Da interminável e densa e intensa batalha entre memória e história, o que resta são palavras. Só palavras.
Serão eventualmente garimpadas nos escombros do futuro. Estão convidados, porém, a revirar hoje o blogue pelo avesso.
19 de dez. de 2013
16 de dez. de 2013
Verão
Caio Martins
(foto:cvm - orquídeas - dez.2013)
As flores vadias das ruas
enciumadas
espiam as moças que passam
seminuas
vestidas de verão...
7 de dez. de 2013
26 de nov. de 2013
Não olhes assim
Caio Martins
Sei dos teus caprichos
marcas, cicatrizes e feitiços
paixão e ira em solstícios
além de qualquer previsão.
Sei de teus amores e sumiços
pendores e calores e odores
ódios e desejos e clamores
riscando o universo de giz.
Não inventei tua beleza
nem és assim por que eu quis
e se me perdi em teus nichos
não é o amor que se desfaz.
O tempo é que é curto e que surta
e encurta e furta a leveza, mas
não me olhes assim, feito bicho!
6 de nov. de 2013
Resquícios
Caio Martins

(img: cvm - anne67 - 2001)
Quando eu me for, não lamentes...
Por favor, não chores!
Terás, de meu acidioso ofício
de insanas batalhas contra o Tempo
versos, montes de palavras vadias
fotos de flores, velharias, resquícios
do que se foi, e não se saberá.
Caberá, se um dia amante
relendo antigas poesias,
entrever tantas mulheres comungadas
em profanos rituais e sacrifícios
cujos segredos jamais se saberá.
Mas, amor, se me tens assim, já ido
mesmo que brandindo, patético
espadas e bandeiras em combates
inúteis, não lamentes, nem chores:
de teu amor, tudo se enuncia.
Saberás, só tu, que a nada me neguei
invocando os mistérios de teu riso
de tanto que te amei, um dia...
(scs-06nov13-p/j. d'arc)
9 de jul. de 2013
Deusa caída
Caio Martins.
Na caminhada pela praia percebera de súbito, naquele fim de tarde de lua a leste e sol sumindo no outro lado, que não mais a olhavam como antigamente. Incômodo espinhoso, o “insight”. Os homens sem distinção devassavam, babados, as ninfas arrogantes e protusas exalando feromônios, como fora um dia. As odiara intensamente no ato, em fúria primitiva quase insuportável. Se descompôs sem méritos. No quarto olhou-se minuciosamente ao espelho sob todos os ângulos possíveis da vã geometria. Achou-se decadente. Velha... Chorou miudinho por um tempo, desamparada na vasta cama vazia. De madrugadinha, veio a fome do pós-pranto. Ao menos estava viva, sentiu.
Assaltou a geladeira; pedaços da pizza de tomate seco, anchovas e uns queijos raros, coisas do amigo da tarde anterior. Vinho. Do balcão do apartamento no oitavo andar via-se o mar enluarado, ao longe, e a avenida vazia abaixo. Dos morros acima pareceu-lhe ouvir tiros. Não mais queria chorar e mastigou automaticamente. O vinho, todavia, recebeu solene ritual. Cheirou, saboreou devagar e então o aceitou, achou conforme. Vagava no tempo e memórias, histórias e acontecimentos. Sempre fora sedutora, desde menina. Exercera o ofício sem pressa, armando o jogo ancestral em minúcias, manipulando assombrosos poderes decorrentes como direitos absolutos e intemporais, próprios mais de divindades, não de meros mortais. Gostava quando homens e até mulheres chegavam batidos, afásicos, capazes de quaisquer loucuras para ao menos roçá-la. Fazia tempo... Seguiu olhando a imagem nua no espelho. Não estava feia, mas cadê seios espetados, bunda empinada, pernas esculturais, ventre plano e os grandes olhos verdes hipnóticos? A boca perfeita pedindo beijo? As mãos relicárias... rugas...
Viu-se no reverso do tempo e descobriu que havia tempos que assim ocorria preguiçosamente. Entre um gole de vinho e uma mordida na pizza emborrachada, convenceu-se de que não mais era deusa, que se lhe acabara o prazo e extinguia-se o império. De fato, a maldade do tempo a prostrara; a pele não era mais tersa, engordara e, horror, usava óculos. Pela primeira vez assaltou-a, frenético, pungente sentido de urgência e de morte. Porém, de barriga cheia e levemente etílica, não se confundiu. “ - Então era assim? Muito bem! Seria assim!”. Ligou ao amigo perto das quatro. Demorou a ser atendida. Sorria ao riso sonolento do outro lado. Disse não ser doida, mas carente, não ser promíscua, mas afoita e que ele tinha a obrigação de zelar pelo seu status, bem estar; que se danasse a reputação... Imaginava que ele já se vestia, que estava no carro, que tocava o botão da portaria e entrava com o celular ao ouvido, como era de costume. Que ia à geladeira, pegava o que restara da pizza - reclamando que não lhe deixara nada - servia-se de vinho e, esparramando-se no sofá, a convidava a acompanhar, sempre ao telefone.
Mas só perguntou-lhe, terno e quase dormido, se queria que fosse lá. Ela, do balcão, disse-lhe que não, pois queria pular lá embaixo. Ele engasgou, incrédulo:
Mas só perguntou-lhe, terno e quase dormido, se queria que fosse lá. Ela, do balcão, disse-lhe que não, pois queria pular lá embaixo. Ele engasgou, incrédulo:
- Como é que é?
- Quero pular lá embaixo!
E pulou...
(scs-09/07/13)
14 de mai. de 2013
Garcia Lorca
Escolheu-te ofício áspero, ingrato
de destilar em versos tantos fatos
e dar-te em vez de sóis ou luz de lua
o horizonte escuro, ao rés das ruas.
Te acompanharam sempre os libertários,
as putas com a escória, incendiários.
Te acompanharam sempre os libertários,
as putas com a escória, incendiários.
Por cantares no amor, os seus amores
verteram o teu sangue, os ditadores.
Espanha cinza de Garcia Lorca!
Longe de tuas guitarras, vinho e dança
tirou-te a vida, a bala, em fúria torta!
Partiste sem grinaldas, excelências,
qual criança de encontro com a morte
restando do teu sangue a tua ausência.
Partiste sem grinaldas, excelências,
qual criança de encontro com a morte
restando do teu sangue a tua ausência.
10 de mai. de 2013
Acalanto
tensa e pretensa e perdida
sem bilhete de volta, diluída
no tapete feroz das ruas
passeios, avenidas...
Comoveu-me teu olhar
de susto, como fosses nua
teu tremor de frio, uma
expressão crua
como que ante um massacre...
Comoveu-me tua beleza
gasta, de menina acre
em bordéis intangíveis
puxados sem pudor onde a fúria
dos homens desatina.
Abriria, não fosse o cansaço
de tantas guerras, incúrias,
braços gentis num abraço
e choraria teu pranto, pronto
cúmplice tonto, aos pedaços.
Mas, sem (a)deus te foste
tragada pela multidão faminta
e o mercado e o circo e a feira
- ávidos de fel e restos e mortalhas -
me restaram sem bandeiras.
me restaram sem bandeiras.
A noite, em espanto cinza
(o Sol, covarde, ocultou-se!)
ruiu ao teu ir de desencanto
e mudo, sorumbático, ranzinza
fui beber um acalento.
fui beber um acalento.
Soturno poeta do efêmero
travou-se, seco, meu verso.
No bar, morreu meu canto. (scsul - 10/05/13)
24 de abr. de 2013
Vertentes
Caio Martins

imgart: cvm - kate beckinsale - tv - abril 2013).
Mesmo que vás
ou eu claudique
- descompasso
de caóticas vertentes -
não te deixarei, renuente do que amo, tentes ver...
Quimeras vãs, sussurros
clandestinos delirantes
não perfazem tessituras
do que não foi, senão amor,
coisa vã e desvarios
de frágil mente amante...
Se fores luz
serei tua sombra
se pele
serei teu beijo...
Mas, a dor do não ter-te,
não é menor à de perder-te.
Amar... vertentes...
Tentes ver
que a mente amante
mente...

imgart: cvm - kate beckinsale - tv - abril 2013).
Mesmo que vás
ou eu claudique
- descompasso
de caóticas vertentes -
não te deixarei, renuente do que amo, tentes ver...
Quimeras vãs, sussurros
clandestinos delirantes
não perfazem tessituras
do que não foi, senão amor,
coisa vã e desvarios
de frágil mente amante...
Se fores luz
serei tua sombra
se pele
serei teu beijo...
Mas, a dor do não ter-te,
não é menor à de perder-te.
Amar... vertentes...
Tentes ver
que a mente amante
mente...
2 de abr. de 2013
O desastre
Caio Martins
Virou-lhe a vida de cabeça para qualquer lado, em órbita incerta e despropositada. Ela chegara com jeito de nem ser ou estar, descuidado e proposital, ingênuo e premeditado. Enfim: nada ficara no lugar. Não adiantam manhas e lamentações, no amor e na guerra, após os fatos consumados. Deixara... Não por incauto, menos ainda por safado, mais por curiosidade inquietante sobre a mulher que lhe entrara na pele como se fora tatuagem clandestina. Pretendia conhecê-las, às mulheres, eterno fascínio de uma trajetória tumultuada não apenas por amores, mas, ódios e rancores, cenas de “- Vou te matar!” ou “- Graças a deus que existes!” intercalando-se, desde a primeva paixão pelas pernas de uma amiga da tribo...
Verão cáustico, ele mal saído da casca do ovo e viera, a talzinha, tagarelar e refrescar-se na cozinha da mãe, entre os mágicos tijolões vermelhos do piso e o enigmático forro de ripas cruzadas. Levantara a saia florida até dois terços da marmoreada coxa para ventilar-se. Fascinara-se pelas pernas morenas. Chegara de mansinho e passara a pueril mãozinha na coxa macia e terna e lisa, os olhos grudados nos da dona. Ia e voltava, a infantil mãozinha, a morenice da vítima acalorando-se em rubores e espanto, surpresa e danação... A mãe era sábia. Fizera não ver, encerrara rápida a tertúlia, a outra se fora e nunca mais se tocara no assunto. Contudo, a imagem e a textura, a calidez e maciez daquelas coxas morenas o acompanharam de por vida.
Áspero executivo de “TI” vezado em árduos, porém doces combates, excepcionais vitórias e acachapantes derrotas no trato com a misteriosa e diáfana essência feminina, ternamente sedutor e raramente convergente, mantinha-se, heroico, incólume nos seus bastiões e fortalezas, crivadas de cercos táticos e estratégicos, todavia sempre alerta a ataques e invasões. Diziam dele, as moçoilas requestadas, ser gentil e cavalheiro, habilidoso nos ofícios dentre lençóis e generoso nas dádivas materiais. No extremo elíptico do caso das coxas, estava essa última paixão violenta e fustigante cujos alarmantes efeitos colaterais perduraram, após o catastrófico final, alguns anos. Bastou-lhe, um dia, lendo e-mail contendo na essência uma declaração de guerra (“Quem é essa bruaca que vive lhe deixando mensagens pela rede, hein?”) e caiu-se de ardores pela remetente.
Assim, naquele calorão demoníaco de solstício austral carioca quando a viu, intimorata, entrar por sua porta num florido e translúcido vestido “maria-mijona” clássico e sandalinhas de tiras, mais nada, jogar a bolsa de juta trançada no seu sofá e sentar-se sem cerimônias à sua mesa, de início, pasmou... Abestalhou-se indefectivelmente ao ela prender negros cabelos num vertiginoso e hábil coque espetando uma caneta para ancorá-lo ( - Que lindo pescoço, ombros!...), momento em que rematou-se-lhe o desastre: abanando-se com uma revista, recolhera o vestido e jamais, naquele moderníssimo antro de práticas insondáveis, viram-se tão lindas coxas morenas originais... Veio, feito cachorro pidão, aos seus pés e repetiu, patético, a ancestral cena atávica, desta vez sem a inoportuna intervenção materna.
O excedente, como o vestido maria-mijona escorregando como que com vida própria e as inevitáveis consequências, ficam pudorosamente ao bel-prazer de cada qual. Houve, naquele verão tórrido, tantas quedas de barreiras e inundações e enchentes que, uma a mais, uma a menos, não fez diferença. O bicho pegou catastrófico e a valer, quando ela (deixando nota às suas queixas angustiadas da calamidade que causara dizendo que “... quanto ao estrago, até que não te fez mal, vai!”) se foi à revelia para New York no outono, tingida de loira, “vestida para matar” e com um gringo desmilinguido, romântico insurrecto contra Wall Street, Bill Gates e “fast food”...
(img: brocato ocre - fábian pérez )
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