12 de set. de 2012

Arlequim

Caio Martins

Para Márcia, MIlton e Jorge
















(img: cvm - farofa03-2001)

Não darei definições;
já nada explico ou justifico
do que faço.

Apenas trago as mãos
plenas de silêncios, cansaço
cicatrizes, calor de luta,
a ternura de um abraço.

Enfim, amigos,
sempre fui e seguirei
sendo assim mesmo...

Meio anti-herói
meio palhaço!



Carinhoso - de Pixinguinha, com Marisa Monte e Paulinho da viola.




10 de set. de 2012

Anjos safados

Caio Martins
















(img: lori - fabian perez)


Não fossem teus senões, teu pejo
teu poeta roubaria um beijo...
Marcaria por teu corpo
expressões digitais, arranhões
uma que outra mordida...

O amor, amor
sufoca, às escondidas...

E vens, como perdida
vestal sem ancestrais
sussurrar o que de cor eu sei:
“- Aceita-me de volta... Pensei
que estivesses com raiva de mim...”

Exalas tanta tristeza
tanta dor e solidão, enfim...

O amor tangencia as órbitas
caóticas de teus anelos
e pisa firme nos freios.

Para! Respira fundo, esfria
chuta a porta, quita
metafísicas, te chama de vadia
metamórfica, sirigaita
e assassina a Poesia.

Enfim, findo o barulho
revéns, tomaste um banho
me tomas da mão, roubas um beijo
e vou...

Anjos safados,
tua sedução e meu desejo.

Nosso amar, amor, perdeu 
o rumo
o pudor e o prumo...

(scs - 10/09/12)

23 de ago. de 2012

ALUAR

Caio Martins

Para Jeanne.
















(img: cvm - nicportman-huble)


A lua, meu amor
torta
corta os céus, mero traço.

Apenumbras...

Em que pese, te percorro a passo
beijo a beijo, impune
me sorves, absolves
e tua volúpia paira instantes
em meus braços.

Luminescências tardias,
imperceptível halo cravam
meus olhos, tua alma,
finas lâminas incertas.

Não era a paixão que querias
nem o amor que eu desejava...

Mas, incontida, ris!
Estilhaças a madrugada
com os cristais de teu riso...
já nada mais preciso
já nada mais importa...  

Em breve, amor, a lua
refringente e oclusa e fria
estará morta.

(scs - 23/08/12)

26 de jul. de 2012

METAMÓRPHOSIS

Caio Martins










(img: paola en el sofá - fabian pérez)
 


Não, não canso de olhar-te nua
imortal, etereal, imprecisa
perfeição de cinzas inconcisas  
na semiluz a espiar da rua.

Imóvel, pulsa em minha palma
teu seio e em minha pele
teu calor e cheiro e calma
de mulher que se resvala...

Como ficas linda e sem nome
quando após a posse, em ulo,
desabas, já nada te consome...  

Deixo-te dormir infinda e quieta
enroscada em mim feito em casulo
antes que te faças borboleta...

(scs - 26/07/12)

9 de jul. de 2012

AQUARELA

Caio Martins.
















(img: cvm - laura -1999)
 


Desenho-te em tintas fortes
e percorro traço a traço
teu corpo inexplicável
de fêmea, flor, formas
frágeis transparências.

E vens, tão nua espalhas
pincéis, palhetas, potes
telas, trapos, imagens
me desenhas insensata
numa imensa confusão
de pernas e bocas e abraços...

É quando, quase sem querer
gravas teu lamento em minha pele
recebes meu murmúrio entre teus seios,
nada mais que um homem
nada além de uma mulher.

(em "mulher - imagens e poemas" - 1999 - fundação pró-memória.)

17 de mai. de 2012

ANJO NEGRO

Caio Martins
 












(img: niko tavernise - portman - cisne negro)

Anjo negro, avassalo
escalo, formo e conformo
teus sentires, teu prazer.

Cubro-te com noite vã
baça e lassa e terçã
lasciva e ímpia e farta.

Mas, partirás de mim, mero
exilado ébrio das trevas
clandestino de teus nichos.

Virá o inferno, luz do dia
que o meu fascínio corrói
e irás lívida e leve e livre...

Eu? Restarei desfeito
borrão imprevisível
entre a alvura dos lençóis...

(scs - 12/05/12)



20 de mar. de 2012

MUSAS VIVAS, MUSAS MORTAS...

Caio Martins

Para Jeanne.


Tomou uma, do frasco portátil de inox... carecia levantar a coragem. Foi à cozinha e pegou do lixo uma lata vazia de leite condensado, lavou prolixamente. Ao carro, um alicate e dobrou uma pestana irrepreensível. Tinha um cinzeiro! Voltou à redação e ao computador decidido. Acendeu o primeiro cigarro. Heresia, ali até a palavra fumar era vetada. Aos que reclamaram, não vacilou na resposta: “- Praputaquepariu!!!” - e o susto os calou. Não era assim, era sempre gentil. Algum mistério havia... Então, rasgou a pauta e selecionou mentalmente as canções e as cantoras que magicamente lhes davam vida, as suas Musas. Não escreveria sobre as ciborgues no cio e o lixo eletrônico da atualidade para a página de cultura do jornaleco nanico.

Achou, num site de postagens de vídeos, Clara Nunes com “Canto das três raças”, de Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte. E já o nó apertou feio no gogó... A ouvira pela primeira vez estando fugido em país inóspito, depois de uma guerra. O “brazil”, ainda era o Brasil, mesmo que envolto em chumbo naqueles idos de 1974. Clara clareara o exílio externo, o interno. A alegria de Clara, a beleza, a graça, a sensualidade, a voz... e a revivência daquela fase jamais transcrita, dos tempos em que se julgava imortal. Suspirou fundo, de cortar o coração. Clara era morta... Clara não estava mais...

Buscou frenético, para recuperar-se e despedir-se do verão, “As rosas não falam”, de Cartola, com Beth Carvalho, felizmente viva... E o efeito foi devastador... Por injunções temerárias sabe-se lá de que raio de divindades, passaram-lhe, uma a uma, as mulheres amadas, as paixões perdidas, os grandes amores idos... não voltariam ao jardim. Engoliu vezes em seco, o nó apertando devagar, sem pressa, poderoso... Mais uma, para recuperar a coragem.

Socorreu-se de outra sobrevivente, Maria de Fátima Palha de Figueiredo, a sua querida "Fafá de Belém", primeira a deslumbrá-lo quando regressara do exílio e após a prisão em Viracopos pelo DOPS e Polícia Federal, fins de 1979 e antes da anistia anestésica. A vira na TV, na casa de amigos, fuzarcando  o “Estrela Radiante”, de Walter Queiroz, e saíra cantando “ylaiê, aê ilê ilá” pela sala, tomado pela adorável gordinha. E cantava junto agora, empolgado, apontando dedo para o céu, a cadeira estalando, o povo perplexo.

Passou então para a também respirante Gal Costa - escolheu “Força Estranha”, de Caetano Veloso. E sentiu, novamente, aquele sopro de esperança, aquele tesão de viver surgido nas ruínas das separações com os encontros tantos num país do qual não entendia mais nada - ano da graça de 1981 - e que não o detonaram por pouco. Agora, sim! Poderia ouvir e escrever sobre outras, sem que lhe partissem - o delírio, a emoção e o sentimento - a compostura e a dignidade em público. Era cria de tempos em que homem tinha, obrigatoriamente, de ser durão.

Buscou “A noite de meu bem”, de Dolores Duran, há tanto tempo encantada... e lá se foi a valentia para o ralo. Novamente, as ausências e os buracos delas decorrentes pegaram pesado na veia... Dela, o jornalista Antônio Maria dissera: "Dolores Duran falou de sentimentos como ninguém, em todas as línguas. Seu idioma era o amor!" E arrastava, subrepticiamente, a sensibilidade a níveis críticos, comovendo como o diabo... Dolores fora, lá pelas bandas de 1960, inspiradora de seus primeiros trágicos versos de “amor”: “Quando tiveres nas mãos macias/ outras que não sejam minhas mãos/ fuja desse mundo de ilusão/ onde essas mãos são sempre frias"...

Compungido, a estatura feita trapos, o pranto na boca do bote, a ausência daquela que mais o seduzira bateu duro e forte, impiedosa e cruamente... Elis... Pegou “Cadeira Vazia”, de Lupicínio Rodrigues... Daí, congelou... O vídeo ruim todavia lhe mostrava a intensidade da emoção da sua Musa morta “entre um agudo/ que comove o verso torpe/ e uma porção de cocaína...” - e novamente ela lhe dominava o cérebro, nervos, músculos... era visceral, orgânico, o fascínio de Elis... O som, em que aceitável, doía nos ossos... Aquela cadeira estaria eternamente vazia...

Terminou de escrever, enviou ao editor, derrubou o sistema, tomou longa mais-uminha até secar o frasco e o jogou no lixo, acendeu o undécimo cigarro e, altivo mesmo que trocando pernas, saiu levando seu cinzeiro e tropeçando em seus fantasmas pela rua... Não mais foi visto.

(img: clara-nunes - arquivos. sc do sul - 20/03/2012)

5 de mar. de 2012

O VESTIDO

Caio Martins
Por dentro, em cada célula, ainda a dor. A perda asquerosa fora imprevista e atingira surpresando, sem aviso ou notificação. Se fora... assim de simples... Nem uma palavra, um gesto, indícios e não havia mais a voz aliciadora, as mãos irreverentes, o corpo conhecido, a muralha contra o mundo. Nem o riso, nem o pranto. Nem o afeto, o carinho, a paixão: só lembranças, como em luto. Odiava a comiseração grudenta dos amigos - que não pedira - e o arzinho pérfido dos inimigos - que execrava. Uma linda mulher - e assim se sabia - subitamente só, abandonada, desprotegida e vulnerável : sentira-se, autopiedosa, como se nua e suja no meio da praça.

Olha novamente o convite de festa, garboso cartão dourado com letras negras rebuscadas, brega na forma e medíocre no conteúdo. Tensa, quase o rasga. Vêm-lhe, então, aos sentidos as faces dos amigos, dos quais se desentendera para não ver-lhes as caras compungidas e nem ouvir consolações indesejadas. Escolhera o isolamento e o silêncio. Metera-se na toca para lamber as feridas, feito qualquer bicho do mato. De repente, algo agita-se-lhe por dentro. Como por magia vai ao espelho e encara os olhos claros... Vê-se pálida, mas, em nada diminuída nos traços. Despe-se num ritual apressado e preciso. Tudo está lá, como sempre...


Alguns telefonemas, veste roupa corriqueira e, agitada, enfrenta o trânsito feroz, mesmo num sábado de verão esplendoroso. Horas depois regressa, passado o frenesi. A mulher que a acompanha, levando farto pacote, conhece seus gostos, manhas e chiliques há anos, sabe o que fazer. Desarmam o pacote em silêncio, iniciando cerimonial de vestais, iniciadas. Exigira sobriedade na maquiagem destacando, porém, o batom grená bem delineado e as sombras quase violetas nas pálpebras, com leve toque prateado do contorno superior. Ligeiro “brush” colorindo as bochechas, e só isso. “A bela, na singelez, se revela”, lhe dissera um poeta.

A lingerie, sofisticada, é a mais cômoda. Então, cerimonialmente, o vestido. Sente arrepios quando  desliza como seda, bicos dos seios feito botões e rara sensação de prazer.  A mulher o acomoda exímia, e lhe diz que tire o sutiã, ou ficaria escrachado sob o decote amplo. Faz. Sorri. Ajustes nas dobras dão-lhe, aos seios, segurança e postura. Minúsculos apliques brancos aleatórios e na barra quebram o padrão monocromático, vinho. Brincos e colar de pérolas, cinge-se com delicada corrente achatada de prata. Observa, satisfeita, o talho à esquerda, desde o alto da coxa. Sapatos estilosos, de ponta e salto tétricos, também grenás. 
   
A mulher a fotografa com o celular, após avisar as pessoas-chave que estava pronta. Chamam, que abaixo está o táxi. A caminho, ensaia o rol, já estivera de palácios a barracos, cerimoniais não a assustam. Na porta do bufê, respira fundo, entrega o cartão cafona a um porteiro embasbacado e entra. Há momentos em que o universo para. A notícia, feito raio, gerou o fenômeno. Desce a passo, pelo meio. E começa a correria, as amigas feito galinhas atrás de lagartixa, alvoroçadas, o ar de aprovação e desejo dos amigos, enfim, um espetáculo. O DJ bota “As time goes by” - o clássico de Casablanca - conforme o combinado.

Desfila impecável. Passa pela mesa do que se fora sem explicações e sequer olha, o sorriso iluminando a perfeição da mulher que enleva e domina não só pelo visual ousado - ainda que sóbrio - mas, pelo poder misterioro e irresistível do eterno princípio feminino universal, quando vai à guerra. Aplausos... muitos.  Depois ri, fala pelos cotovelos, dança, faz fotos com a matilha, chama toda a festa para si. Após, quase bêbada, sensação de paz, volta para casa descalça, sob chuva, pelo braço de velho amigo apaixonado que jamais lhe faltara nos momentos mais dramáticos. Agora, não era o caso... seria a recompensa. Ao despir o vestido, está liberta e feliz.

(img:femme en rouge - a. colin / floripa - 02/03/02)      



19 de fev. de 2012

O BEIJO

Caio Martins

(o beijo - pablo picasso - 1931)
Tudo complicado. Enrolado demais, duas cabeças em alta rotação, o mundo espiando e rindo, no fundo um cenário de tempestades. Nenhuma mulher chamara mais a atenção, ela passara a ser-lhe o centro cósmico, o vetor, tudo reduzido aos olhos escuros, os cabelos rebeldes, a boca de menina chorona, os traços severos do rosto, o jeito de maria-moita. Ele alfa, safado diplomado em escolas privadas e públicas, de quartos de virgenzinhas ansiosas a pródigos bordéis...  
           
Amor? Antes fosse... Paixão! Entregara-se feito um pacote sem remetente, aberto, pronto para uso. Contra a vontade própria, mas inerme ao tal de Destino (Sujeitinho canalha!)... Ela dissera-lhe isso: - Destino! E quebrara-lhe a couraça, a coragem suicida, o ímpeto de guerreiro. Apatetou-se da maneira mais vergonhosa. Aliás, ambos... Ah!, noites insones, espera angustiada de um telefonema, um e-mail, tremenda e apavorante luta contra sentimentos, batalhas catastróficas contra os instintos, gritos estonteantes de guerra contra a sensação de perda antecipada, ante a trombada com o impossível de quem jamais se dera por perdido... Estava perdido...
           
E então, decisões firmes e irrevogáveis tomadas, resgate de todas as armas, artes, manhas e recursos, montado numa determinação heroica de romper os próprios limites e cortar os vínculos, descobre, desacorçoado, que ela sentira sua falta... Que não gostara nem um pouquinho disso... Que queria tratar do assunto com toda a seriedade! Mulher imprevisível... Quase criança, nascera adulta... Nada dominava do mundo dos lençóis, mas definia, dona, suas essências.  
           
Claro: fossem simples, comuns, gente como toda a gente, e tudo seria fantasticamente fácil. Mas, não eram, não... Eram complicados, cheios de teorias e padrões, eram mentais, cerebrais, donos de muita determinação, cada qual espiando o outro de suas trincheiras e posições, firmes e decididos, heroicos e retumbantes... patéticos, enfim. Não poderiam senão tratar do tema “- Não quero perder você!”  - rindo?... ou chorando, qual a diferença? As multidões se movem pelas tripas... assim, os amantes...

Horas de abobrinhas, reticências, vazios mentais tentando serem preenchidos com explicações até que bem ajambradas... E, então, veio festa de fim de ano e o beijo. Nada altamente preparado, erótico-vampiresco, tonante, devorador, sôfrego, estilo encontro de buracos-negros galáticos, voos desorbitantes de línguas, mãos, braços e pernas em convulsão, babas e pulsações, pornocinematográfico: beijo besta, delicadinho, gentil, improvisado, tímido, sem querer... Com jeito de ternurinha boba, com alento suspenso, coisa de criança levada, de primeiro beijo... Toque mudo e suave de lábios sem roteiros, bocas ingenuamente premeditadas mas, assim mesmo, leve sufoco sem esfregação subsequente. Beijo-beijo...
           
Desses que não acontecem mais, kantianos sem tempo nem espaço, que jamais se repetirão por mais que se repitam, fora de moda. Nada mudou, depois. Somente alguma coisa girou ao contrário nos confins cósmicos, perderam-se algumas galáxias, explodiram algumas nebulosas, num anteprelúdio de fim do mundo. Teria sido tudo mais simples, começassem por aí. Na falta de plateia, alguns anjos tontos, desinformados, seguramente aplaudiram. A Divindade, competente, fez-se de lesa, a saber de nada... estabelecera-se, após tanta negaça, a trajetória do desastre.    

(scsul - 10/03/2001) 

15 de fev. de 2012

EVOLUTION

Caio Martins.












(img: explosão nuclear - web)

Já podemos explodir
- dizem os jornais - 
o planeta centenas de vezes,
- Que coisa!... uma só seria demais...

Ao léu pasta o gado
ao matadouro
pasta o gado...

O poeta é um saltimbanco
o poema é um vagabundo
que pode um verso inútil
contra um míssil nuclear?
A bomba de nêutrons
derreterá a arte
ninguém dá parte
e pelas avenidas se entulham
androides enlatados
em conserva, entalados
cuja sobrevivência é um vício
cuja inconsciência é um ofício.

Ao léu pasta o gado
ao matadouro
pasta o gado...

No espaço sideral há brilhos
sinistros de metais
enquanto a vida abaixo escorre
condenada
desenfreada
por trilhos virtuais.

Ao léu pasta o gado
ao matadouro
pasta o gado...

No limite do planeta
os limites por um triz
a liberdade ancilosada
é velha locomotiva a vapor
se decompondo nas pradarias
enquanto em órbitas, estelares
espaciais engenhos reluzentes
se (de)codificam, frenéticos
sobre os destinos do planeta
e seus piolhos patéticos...

Ao léu pasta o gado
ao matadouro
pasta o gado...

(26/06/1987 - Pensão da Zulmira)


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