15/02/2012

EVOLUTION

Caio Martins.












(img: explosão nuclear - web)

Já podemos explodir
o planeta centenas de vezes,
dizem os jornais...
- Que coisa!... uma só seria demais...

Ao léu pasta o gado
ao matadouro
pasta o gado...

O poeta é um saltimbanco
o poema é um vagabundo
que pode um verso inútil
contra um míssil nuclear?
A bomba de nêutrons
derreterá a arte
ninguém dá parte
e pelas avenidas se entulham
androides enlatados
em conserva, entalados
cuja sobrevivência é um vício
cuja inconsciência é um ofício.

Ao léu pasta o gado
ao matadouro
pasta o gado...

No espaço sideral há brilhos
sinistros de metais
enquanto a vida abaixo escorre
condenada
desenfreada
por trilhos virtuais.

Ao léu pasta o gado
ao matadouro
pasta o gado...

No limite do planeta
os limites por um triz
a liberdade ancilosada
é velha locomotiva a vapor
se decompondo nas pradarias
enquanto em órbitas, estelares
espaciais engenhos reluzentes
se (de)codificam, frenéticos
sobre os destinos do planeta
e seus piolhos patéticos...

Ao léu pasta o gado
ao matadouro
pasta o gado...

(26/06/1987 - Pensão da Zulmira)


10/02/2012

A CALCINHA

Caio Martins.

(ilustração: Damaride Marangelli - esperimenti-1)


Ficara olhando o buraco da porta catatônico e paranóico, atônito e estupefato... Merda!... Só restara a calcinha pendurada na torneira do chuveiro! De novo! Por que? Para que? Vestindo uma toalha que logo se perdera, saira aos berros pelos corredores, vertiginosa escadaria de seis andares: o meio da rua... e tinha voz poderosa, o labrego... Depois de reconduzido ao covil - o gato  ronronando e atentamente seguindo o teclado - escreveu desbragado, emocionado às lágrimas e desconsolado:

"... se sabias que se em outra mulher, estou em ti, se sabias que sou ciumento, egoísta, possessivo? Se sabias que ia te ferir? Ah!, que desamor, que dor, que merda... Querias brincar de Cinderela, Bela Adormecida, beijasses sapos, mas tiveste de escolher um artista sempre na beira do colapso... Pôr-me uma coleira? Eu, músico, que me afundo na noite, eu que por gosto bato, apanho, grito e brigo? Eu, músico, num palco tocando salsa, abaixo estonteantes fêmeas sacundindo pródigas tetas? Por que eu? Puta! Puta, puta, putaaaaa...

... agora é teu cheiro no travesseiro, as manchas no colchão e a maldita calcinha na torneira do chuveiro... Queria tudo certinho, bonitinho, direitinho... justo eu, errado no tempo e no mundo, eu suicida e demencial, eu sem peias nem coleiras, eu sem eira nem beira, eu que estava tão feliz? Com que direito entraste assim na minha casa, na minha pele, na minha cabeça, viraste do avesso minha música e minha anarquia?

Nem um retrato, merda, nem um maldito de um retrato... Se ele aparecer aqui, mato teu gato ! Vou quebrar teu prato, torcer teu garfo, tua colher, tua faca, quebrar teu copo, rasgar tuas roupas, tua toalha, jogar no lixo teu sabonete e perfumes e xampus... meu deus, vou botar fogo na casa... Teu cheiro no travesseiro... Nos lençóis, teu cheiro... nas minhas camisas, sapatos, calças, cuecas, meias, na minha vida, teu cheiro...

O gosto de teus seios entalado na garganta, de tua saliva, baba, marcas de tuas unhas, de teus dentes, no meu pente teus cabelos, e me expulsas enquanto pulso, e te vais, novamente sais sem adeus, nunca mais? Levando tuas coxas doidas, tua vagina louca, tua bunda demencial? Ai... Eu não posso, não quero acreditar... O buraco negro da porta... Deveria ter-te deixado torta e agônica e arfante e lambuzada e mordida e esfolada num quarto de motel, o michê no aparador; daí, eu sim: até logo e nunca mais... Deveria, na primeira vez, pegar meu saxofone, cair na noite, noutra louca, noutras bocas, noutros cheiros, noutros gostos, mas não: quis acreditar, era o amor da vida, era o grande amor da puta da vida...

Que orgia! Tudo que querias era isso, fêmea atroz e voraz e ancestral... Saíste pela porta satisfeita, quebrando ancas, empinando as tetas astuta, teatral... Entre o suicídio e a orgia, escolho os dois e vou; quando voltar, qualquer dia estarás outra vez na minha cama, a me arrebentar uivando entre soluços, lamentos e gemidos, depois berrar da porta de novo que não amas, não gostas, nem queres e bença e tchau... Do maldito buraco negro da porta...  A porra da calcinha na torneira do chuveiro e teu grito de guerra edgarallanpoeliano novamente rasgando os ouvidos excitados do edifício extasiado e expectante pela próxima vez:

- Nunca mais! Ouviu bem, cabeção? NUNCA MAIS !!! "...

Deram-lhe umas fedorentas calças velhas, na delegacia. Depois de algum tempo e muita lamentação, o delegado, verificando não estar chapado nem bêbado, se compadecera vendo ser artista e culto, ensandecido por tórrida paixão; mandara uma viatura levá-lo de volta à toca...

(scsul-julho 1966 - "toquinha")


02/02/2012

ODÓ ÌYÁ, YÈYÉ OMO EJÁ!

Caio Martins


Iemanjá,
ser do mar
ser de amar
mareia:

Yèyé omo ejá!  Sereia...

Alabê do Ketu
Axogun aquieto
as fúrias do Orun,
Ogun no Àyié!

Odò ìyá !








17/01/2012

AUSÊNCIAS...

Caio Martins

Para Márcia.















(img: cvm - PB sob foto de msluz - jan/2012)


Rolam, ante meus olhos, transparências
de inigualável nitidez, essências
de meus mortos, de meus amores idos.
Cala-se, a voz, num silêncio contido.

Testei-lhe, Vida, todos os limites:
nuns fui herói, já em outros, fugi!
Dos amores que tive, consegui
cicatrizes tais que densos grafites...

Tantos lugares, meus seres queridos
tatuaram suas marcas no que insiste
em triturar os prazos decorridos...

Preciosa me é, a rara existência
e um só amor etéreo, ao fim, resiste.
Não sei de saudades... Só sei de ausências...


13/01/2012

UM VERSO, UMA ROSA...

Caio Martins

Para Jeanne














(img: cvm - rosaverso - 01/12)


Não tremas, nem temas: dança!

Não terás minha cabeça
numa bandeja de lata:
em vão te procuro
nalgum canto escuro
tuas roupas desata...

E somente dança!

Lança tua sedução e fascínio
enquanto escrutino
nas paisagens nuas
tuas grotas,  tuas luas
fervor desatino...

Dança, dança, dança!

Vem dentre os lençóis
de meus delírios, vassalos
sem eira, corcéis
apocalípticos
em fuga preciosa...

Mas, dança...

Após o armagedon, descansa
farta e frouxa e frágil, preguiçosa...
Não terás minha cabeça, quem sabe
te deixarei uns versos, quem sabe
uma rosa...

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