Éramos felizes, e sabíamos...

Caio Martins

Para Aracéli, com carinho.

“Eu vi o mundo mudar!” (Arlete Marques - 21/10/2011)

Meio século atrás, fins de 1961, cento e setenta e sete jovens se agitavam nos preparativos para sua formatura no Colégio Estadual e Escola Normal Cel. Bonifácio de Carvalho. Seriam a primeira turma de formandos desde a inauguração da escola, em 1958. Resultado de visão de mundo ampla e consequência da política educacional do Estado, na época, era considerada padrão nacional e motivo de orgulho para São Caetano do Sul.

Naqueles anos, embora o mundo conhecesse fenômenos como a Guerra Fria, fortes tensões no Oriente Médio e Sudeste da Ásia, a Revolução Cubana na América Latina e outras comoções, o governo de Juscelino Kubistchek de Oliveira abrira amplos espaços democráticos entre 1958 e 1961, e a cidade conhecia momento especial do florescer de empreendimentos industriais e comerciais, de obras, da educação pública, das artes, esportes, num intenso dinamismo social. Brasília era o ícone do momento.

E esses jovens chegavam a um momento decisivo: terminava o período de “imposição” escolar, abrindo-se as perspectivas de escolha de caminhos, visando a vida profissional. Vinham de um sistema dirigido, no qual entraram por seleção, via um “exame de admissão”. Era difícil, ingressar no ginásio das escolas públicas. O critério era qualitativo e, as vagas, para quem demonstrasse capacidade.

Mas, quem eram? Como viviam? Quais os sonhos, convicções, e como se integravam na sociedade? Quais as regras do jogo para quem vivia a metade da adolescência a caminho da vida adulta? O entorno era seguro e protetor, as principais questões se referiam a um modo de ser dinâmico, no qual havia normas e responsabilidades, fantasias e tabus, e o ambiente escolar era o centro de suas vidas. Raríssimos, os transgressores.

Não era fácil lidar com aquelas normas - fossem da moral familiar vigente, fossem as de conduta escolar - a energia transbordando e o inesgotável desejo de tudo saber e de tudo participar. Contavam com um trunfo às vezes incômodo, noutras extremamente aliciante: a qualidade do ensino e  dos mestres, e a relação de carinho e respeito mantida sem maiores esforços, dada a consciência de papéis e de objetivos.

Ninguém se rebelava ao ser mensalmente avaliado, com notas nos boletins escolares: medo de errar por não ter estudado ou por insegurança sempre havia mas, havia também um orgulho de cumprir etapas, embora, algumas vezes, uma “colinha” aqui, outra ali não fossem considerados graves pecados. Aprendia-se rápido, e bem. A relação pais/escola era consistente, valorizando professores, alunos e o estudo. Funcionava, o sistema.

Matérias indigestas (e obrigatórias) como Latim, Canto Orfeônico e Trabalhos Manuais conviviam com Português, Francês, Inglês, História, Desenho, Ciências, Matemática, Geografia e Educação Física: esta, glória para os mais aptos, e uma tortura para os menos. Completando, havia exame escrito e oral, no fim do ano. Quem escorregasse em alguma matéria ficava para “segunda-época”, realizada em fevereiro e, caso “levasse bomba” dois anos seguidos, estava fora, era “jubilado”.

Nas relações da moçada com a entidade “Escola”, no Cel. Bonifácio de Carvalho, havia interação dialética entre o meio, o ensino e o aprendizado. Havia, naturalmente, uma eventual “apaixonite” por um professor ou professora, baita bronca quando um “inspetor de alunos” era mais severo e dava um “gancho” de um ou mais dias aos mais rebeldes e afoitos; geralmente, os meninos. A escola, de fato, era nossa.

Entre si, a eterna curiosidade entre gêneros, as atrações às vezes intensas, noutras meramente experimentais, com o pormenor de que o coleguismo e os tabus da época transferiam valores e princípios que vinham de casa, da família. Seu peso maior recaía nas meninas, que não podiam se soltar além de limites bastante restritos, sob o risco de ficarem “faladas”. Os meninos, via de regra, tratavam as colegas quase como irmãzinhas.

Namoricos, namoros, paqueras enfim, ocorriam nos amplos jardins da escola, nos bailinhos semanais no "Grêmio Estudantil 28 de Julho", casas das famílias e, com mais solenidade, nos clubes da cidade, como o São Caetano,  o Comercial, o Teuto ou locais como o Palácio de Mármore, no Moinho São Jorge, em Santo André. Aliás, onde se deu o Baile de Formatura dessa primeira turma de formandos. Cinemas como o Cine Vitória, Cine Max, Lido (ex-Urca), Primax e Sagrada Família eram também pontos de encontro da garotada.

Não havendo discriminações, convivendo ativamente durante a semana na escola e nos sábados, domingos e feriados naqueles locais, evidentemente os laços eram fortes. Deles, e por eles, decorreu um período alegre e intenso, divertido e produtivo, sob a égide de um ensino de notável qualidade.

Artes, esportes, conhecimentos, descoberta do panorama das relações pessoais com suas possibilidades e limites, laços afetivos de admiração, carinho e respeito com a Escola, seus professores e funcionários, amizades perenes e já um gostinho de saudade marcaram o término do final de curso.  

Entregues os diplomas, desfrutado o baile, abriu-se, factualmente, a primeira escolha destinada a marcar os rumos da vida dos formandos: eleger entre os cursos Clássico, Normal ou Científico, de acordo não só com preferências e inclinações, porém - e talvez com mesmo peso - pelas decisões familiares. A seguir, viriam o ensino superior e a vida profissional.

Foram bem preparados, viveram intensamente sua época, participaram amplamente de um dos momentos mais preciosos da vida, a juventude, em condições admiráveis:

- Éramos felizes, e sabíamos!

 
(Artigo pulicado na revista "Raízes" nº 44 - dezembro de 2011 - Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul.)
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6 comentários:

  1. Caio
    Que texto "fenômeno". Sabe qual a minha avaliação daqueles idos memoráveis que você tão bem coloca, tendo como ponto principal o "Bonifácio de Carvalho", no qual ambos estudamos?
    Eramos felizes sim, mas meio indiferentes. Alguém deveria nos ter avisado para que fôssemos mais felizes ainda, com consciência daqueles tempos que só quem viveu é que sabe. Forte abraço. Milton Martins

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    1. Grato por suas palavras, Milton! Éramos tão intensos que não tínhamos nem tempo, nem sabedoria suficientes para desfrutar totalmente daquela felicidade; mas, o que foi vivido valeu, e ainda vale. Abração!

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  2. Um documento da época. Pode ter certeza que o valor histórico da crônica é grande. Muito fiel e traz de volta coisas das quais havíamos "esquecido", mas continuavam vivas, à espera de que alguém as mostrasse. Em certa medida também somos a soma de nossas lembranças. Muito bem lembrado, Caio.

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    1. Aracéli, a intenção foi, talvez, mais literária que documental, mas ganhou feitio e linguagem próprias, como soe acontecer. Espero que essas recordações tenham abrigo em todos que viveram - e intensamente - essa época. Beijos.

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  3. Vim pelo título e me deparei com um texto gostoso de ler.
    O que me me chamou a aenção é o modo de como a
    vida social era construida e
    mantida pela escola - pais, professores e alunos.
    Hoje a escola está distante deste papel social.

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    1. Grato por suas palavras, Maria Coelho. Tivemos o privilégio de viver época na qual o valor dava-se pelo mérito, não pela complascência ou ardis. Tirar da escola o papel positivo que representava foi o primeiro passo para a imposição do que vemos hoje em dia. Levará muito tempo e muita luta reconstruir o que foi desconstruído, mas sei que lá chegaremos. Abçs.

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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