9 de jul de 2013

Deusa caída

Caio Martins.

Na caminhada pela praia percebera de súbito, naquele fim de tarde de lua a leste e sol sumindo no outro lado, que não mais a olhavam como antigamente. Incômodo espinhoso, o “insight”. Os homens sem distinção devassavam, babados, as ninfas arrogantes e protusas exalando feromônios, como fora um dia. As odiara intensamente no ato, em fúria primitiva quase insuportável. Se descompôs sem méritos. No quarto olhou-se minuciosamente ao espelho sob todos os ângulos possíveis da vã geometria. Achou-se decadente. Velha... Chorou miudinho por um tempo, desamparada na vasta cama vazia. De madrugadinha, veio a fome do pós-pranto. Ao menos estava viva, sentiu.

Assaltou a geladeira; pedaços da pizza de tomate seco, anchovas e uns queijos raros, coisas do amigo da tarde anterior. Vinho. Do balcão do apartamento no oitavo andar via-se o mar enluarado, ao longe, e a avenida vazia abaixo. Dos morros acima pareceu-lhe ouvir tiros. Não mais queria chorar e mastigou automaticamente. O vinho, todavia, recebeu solene ritual. Cheirou, saboreou devagar e então o aceitou, achou conforme. Vagava no tempo e memórias, histórias e acontecimentos. Sempre fora sedutora, desde menina. Exercera o ofício sem pressa, armando o jogo ancestral em minúcias, manipulando assombrosos poderes decorrentes como direitos absolutos e intemporais, próprios mais de divindades, não de meros mortais. Gostava quando homens e até mulheres chegavam batidos, afásicos, capazes de quaisquer loucuras para ao menos roçá-la. Fazia tempo... Seguiu olhando a imagem nua no espelho. Não estava feia, mas cadê seios espetados, bunda empinada, pernas esculturais, ventre plano e os grandes olhos verdes hipnóticos? A boca perfeita pedindo beijo? As mãos relicárias... rugas...

Viu-se no reverso do tempo e descobriu que havia tempos que assim ocorria preguiçosamente. Entre um gole de vinho e uma mordida na pizza emborrachada, convenceu-se de que não mais era deusa, que se lhe acabara o prazo e extinguia-se o império. De fato, a maldade do tempo a prostrara; a pele não era mais tersa, engordara e, horror, usava óculos. Pela primeira vez assaltou-a, frenético, pungente sentido de urgência e de morte. Porém, de barriga cheia e levemente etílica, não se confundiu.  “ - Então era assim? Muito bem! Seria assim!”. Ligou ao amigo perto das quatro. Demorou a ser atendida. Sorria ao riso sonolento do outro lado. Disse não ser doida, mas carente, não ser promíscua, mas afoita e que ele tinha a obrigação de zelar pelo seu status, bem estar; que se danasse a reputação... Imaginava que ele já se vestia, que estava no carro, que tocava o botão da portaria e entrava com o celular ao ouvido, como era de costume. Que ia à geladeira, pegava o que restara da pizza -  reclamando que não lhe deixara nada - servia-se de vinho e, esparramando-se no sofá, a convidava a acompanhar, sempre ao telefone.

Mas só perguntou-lhe, terno e quase dormido, se queria que fosse lá. Ela, do balcão, disse-lhe que não, pois queria pular lá embaixo. Ele engasgou, incrédulo:

- Como é que é?
- Quero pular lá embaixo!

E pulou...                 

(scs-09/07/13)

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