6 de jan de 2015

ESPELHOS DE CAMARIM

Caio Martins
















(img: cvm - célia - 02/2001)

Trago fincados os cacos
da tristeza do que não fiz
das guerras que não travei
dos poemas que não escrevi
do vinho que não bebi
do tango que não dancei
na mulher que mais eu quis...


O mundo não dói, só rói
mansamente camuflado
como seu olhar suplicante
como seu olhar de louca
como o beijo de suas bocas
seus abraços delirantes
do jeito que eu sempre quis... 


Trago fincados os cacos
da tristeza que não me quis
e me olham, azuis assim,
teu olho esquerdo vulgívago
teu olho direito infeliz
multívagos estilhaços
de espelhos de camarim.

8 comentários:

  1. Eta, melancolia que tantos espelhos captam...

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    1. Diria, mais que melancolia, ressaca... O feito, feito está! O que não foi, são como reflexos de fantasmas impertinentes. Abração, Milton

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  2. É fato que nos arrependemos muito de coisas que deveríamos ter feito. Um belo poema, amigo Caio.
    Meu abraço!

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    1. Grande Jorge, não sei se seria arrependimento... Tem mais a ver com uma certa falta de ar.
      Abração.

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  3. Belíssimo poema, Caio! Na vida, infelizmente, precisamos fazer escolhas e, ao fazê-las, deixamos muitos sonhos de lado e, com eles, as saudades "do que não foi"... Pungente, para ler nas entrelinhas...

    Beijos

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    1. Obrigado, Márcia! "O que não foi" - seja por escolha ou acidentes de percurso - fatalmente nos levam ao que é, sem a percepção do vir a ser. É sempre metafísico e ligeiramente esotérico. De aí, as linguagens dispersas somente reveladas pela poética. Ou, uma fotografia em eterno negativo esperando a revelação. Beijos!

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  4. Respostas
    1. Jane Portella escreveu: "Seu belo poema, diferentemente do mundo, dói. Porque nos faz pensar nos sonhos que negamos. É como um vinho rascante, que dá um travo na garganta.
      beijo,
      Jane."

      Jane, grato pela presença. A linguagem dos poemas é quase sempre reversa, como a memória ou saudades. Às vezes, remexe velhas gavetas esquecidas... Abração!

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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