6 de ago. de 2015

A AMANTE DO DEFUNTO

Caio Martins
(Aviso: politicamente incorreto, contendo expressões inadequadas e chulas, palavrões e violência, etc., etc. etc. Aprecie com moderação.) 
 
“ - Cacete! Vai a fêmea em cio eterno, precoce, no ponto ou tardia, abre as pernas no atacado e varejo, vem lá o macho alucinado, pá-pum, ‘tá prenha... E eu, ou vocês que não fabricaram, somos responsáveis? Vão se catar, manezada!”. 
 
Ninguém mais ria. Fora ao restaurante para entupir-se de pizza e vinho, zoar com os amigos e rir de suas presepadas. Evitava, como o Capiroto foge da cruz, entrar em tumultuados debates e filosofadas inóspitas: pegava pesado e chocava a plateia. Instado ostensivamente por brilhante advogado matreiro e provocador a opinar sobre os destinos da proliferação compulsiva da espécie humana, desta vez escapou-lhe o freio de mão, já em pleno estágio de pudim de manguaça. Grandalhão e de voz dominante, impôs-se: 

“- Tô de saco cheio dessa puta hipocrisia de acharem que basta ser bicho-gente pra ser a maravilha do universo. Somos a pior desgraça que há. Destruímos tudo, todas as espécies incluindo a própria... Por que serei responsável pelos filhotes alheios dum animal sem prumo e nem rumo, do topo da cadeia alimentar, que entope seu habitat desvairadamente ao ponto de termos pouco planeta pra gente demais? Quem fabrica, que se ocupe dos seus monstrengos, porra!
A justa é esta: nada é tão destrutivo, safado, pernicioso, hipócrita, canalha e predador quanto nós, bicho-gente. O resto é masturbação mental, cinismo, sacanagem e esquizofrenia. Vão sifu, caiam na real: estamos aqui para foder com tudo! E tchau e bença! ‘Tô indo!”... Catou as tralhas, jogou uma nota alta na mesa perplexa e ganhou a rua. 

Ninguém. O risco de assaltos aterrorizava o povo entrincheirado em suas tocas. Não deu outra: na esquina, chegando ao carro, cercaram-no dois malacos, de moto e armados. Foi tudo rapidíssimo. Simulou pavor e mal estar e, quando o primeiro veio pegar-lhe os trens, puxou o trezoitão e mandou o dedo. Tiro na cara. O segundo abestalhou-se e nem viu – um centésimo de segundo depois – de onde veio o tiro que o atingiu nas costas. Levantou-se célere, ainda que zoado pelo vinho, arrematou o serviço e vazou da cena do crime pisando fundo. Nem sirenes, nem perseguição. Chegou ao apê são e salvo. No outro dia levantou-se detonado. Depois da tradicional mijada histórica, olhou-se ao espelho: deu-se o infarto fulminante. 

No velório muito concorrido, só fala-se do melhor sujeito já havido. Morreu, virou santo. Num canto, vestida elegante e esmeradamente de preto, sensual, a mulher que viajara longas horas observa, isolada. Chega a viúva e pergunta-lhe se conhecia o defunto. Ela sorri, crava na fulana um olhar castanho-claro meigo e doce, mas perfuro-cortante, e diz suavemente: 

“- Sim! Foi grande! Um grande filho da puta... mas, o amei... Muito!”...
(scs, 06/08/15. img: natalie portman – divulgação)

17 de mai. de 2015

SORTILÉGIOS

Caio Martins
(Para Letícia.)













 Percorri a passo
fiel como um cão
cada um de teus roteiros...

Motéis, beiras de estrada
estonteantes céus de estrelas
mares, tempestades, pardieiros.

Até que farta
partistes sem acenos
ou obscenos gestos derradeiros.

Obscuras noites,
tanto vagar em sombras densas
à luz de luas tontas.

E eis que, telúrica,
entre nuvens
nua vens!

Entra...

6 de jan. de 2015

ESPELHOS DE CAMARIM

Caio Martins
















(img: cvm - célia - 02/2001)

Trago fincados os cacos
da tristeza do que não fiz
das guerras que não travei
dos poemas que não escrevi
do vinho que não bebi
do tango que não dancei
na mulher que mais eu quis...


O mundo não dói, só rói
mansamente camuflado
como seu olhar suplicante
como seu olhar de louca
como o beijo de suas bocas
seus abraços delirantes
do jeito que eu sempre quis... 


Trago fincados os cacos
da tristeza que não me quis
e me olham, azuis assim,
teu olho esquerdo vulgívago
teu olho direito infeliz
multívagos estilhaços
de espelhos de camarim.

14 de dez. de 2014

PERDIDOS

Caio Martins.















(img: cvm - Giulia - tela - 13/12/14)

 
Meu destino perdeu-se
como se extravoam
anjos e demônios bêbados
nas putas das esquinas;
perdeu-te
nas marés da tua pele
nos restos benevolentes
que me trouxeste das ruas...
perdeu-me
no teu olhar faminto
de fêmea em cio pungente
de água e ar e terra e frio:
proscritos e medievais
reinventamos antigo inferno
e tu, mulher, louca menina
te perdeste comigo...

23 de nov. de 2014

PROFANOS

Caio Martins

 

















(img: cvm. Jaquie028-2002 - tela)


Não, não me perdoes
não me decifres, nem
adivinhes em tese
ou por força de ofício...

Vem só sóbria, nua
sem fim e sem início.
  
Jamais, meu amor
peças desculpas
ou que te entenda
subentenda ou profetize...

Vem só com o pudor
profano das meretrizes.

(São Caetano do Sul - 23/11/14)

15 de set. de 2014

BRANCO E PRETO

Caio Martins.
 


















 (img: cvm - 2001 - lucienne P&B – tela)


Prefiro-te assim
parca foto em branco e preto
despida de fantasias
só montada em teus desejos.
Quando vens transida, nua
com teus caracóis e tuas tranças
tuas bocas sábias, tanto enleio
teu cheiro de mar,
teu gosto de frutas
a magia dos teus seios.
Quando te debruças
e me resvalas em silêncio
sem pudores, contida
e louca
premeditada
e inerme...
Quando vens
despida de roupas, jóias
tintas, supérfluos requintes
sem compromisso
senão com teus instintos.
Quando vens, inteira
matreira e articulada e voraz  
feito um bicho...
(São Caetano do Sul - 15/09/14)

6 de mai. de 2014

MENINA TRISTE

Caio Martins














 


(img: nathalia - aquarela - P&B - 04/05/14)

Tens no teu olhar um desvanecimento
como se foras a névoa de outono
que lassa e tão perdida em abandono
dissesses, ao passar, de sofrimentos.
 

E segues só, dobrando tuas esquinas
enquanto ao derredor estrala a guerra
inclemente das ruas, que aterra
tantos sonhos perdidos de menina.

Quebrei-me desarvorado em tuas quinas
andarilho em vão, fugaz pó de terra 
que ao ter-te não percebeu os teus lamentos.


Perdidos no cansaço que extermina
tanto amor,  é quando então de rumo erra
tamanha paixão, teu cio e meu tormento.

scs - 04/05/14.


8 de abr. de 2014

O ACASO

Caio Martins

À frente, a mulher com o rosto dividido entre parca luz e densas sombras. Ao lado o estacionamento lúgubre, vazio e, após ele, a rua desiluminada com predadores rondando. Sentia-lhe o calor e o cheiro, ouvia os passos das feras em atalaia. Lugar perigoso, absconso, propício para a consumação de um crime. Temeu por ela. O 38 tirado das garras de um pivete há meses incomodava, na virilha; o cano na cara mudara de mão num átimo, massacrara o delinquente porém, por motivos ao acaso, não o matara. Ficara com a arma.

A mulher, de traços lapidados com suavidade e perfeição, falava descontraída, não pressentia os perigos. Ele persistia no eterno estado de alerta, embora a beleza e candura atenuassem a prontidão. Fora uma vida inteira assim mas, mesmo que sitiados pela cidade, não havia como ficar totalmente imune à sedução espontânea e invulgar, que o atingia mesmo que nela não se fixasse. Não necessitava esquadrinhar um território para saber-lhe os mistérios e trilhas. Era-lhe natural mapear aparências e formas sem precipitações ou hipóteses; via, e sabia.
 
Olhou-lhe um instante o arfar, na escuridão a meialua crescente; aspirou fundo o ar, atentou ao ruído dos grilos e carros e passos na rua. Ao longe, latia um cão. Por acaso, viu-se envolvido num sortilégio. A mulher era belíssima. Era, inconsciente, todas as mulheres que lhe haviam contado e perguntado sobre tantas cicatrizes. Que poder sortílego emanava dos traços, dos gestos, da voz, da forma cênica de mirá-lo, entre luz e sombra... e o cheiro, entre flor e fruta, entre luar e maresia. Sorriu contrafeito, ao pegar-se emocionado. Levou-a ao carro, estremeceu ao beijo na face e abraço e calor irresponsáveis, perscrutou a saída desde os telhados à mais insignificante sombra fugidia dos meiofios e lhe disse, parco: "- Vá agora!".

Não houve réplicas. Foi. Temeu, ainda que raro instante, pelo que lhe poderia acontecer nas ruas antes dela chegar à própria toca na qual, feito menina, se aconchegaria nas almofadas do sofá e abraçaria um velho urso desmontado, de pelúcia. A sensação de conforto cortou-se abruptamente: sequer percebera o moleque aproximar-se furtivo e, feroz, descarregar-lhe uma arma nas costas. Nada é por acaso...

(img: cvm - yara35-2008/sp sobre lua crescente 03/2014/scs)

23 de mar. de 2014

Trânsfugas

Caio Martins 
















(img: - cvm - jakie/71)

Te vais de mim
assim mansamente
como um sopro, um
frágil suspiro...

Me deixas na pele
trilhas imprecisas
em meus olhos tua voz
a dizer que me amas.

Por tudo teu cheiro
na boca teu gosto
na cama a calcinha
na mente o caos.

E te esvais de mim...
Eu deveria morrer de desgosto!

Mas, amor, vens e teu poeta
trânsfuga irreparável
dentre tantas Musas vadias
abre porta, braços, geladeira...

Somos depois, enfim,
- entre uma cerveja vulgar
e prosaicas batatas fritas -
o mesmo verso tosco
a mesma torpe poesia.

2 de jan. de 2014

Oceânico

Caio Martins 


Tens, meu amor, em teu olhar
traços de orvalho oceânico
que só os leem sobreviventes
de holocaustos e fins dos tempos
veteranos de amor e guerra
eternos insensatos insolentes.

Deslizo em ti sem que pressintas
e te abraço como um náufrago
contido na boca do pânico
e lamentas e ris e dizes
palavrões e rezas e quebrantos
e me olhas assim sem ver-te
entre delírios, fúria e vaidade...

Tens no olhar fulgores e tormentas
e navego em ti, argonauta solerte
que teme, porém ama as tempestades.

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