2 de abr de 2013

O desastre

Caio Martins

Virou-lhe a vida de cabeça para qualquer lado, em órbita incerta e despropositada. Ela chegara com jeito de nem ser ou estar, descuidado e proposital, ingênuo e premeditado. Enfim: nada ficara no lugar. Não adiantam manhas e lamentações, no amor e na guerra, após os fatos consumados. Deixara... Não por incauto, menos ainda por safado, mais por curiosidade inquietante sobre a mulher que  lhe entrara na pele como se fora tatuagem clandestina. Pretendia conhecê-las, às mulheres, eterno fascínio de uma trajetória tumultuada não apenas por amores, mas, ódios e rancores, cenas de “- Vou te matar!” ou “- Graças a deus que existes!” intercalando-se, desde a primeva paixão pelas pernas de uma amiga da tribo...

Verão cáustico, ele mal saído da casca do ovo e viera, a talzinha, tagarelar e refrescar-se na cozinha da mãe, entre os mágicos tijolões vermelhos do piso e o enigmático forro de ripas cruzadas. Levantara a saia florida até dois terços da marmoreada coxa para ventilar-se. Fascinara-se pelas pernas morenas. Chegara de mansinho e passara a pueril mãozinha na coxa macia e terna e lisa, os olhos grudados nos da dona. Ia e voltava, a infantil mãozinha, a morenice da vítima acalorando-se em rubores e espanto, surpresa e danação... A mãe era sábia. Fizera não ver, encerrara rápida a tertúlia, a outra se fora e nunca mais se tocara no assunto. Contudo, a imagem e a textura, a calidez e maciez daquelas coxas morenas o acompanharam de por vida.  
 
Áspero executivo de “TI” vezado em árduos, porém doces combates, excepcionais vitórias e acachapantes derrotas no trato com a misteriosa e diáfana essência feminina, ternamente sedutor e raramente convergente, mantinha-se, heroico, incólume nos seus bastiões e fortalezas, crivadas de cercos táticos e estratégicos, todavia sempre alerta a ataques e invasões. Diziam dele, as moçoilas requestadas, ser gentil e cavalheiro, habilidoso nos ofícios dentre lençóis e generoso nas dádivas materiais. No extremo elíptico do caso das coxas, estava essa última paixão violenta e fustigante cujos alarmantes efeitos colaterais perduraram, após o catastrófico final, alguns anos. Bastou-lhe, um dia, lendo e-mail contendo na essência uma declaração de guerra (“Quem é essa bruaca que vive lhe deixando mensagens pela rede, hein?”) e caiu-se de ardores pela remetente.

Assim, naquele calorão demoníaco de solstício austral carioca quando a viu, intimorata, entrar por sua porta num florido e translúcido vestido “maria-mijona” clássico e sandalinhas de tiras, mais nada, jogar a bolsa de juta trançada no seu sofá e sentar-se sem cerimônias à sua mesa, de início, pasmou... Abestalhou-se indefectivelmente ao ela prender negros cabelos num vertiginoso e hábil coque espetando uma caneta para ancorá-lo ( - Que lindo pescoço, ombros!...), momento em que rematou-se-lhe o desastre: abanando-se com uma revista, recolhera o vestido e jamais, naquele moderníssimo antro de práticas insondáveis, viram-se tão lindas coxas morenas originais... Veio, feito cachorro pidão, aos seus pés e repetiu, patético, a ancestral  cena atávica, desta vez sem a inoportuna intervenção materna.

O excedente, como o vestido maria-mijona escorregando como que com vida própria e as inevitáveis consequências, ficam pudorosamente ao bel-prazer  de cada qual. Houve, naquele verão tórrido, tantas quedas de barreiras e inundações e enchentes que, uma a mais, uma a menos, não fez diferença. O bicho pegou catastrófico e a valer, quando ela (deixando nota às suas queixas angustiadas da calamidade que causara dizendo que “... quanto ao estrago, até que não te fez mal, vai!”)  se foi à revelia para New York no outono, tingida de loira, “vestida para matar” e com um gringo desmilinguido, romântico insurrecto contra Wall Street, Bill Gates e “fast food”...

(img: brocato ocre - fábian pérez ) 



8 comentários:

  1. Ainda não consegui entender as mulheres, seja no solstício ou no equinócio. Não sei se finge ou fala a verdade, se chora ou ri por dentro, e não consigo saber nunca quando o seu 'talvez' é um sonoro não.
    Dose forte, Caio!
    Abraço,
    Jorge

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    1. Assim é, Jorge! Enquanto princípio gerador universal e força da Natureza, o feminino não exige entendimento, mas, aceitação. Não há o que fazer! Quando muito, maravilhar-se e, havendo, dar um jeito nos estragos... Forte abraço!

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  2. Rabo de saia é fogo, irmão, dali tudo se espera! Meu abraço.

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    1. É vero, Jota... mas melhor é sempre nada esperar, pois o que vem de vontade própria sempre é altamente significativo. É delas acentuadamente o dom da sedução; aceder, resistir, desfrutar ou fugir, são inevitáveis escolhas de momento. Quem inventou, sabia o que estava fazendo... Abração!

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  3. Gostei muito da crônica. O interessante é que o texto está entre o conto e a crônica. Abraço!

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    1. Que bom que lhe agradou, Maria! Quanto à classificação, evidentemente há despreocupação com formas ou fôrmas (mais por limitações acadêmicas que por preguiça). Prefiro deixar, ao texto curto, que flua livremente em função do conteúdo.
      Grato pela visita, volte sempre que a casa é sua! Abraços...

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    2. Na verdade, o que chamou-me atencao no texto
      quanto à classificacao, nao foi a forma literaria e sim
      o modo como conduziu a estoria. Iniciei lendo como um
      conto, e so no final me deparei com uma cronica, entao pensei
      quero escrever assim. Gosto de tudo que leio neste blog,, ate as
      poesias mais intelectuais ... nao e critica e sim elogios.
      desculpe-me a falta de acentos, o teclado e de celular. abraco

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    3. Não se preocupe, Maria! É com as críticas que evoluímos, certo? Novamente agradeço suas palavras, você é muito gentil! Abraços!

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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