias?)

Após o susto, o estupor
o sufoco, grapa añeja
um copo de chope e a comida insossa
restou-me a certeza de que O Dia
não seria hoje,
como será algures, todavia...

Desta vez, Moça,
por mais bela e irresistível
consegui enganar-te! Deixei-te
(Que cafajeste!)
de mãos vazias...

- Até um dia!

Resistencia, 11/12/1987
Chaco Argentino.
Bar “La Vieja Esquina”.

27/10/09

SEGREDOS


Caio Martins












(img: cvm - leca-tela13- em "mulheres, imagens e poemas"/98)


Tens ar indefeso, indefinível
nem de mulher, nem de criança
e guardas segredos impossíveis
que os não entende a própria natureza.

E se, incauto, me lanço em tuas trilhas
- indecifradas trajetórias sem retorno -
telúrica força me aterra
porém, por paixão, não retrocedo...

E me retens como se fosses dona
- por mais que eu esperneie, e bata, e grite -
entre troncos, frutas e sementes
por saberes que sou teus descaminhos.

Conheço teu poder e tuas manhas
e mesmo se custando uma existência
só faço ceder à tua magia
deslumbrado ante tantos brinquedinhos...

12/10/09

EXÍLIOS


Caio Martins

Para Maria Augusta - (Buenos Aires/1974)

Atrás, um exército, e dos lados, mata por cima. Aquela serra era, todavia ruim e trancada, léguas de mato menos inimigo que tantos tais que vira. Do grupo de besta de cidade metido em coisa de armas, salvava ninguém. Gabirus. Um me desafiava, passou bala perto da orelha, cismei. Vi que, mais uma, aquele estava morto. Ajeitei defesas, mamente, eu. A moça me tinha dito, séria, as tramas de levar-me para o bando deles, na sombra.


Nem sabia, desgostei profundo. Asco. Não cheiravam nem fediam.
Daí agradeci, ela estava com uma blusa aberta, mostrando um seio pequeno, gostoso de se brincar com ele; levei a mão, veio, arisco, tapa na cara, jaguatirica. Seguiu falando como se nada, a cara ardia - eitcha! - deslumbre que tinha pela moça; inteira. Nesse dia, já no terminar dos vam’bora, a gente caminhava passo a passo, serra acima, oscilando debaixo de fuzil e das mochilas. Pesadas, estavam. Muito arquejava demais, ela, que era coragem que se me esvaía. Derroteiros. Peleja alheia.


As correias entravam fundo nos ombros morenos, as pernas tremiam a cada passo, então parei - que a gente era bengala dos cegos - sem dizer nada arranquei-lhe a mochila, passei para mim, peso de mula de tropa. Ela falou só com os olhos. Fomos subindo, subindo, ela atrás de mim com as armas, empurrando quando eu pedia, a pendente aquela judiava, descaminhos. Cantava na cabeça para Ossãnhim, nenhum pé se perdia. Chegamos, enfim, onde era o ponto de descanso, numa beira de serra danada de funda; lá em cima, um ar que ardia. Ela ajeitou o mochilão, eu fiquei sentado, respirando fundo, fungando bufado. Todo o corpo um formigueiro, eletricidade, onçado. Chegaram, os assonsados.

Ela arrumou minha rede, pedi no chão, desarrumou, fez a cama dela colada. Aí o do comando arengou sobre tarefas, elogiou a vanguarda, ela e eu, me nomeou chefe de operações para o dia seguinte. Pedi, num particular, que não. Que já estava tudo no fim, fuga do cerco, que não começasse de novo então, incomodasse com besteiras, que não valia a pena, que a situação não dava para mais, que melhor assim, de pau-mandado, no cabresto, fazendo direito, mas não mandador, capataz sem autoridade de gente sem lei que não cidades. Adiantou nada. O caboclo estava trembleque nas pernas, injuriado: queria bicho do mato para garantir a fuga. Eu.

Daí, enfezado e armando desastres, deitei, antes passei na queda d’água para escorrer cansaço. E depois de tanto tempo - Eta! banho gelado da gota serena! - fiquei num cheiro bom de limpo e lavado; até peguei navalha e cortei barba, no escuro do lusco-fusco do pé da noite, tivesse uma água de barbear de cheiro, ficaria bom demais. Deitando, virei para o lado de lá do canto dela. Daí que depois da guarda, madrugadinhas, veio, e enveredou na minha lona. Chão, folhas debaixo.

Veio... Disparou meu coração tão forte que parecia que o mundo ouvia. Cheirava a sabonete, perfume de mato, cheirava a mulher nos aprontes, cheirava! Orvalhos... Foi uma eternidade muito devagarinha, aquela. Sem susto, cada um sabia do outro desde sempre, a gente era uma coisa que mal se movia. Chorou muda, dentes fundo no meu ombro, que não ouvissem. Clandestinos. Mundão errado, dentro de cada um do resto vivia uma violência pantanosa, como se tudo o que era sentido de vida atolasse, ali. Para mim, despenava, boi de guia. Uma só vez tanta ternura, definitiva, e nunca mais? Assim?

Zero nos prazos, pé no mundo, decidi que não voltaria à guerra. Não mais soube. Cada um com sua saga, tercei ferros, forçado, em outras terras sem matas, serras, ela. Ficou na cicatriz no ombro, no gosto e cheiro moreno, nos grotões das memórias tontas - tantas demais - delicadezas na ressaca de entreveros, na dúvida de ter pego - únicos hora e tempo certos - na serra, a senda errada da vida, ela para outros lados. Não mais. Exílios...

(img: cvm-maciçorubi /H52- trecho de “Anti-horário” - 1976 - RBI)



08/10/09

ELEGIA MELANCÓLICA


Caio Martins













(img: cvm - sucatas - IRFMatarazzo.)


Não sabes inventar flores.
Apenas existe em ti
a certeza de carregar absurdos
diante destas interrogações todas.

Máscaras grotescas te espiam
dançando em cima do muro.

Tocar violão, ler jornal
andar na rua gritando
música de carnaval...
Adianta, tudo isso?

Mistérios sorridentes
acenam a cada papel que o vento leva.

Pois que leve então o vento
todas as revoltas, todas as violências
que deixares escritas com fel.

Não chegarás a viver os tempos
onde não haja mais negócios
sempre negócios, amigos à parte.

Não chegarás a viver o tempo
de sentar na rua e cantar
por gosto, bobeira, vontade.

Dentre poucas coisas
(complexos, medos
traumas, desejos
teu relógio e a certeza da morte)
carregas em ti a certeza
de não saber inventar flores...

Tudo o mais não é impossível.

26/09/09

CHAMAS


Caio Martins
Para a escultora Maria Karini













(img:cvm - maria karini4/1998 - em "mulher, imagens e poemas")

Estilhaçar
teus cenários de concreto e aço
e perder-me sem misericórdias
no emaranhado de teus traços.

Na languidez fatal
imortal de teu abraço
denso, intenso, teu
olhar de susto e salto pronto,
entranhado
na confusão de teus apelos
pelos, cabelos, atropelos
e confrontos.

Daí, deslizar matreiro
por fendas de tuas esculturas
na contramão de teus sinais
vermelhos, em painéis
de pedras, bronze, metais
dilacerando teu sono
com meus cinzéis...

Mas, docemente
levemente perverso
assim
a pouco e pouco
em delicadezas jamais vistas
e requintes de suavidade
- enquanto arqueias irresoluta
entre suores e gemidos
palavrões e riso louco -
inventando às pressas que te amo
antes que incendeies o universo.

CIDADE


Caio Martins
Para Tati













(img: cvm - womanstudio-coygni - newyork/2000)

Quando teus olhos percorrem a cidade
que desliza sob a noite em tensas veias
de aço e óleo e ódio e chamas
ela como que estremece de espanto
enquanto não dormes, fantasias
o torpor lento dos amantes...

Percorre então tua pele
como se fora brisa, um arrepio
suave e o oposto do delírio
feroz de posse do cio frenético
ôco e mecânico e estático
das solidões perdidas pelas ruas.

Mas, se cai tua lágrima comovida
na face mergulhada entre teus seios
tens num leve instante um relicário
de sons e luz e espelhos
de alegorias vãs de mulher
alumbrada cidade de desejos.

20/09/09

TRATO COM O DIABO


Caio Martins

Aquilo era coisa muito antiga, diriam os amigos mergulhados em hi-tec, chips, TI e parafernália toda da nova era tecnológica... Mas, fizera um trato. Outra coisa fora de moda, característica sua, era a de cumprir compromissos e promessas. Ademais de estudar gramática, ler Castro Alves, Machado, Drummond, Guimarães, Veríssimo - a nata da literatura brasileira. Podia? Não, não podia...

Não fumava, não cheirava, de vez em quando tomava uma caipirinha aguada e ficava rindo feito besta. Era careta, sabia. Na indecisão, ficara uns dias na quietude de uma chácara, meditando. A velhinha encarquilhada e quase centenária lhe dissera, anos atrás, dedo em riste na direção do vulto que passava na rua em exagero de velocidade: - É o Capeta! Esse é o Diabo... - e correra, lentamente e resmungando, a acender vela branca, botar copo d'água no altarzinho da Virgem para o Anjo da Guarda. E cada vez que o Tinhoso, o Coisa Ruim passava com estardalhaço, largando fumaça e cheiro de enxofre, insultava corajosamente, apesar da idade.

Carregava o cansaço dos últimos da tribo, da galera nascida e criada junta, que agora se desfazia perigosamente, cada com seu par, outros destinos e desígnios e aquela fé e força que tanto os unira, destinava-se a objetos e pessoas fora do círculo acroamático original. O cyberespaço era infinito, a interação teclada substituíra, descontroladamente, aquele toque, aquela palavra, aquela troca de emoções miudinhas... até mesmo a boa trombada, vez por outra, por qualquer motivo fútil. Junto ao cansaço, trazia a determinação de mudar as coisas.

Daí, armara-se de coragem. Não tinha pelo menos uns mil e-mails carregados de intenções, propostas, promessas, sonhos, mentirinhas e mentironas, além das vezes em que, com jeito e manha, permitira levar-se ao topo do prédio e, dali, ouvira tantas vezes que tudo aquilo seria seu? Naquele dia, depois da meditação e passando longe dos incensos e velas da avó, agora mais que centenária, decidira-se: ia fazer a besteira. Foi uma longa preparação. Descobrir a hora e o dia certos, o lugar propício, preparar-se com requinte e, essencialmente, manter o mais absoluto e resoluto segredo.

Foi gentil, estava tão assustado quanto ela, porém, apesar de toda a paixão, a tratara como se delicada flor, precioso cristal. O trauma da virgindade perdida confirmara-se uma lenda, o outrora menino que infernara as ruas com a moto barulhenta e fedorenta mostrara-se muito carinhoso, paciente e cuidadoso. Choraram juntos. Esse, o trato... Terminando o dia, um pôr-do-sol fantástico sobre a cidade, ficaram abraçados quietinhos, sem nada dizer, comovidos feito o diabo.

(img: eros e psiqué - 1817 - óleo sobre tela de Jacques-Louis David)

16/09/09

A ESPADA


Caio Martins

Aproveitando propício momento, fora atrás do sonho ainda muito menina, uma criança. A “Primavera de Praga” sucumbira sob os tanques soviéticos, havia desencontros e confusões, agitação e tristeza por toda a Tchecoslováquia. Passou sua figura miúda e leve por manifestantes, soldados, chuva de pedras e nuvens de gás lacrimogêneo. Encontrou a ladeira de pedras antigas e a porta de ferro batido, as escadarias de carvalho e, numa sala soturna, iluminada por candeeiro a óleo, o velho sumido em trapos. A mão da mãe a soltou.

- Vim buscar a espada! - disse, num idioma inóspito e que lhe era estranho.

O velho indicou-lhe onde. Pesada, corroída pelo tempo, a madeira do cabo desaparecera há décadas, talvez, mais de século. Beijou a mão ressequida e frágil, pegaram a conquista e saíram apressadas. A relíquia passou alfândegas com funcionários relapsos e cansados de alguns países até, finalmente, chegar em casa. Levou-a, anos depois, a ferreiro perdido no fim do mundo, nas serras de Minas, e pediu-lhe a reconstrução. Esse também, sem palavras vãs, pegou, sopesou e pediu-lhe um mês. Estremecera de emoção. O pai, companheiro da empreitada, também.

Nos trinta dias, pegou-a. Perfeita, polida, o cabo de raiz de jacarandá amoldando-se em suas mãos pequenas como se juntos tivessem nascido. Pagou em ouro, moeda trazida de outras eras e herdadas em gerações. Lauma respirou fundo, intangível, verificando a arma ancestral milímetro a milímetro em busca de imperfeições inexistentes, e pegou o caminho de volta. Completara o ciclo. Teria, agora, vinte e um anos passados, de tê-la em ritual milenar, repor sua marca e intensidade para, finalmente, dotar-se do último elemento para a definitiva consagração espiritual.

Mas, havia um homem, frágil e perdido de si e do mundo, que lhe entrara pela pele e tornara-se, ao mesmo tempo, numa promessa de amor e perspectiva de um desastre. Daniel... reduzido, de líder emblemático e moderno guerreiro, a espantalho lamentoso por ter-lhe cruzado o caminho, na hora errada, um anjo perdido; fêmea primitiva e oblíqua, para quem o mundo começava e terminava nas genitálias e, pela graça e beleza, seduzia instintivamente os alfas de sua espécie. Letícia...

Conseguisse centrar-se, seria sua própria salvação, a libertaria para seguir sua saga e seus caminhos. Não podia permitir-se odiá-la, porém, odiava. Na sua linhagem e tradição, eram-lhe vedados humanos sentimentos banais; paixão e ódio, rancor e mágoas, desejo e medo... Filha do equilíbrio e da sabedoria, Lauma chorara apenas uma vez, quando aquele homem fraco a inundara de tanto carinho que perdera, além do controle, a férrea vontade e certeza de sexo ser como singela busca de alimento, madrugada em curso, num assalto à geladeira. Letícia era promíscua, indecorosa, irresponsável, indecente, impudica, compulsiva... E Daniel, um fraco. Ela? Uma vestal...

Teria de purificar-se e elevar-se, pôr-se acima e distante de inconsistências e vulnerabilidades cuja única função era pô-la à prova. A espada, de ferro batido e transformado em aço na têmpera em um ser vivo, quiçá um guerreiro, há séculos, era sua garantia de poderes tais que, num momento relapso, ao putear contra um homem, matara por tabela o cãozinho da família, oculto sob o carro. A espada lhe daria o controle e a sintonia de seu lado destrutivo. Seria sua garantia, na verdade contra si mesma, e sorte de muita gente.

Limpou-a cuidadosamente, em minúcias. Empunhou e cedeu ao peso. Não era para batalhas, em tempos ditos civilizados. Depositou-a carinhosamente num altar na parede norte de seu quarto, entre cristais - alguns preciosos - envolta em villuto carmim sob um atilho de seda azul, o mesmo que, trançado, lhe segurara os cabelos quando conhecera Daniel. Satisfeita, determinada e feliz, foi à cata dos elementos que utilizaria em sua liturgia, na noite em que a lua seria apenas uma curva imperceptível na escuridão do céu. Ervas, pedras, metais, terra, fogo, água e banhada em ar, outros segredos e mistérios.

Sentou-se na cozinha, espichando as pernas e braços, espreguiçando-se prazerosamente. O gato subiu-lhe em cima e, ronronando alto, aninhou-se-lhe no colo. Sentia-se bem, apenas a memória do corpo incomodando sutilmente com reprises do sexo desbragado com um homem instável que, curto tempo atrás, a fizera sentir-se estupidamente mulher pela primeira vez na vida.

- Sabe que mais, gatinho? A sua dona está ficando louca...

(img: cvm - têmpera - trecho de “zero-hora: um anjo perdido” - 1996)