24 de abr de 2013

Vertentes

Caio Martins















imgart: cvm - kate beckinsale - tv - abril 2013).


Mesmo que vás
ou eu claudique
- descompasso
de caóticas vertentes -
não te deixarei, renuente
do que amo, tentes ver...

Quimeras vãs, sussurros
clandestinos delirantes

não perfazem tessituras
do que não foi, senão amor,
coisa vã e desvarios
de frágil mente amante...


Se fores luz
serei tua sombra
se pele
serei teu beijo...
Mas, a dor do não ter-te,
não é menor à de perder-te.

Amar... vertentes...

Tentes ver
que a mente amante
mente...

2 de abr de 2013

O desastre

Caio Martins

Virou-lhe a vida de cabeça para qualquer lado, em órbita incerta e despropositada. Ela chegara com jeito de nem ser ou estar, descuidado e proposital, ingênuo e premeditado. Enfim: nada ficara no lugar. Não adiantam manhas e lamentações, no amor e na guerra, após os fatos consumados. Deixara... Não por incauto, menos ainda por safado, mais por curiosidade inquietante sobre a mulher que  lhe entrara na pele como se fora tatuagem clandestina. Pretendia conhecê-las, às mulheres, eterno fascínio de uma trajetória tumultuada não apenas por amores, mas, ódios e rancores, cenas de “- Vou te matar!” ou “- Graças a deus que existes!” intercalando-se, desde a primeva paixão pelas pernas de uma amiga da tribo...

Verão cáustico, ele mal saído da casca do ovo e viera, a talzinha, tagarelar e refrescar-se na cozinha da mãe, entre os mágicos tijolões vermelhos do piso e o enigmático forro de ripas cruzadas. Levantara a saia florida até dois terços da marmoreada coxa para ventilar-se. Fascinara-se pelas pernas morenas. Chegara de mansinho e passara a pueril mãozinha na coxa macia e terna e lisa, os olhos grudados nos da dona. Ia e voltava, a infantil mãozinha, a morenice da vítima acalorando-se em rubores e espanto, surpresa e danação... A mãe era sábia. Fizera não ver, encerrara rápida a tertúlia, a outra se fora e nunca mais se tocara no assunto. Contudo, a imagem e a textura, a calidez e maciez daquelas coxas morenas o acompanharam de por vida.  
 
Áspero executivo de “TI” vezado em árduos, porém doces combates, excepcionais vitórias e acachapantes derrotas no trato com a misteriosa e diáfana essência feminina, ternamente sedutor e raramente convergente, mantinha-se, heroico, incólume nos seus bastiões e fortalezas, crivadas de cercos táticos e estratégicos, todavia sempre alerta a ataques e invasões. Diziam dele, as moçoilas requestadas, ser gentil e cavalheiro, habilidoso nos ofícios dentre lençóis e generoso nas dádivas materiais. No extremo elíptico do caso das coxas, estava essa última paixão violenta e fustigante cujos alarmantes efeitos colaterais perduraram, após o catastrófico final, alguns anos. Bastou-lhe, um dia, lendo e-mail contendo na essência uma declaração de guerra (“Quem é essa bruaca que vive lhe deixando mensagens pela rede, hein?”) e caiu-se de ardores pela remetente.

Assim, naquele calorão demoníaco de solstício austral carioca quando a viu, intimorata, entrar por sua porta num florido e translúcido vestido “maria-mijona” clássico e sandalinhas de tiras, mais nada, jogar a bolsa de juta trançada no seu sofá e sentar-se sem cerimônias à sua mesa, de início, pasmou... Abestalhou-se indefectivelmente ao ela prender negros cabelos num vertiginoso e hábil coque espetando uma caneta para ancorá-lo ( - Que lindo pescoço, ombros!...), momento em que rematou-se-lhe o desastre: abanando-se com uma revista, recolhera o vestido e jamais, naquele moderníssimo antro de práticas insondáveis, viram-se tão lindas coxas morenas originais... Veio, feito cachorro pidão, aos seus pés e repetiu, patético, a ancestral  cena atávica, desta vez sem a inoportuna intervenção materna.

O excedente, como o vestido maria-mijona escorregando como que com vida própria e as inevitáveis consequências, ficam pudorosamente ao bel-prazer  de cada qual. Houve, naquele verão tórrido, tantas quedas de barreiras e inundações e enchentes que, uma a mais, uma a menos, não fez diferença. O bicho pegou catastrófico e a valer, quando ela (deixando nota às suas queixas angustiadas da calamidade que causara dizendo que “... quanto ao estrago, até que não te fez mal, vai!”)  se foi à revelia para New York no outono, tingida de loira, “vestida para matar” e com um gringo desmilinguido, romântico insurrecto contra Wall Street, Bill Gates e “fast food”...

(img: brocato ocre - fábian pérez ) 



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