15 de set. de 2014

BRANCO E PRETO

Caio Martins.
 


















 (img: cvm - 2001 - lucienne P&B – tela)


Prefiro-te assim
parca foto em branco e preto
despida de fantasias
só montada em teus desejos.
Quando vens transida, nua
com teus caracóis e tuas tranças
tuas bocas sábias, tanto enleio
teu cheiro de mar,
teu gosto de frutas
a magia dos teus seios.
Quando te debruças
e me resvalas em silêncio
sem pudores, contida
e louca
premeditada
e inerme...
Quando vens
despida de roupas, jóias
tintas, supérfluos requintes
sem compromisso
senão com teus instintos.
Quando vens, inteira
matreira e articulada e voraz  
feito um bicho...
(São Caetano do Sul - 15/09/14)

6 de mai. de 2014

MENINA TRISTE

Caio Martins














 


(img: nathalia - aquarela - P&B - 04/05/14)

Tens no teu olhar um desvanecimento
como se foras a névoa de outono
que lassa e tão perdida em abandono
dissesses, ao passar, de sofrimentos.
 

E segues só, dobrando tuas esquinas
enquanto ao derredor estrala a guerra
inclemente das ruas, que aterra
tantos sonhos perdidos de menina.

Quebrei-me desarvorado em tuas quinas
andarilho em vão, fugaz pó de terra 
que ao ter-te não percebeu os teus lamentos.


Perdidos no cansaço que extermina
tanto amor,  é quando então de rumo erra
tamanha paixão, teu cio e meu tormento.

scs - 04/05/14.


8 de abr. de 2014

O ACASO

Caio Martins

À frente, a mulher com o rosto dividido entre parca luz e densas sombras. Ao lado o estacionamento lúgubre, vazio e, após ele, a rua desiluminada com predadores rondando. Sentia-lhe o calor e o cheiro, ouvia os passos das feras em atalaia. Lugar perigoso, absconso, propício para a consumação de um crime. Temeu por ela. O 38 tirado das garras de um pivete há meses incomodava, na virilha; o cano na cara mudara de mão num átimo, massacrara o delinquente porém, por motivos ao acaso, não o matara. Ficara com a arma.

A mulher, de traços lapidados com suavidade e perfeição, falava descontraída, não pressentia os perigos. Ele persistia no eterno estado de alerta, embora a beleza e candura atenuassem a prontidão. Fora uma vida inteira assim mas, mesmo que sitiados pela cidade, não havia como ficar totalmente imune à sedução espontânea e invulgar, que o atingia mesmo que nela não se fixasse. Não necessitava esquadrinhar um território para saber-lhe os mistérios e trilhas. Era-lhe natural mapear aparências e formas sem precipitações ou hipóteses; via, e sabia.
 
Olhou-lhe um instante o arfar, na escuridão a meialua crescente; aspirou fundo o ar, atentou ao ruído dos grilos e carros e passos na rua. Ao longe, latia um cão. Por acaso, viu-se envolvido num sortilégio. A mulher era belíssima. Era, inconsciente, todas as mulheres que lhe haviam contado e perguntado sobre tantas cicatrizes. Que poder sortílego emanava dos traços, dos gestos, da voz, da forma cênica de mirá-lo, entre luz e sombra... e o cheiro, entre flor e fruta, entre luar e maresia. Sorriu contrafeito, ao pegar-se emocionado. Levou-a ao carro, estremeceu ao beijo na face e abraço e calor irresponsáveis, perscrutou a saída desde os telhados à mais insignificante sombra fugidia dos meiofios e lhe disse, parco: "- Vá agora!".

Não houve réplicas. Foi. Temeu, ainda que raro instante, pelo que lhe poderia acontecer nas ruas antes dela chegar à própria toca na qual, feito menina, se aconchegaria nas almofadas do sofá e abraçaria um velho urso desmontado, de pelúcia. A sensação de conforto cortou-se abruptamente: sequer percebera o moleque aproximar-se furtivo e, feroz, descarregar-lhe uma arma nas costas. Nada é por acaso...

(img: cvm - yara35-2008/sp sobre lua crescente 03/2014/scs)

23 de mar. de 2014

Trânsfugas

Caio Martins 
















(img: - cvm - jakie/71)

Te vais de mim
assim mansamente
como um sopro, um
frágil suspiro...

Me deixas na pele
trilhas imprecisas
em meus olhos tua voz
a dizer que me amas.

Por tudo teu cheiro
na boca teu gosto
na cama a calcinha
na mente o caos.

E te esvais de mim...
Eu deveria morrer de desgosto!

Mas, amor, vens e teu poeta
trânsfuga irreparável
dentre tantas Musas vadias
abre porta, braços, geladeira...

Somos depois, enfim,
- entre uma cerveja vulgar
e prosaicas batatas fritas -
o mesmo verso tosco
a mesma torpe poesia.

2 de jan. de 2014

Oceânico

Caio Martins 


Tens, meu amor, em teu olhar
traços de orvalho oceânico
que só os leem sobreviventes
de holocaustos e fins dos tempos
veteranos de amor e guerra
eternos insensatos insolentes.

Deslizo em ti sem que pressintas
e te abraço como um náufrago
contido na boca do pânico
e lamentas e ris e dizes
palavrões e rezas e quebrantos
e me olhas assim sem ver-te
entre delírios, fúria e vaidade...

Tens no olhar fulgores e tormentas
e navego em ti, argonauta solerte
que teme, porém ama as tempestades.

16 de dez. de 2013

Verão

Caio Martins













(foto:cvm - orquídeas - dez.2013)

As flores vadias das ruas
enciumadas
espiam as moças que passam
seminuas
vestidas de verão...

26 de nov. de 2013

Não olhes assim

Caio Martins
















(img: d. richards- tv - 2013 - tela)

Sei dos teus caprichos
marcas, cicatrizes e feitiços
paixão e ira em solstícios
além de qualquer previsão.

Sei de teus amores e sumiços
pendores e calores e odores
ódios e desejos e clamores
riscando o universo de giz.

Não inventei tua beleza
nem és assim por que eu quis
e se me perdi em teus nichos
não é o amor que se desfaz.

O tempo é que é curto e que surta
e encurta e furta a leveza, mas
não me olhes assim, feito bicho!

6 de nov. de 2013

Resquícios

Caio Martins
















(img: cvm - anne67 - 2001) 

Quando eu me for, não lamentes...
Por favor, não chores!

Terás, de meu acidioso ofício
de insanas batalhas contra o Tempo
versos, montes de palavras vadias
fotos de flores, velharias, resquícios
do que se foi, e não se saberá.

Caberá, se um dia amante
relendo antigas poesias,
entrever tantas mulheres comungadas
em profanos rituais e sacrifícios
cujos segredos jamais se saberá.

Mas, amor, se me tens assim, já ido
mesmo que brandindo, patético
espadas e bandeiras em combates
inúteis, não lamentes, nem chores:
de teu amor, tudo se enuncia.

Saberás, só tu, que a nada me neguei
invocando os mistérios de teu riso
de tanto que te amei, um dia...

(scs-06nov13-p/j. d'arc) 

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