30 de ago de 2009

COISA FEITA


Caio Martins

Caboclinho calado e magricela, moleque danado posto no eito desde os nove como nos conformes de então e nas lidas da roça, arrastou-se feito cobra entre as taboas do alagado, caçando o vozerio. Falavam arrastado em italianado brasileiro, rindo muito. Assunto? Daí ferveu o sangue: os labrostes falavam de sua mãe, imigrante italiana que, depois de doze filhos, ainda era faceira. O pai, que já fora ilustre nos tempos fartos do café e ia e vinha ao Porto de Santos negociar colheitas na rama, caíra em desgraça por preferir a linda taninha, de treze anos e analfabeta, a uma prima troncha e ilustrada, para garantia das posses da família. Deram-lhe pedaço de terra e o banimento; e um desapego que o acompanhou por vida.

Levavam espingardas e o carcamano debochado e falador, dono da única venda da região, duas garruchas 44 tauxiadas de prata, na cinta. A fúria se aguentou no freio, escorregou feito caxingui e saiu do risco. Subiu, depois da mata, a estrada esburacada e pedregosa, já nas terras do pai. Parou na capelinha e caldeou jura de morte. Não lhe dissera, o velho Aquiles - jagunço que fora pé-de-tronco de Dioguinho nos fins dos oitocentos e que lhe fizera a mão nas armas, que mãe era coisa sagrada? Foi a passo, o sol queimando as costas, aquecendo venenos. Sábado, estavam todos no descanso e preparando o terço. Entrou quieto e saiu calado, a papo-amarelo de esguelha já carregada e o resto da munição no embornal. Pegou o burro Sereno - que burro não dá incerteza - no cabresto, pulou encima em pelo e refez a trilha, a passo.

Desceu fino ante as seis portas da venda, o debochado e a caterva riam no balcão. Chegou manso, cabeça baixa e olhando de lado, de repente falou o nome do sujeito e perguntou que é que estava falando da mãe. Do riso fez-se silêncio de pegar com a mão. Antes de ouvir o “- Que é que tá dizendo, moleque!” - já pipocou o primeiro tiro que torou a ponta da orelha do fulano e botou, eram uns cinco ou seis, os basbaques em correria. E foi a carga toda, menos duas balas, arrebentando garrafas, arrancando trens das prateleiras e, a última, quando o carcamano pulou a janela do fundo, tirou-lhe lasca da bunda. Com duas, ainda tinha de quê se valer no recuo, se acossado, aprendera com o padrinho, o Grande. Saiu devagarinho, solerte, metendo mais munição na carabina. Por todo lado, ninguém. Escafederam.

Chegou em casa na toada em que foi. Na cozinha, pegou os apetrechos do pai e limpou a cortadeira, cuidadosa e concentradamente. A mãe veio e perguntou que diabos andava fazendo com a carabina, no seu sotaque siciliano arrastado e o vestido de terço azul, de golinha e florezinhas fru-fuzando. Disse que só fora afinar a mira, que depois falava com o pai. Veio este, alarmado e bufando. Saíram ao pátio de secar café e contou-lhe os fatos da coisa feita, curto e certeiro. O homem tropicou nos cascos. Parando de xingar, olhou duro o moleque nos olhos, segurando-o pelos ombros e sacudindo:

- Fiadaputa! Cabeça de mula! Por que não me disse antes de armar essa desgraçeira? Eu é que tenho de resolver isso! Por que?
- Porque se o senhor vai, aí ‘tava o boi no chão... Ia e matava. Não tinha senão...
- Senão? Que bosta de senão, seu besta?!
- Daí a mãe ficava sem marido e nós sem pai. Eu sei onde atiro. Eu sumindo, é boca de menos e a família segue sem mais... Mas dá em nada, pai, esse se mete no cu do mundo e nunca mais fala da mãe de ninguém. É um cagão, pai, vai ter outra vez não...

Levou um chacoalhão, sonoro cascudo na cabeça e sapatão na bunda, a ordem de arrumar uma trouxa de roupas, pegar o Sereno e amoitar-se, uns tempos, na distante Lagoa Preta, na casa dos parentes. Lá ainda mantinham, naquele primeiro quarto de século, jagunços e arsenal. Foi. Um tempo, e voltaria herói da mãe, cisma do pai e orgulho do Aquiles Grande, o último dos trabuqueiros. O carcamano sumira e, diz quem conta, estaria correndo até hoje, no Inferno, com o Tinhoso cascando-lhe fogo no rabo.

(img: cvm - pietá - michelangelo, sobre arquivos)

2 comentários:

  1. Que pena! Acabou, queria ler mais. História típica do interior brasileiro, contada por um mestre.
    Sempre que quer, o meu amigo Caio Martins é um rolo compressor. Por onde passa, o terreno fica plano.
    Abraços.

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  2. Guilherme JR.3/9/09 16:19

    "Causo" bem contado de forma simples e direta, tornando-se mesmo um documentário. Retrata o machismo de uma época, enfrentado pelo "sentimento de honra" de um menino e põe, nos detalhes, interrogações a respeito de quem eram e que faziam os personagens secundários, como o "jagunço" Aquiles. Para ler e reler com calma.

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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