19 de dez de 2012

Benvindo, 2013

Até março, meus amigos! Grato por suas presenças neste ano que finda; que "os laços não sejam lassos" e, "o amor, sempre festeiro"...
A todos desejo paz, saúde, harmonia e caminhos abertos.
Abração!

18 de dez de 2012

Avatares

Caio Martins



















(img.: cvm-lucienne2001)


Ter-te transcorrido
como se fora um mago
devastando limites
de teus segredos
medos
universos
até gritares de impúdícia
os olhos feito lagos...

Só para, depois
- nos bares -
ver-te
de alto a baixo me olhares
desde convulsas galáxias,
chamares audaz
meu nome
como se foras dona
destas esquinas...

Avatares...
Loucas fantasias
de menina...

12 de dez de 2012

Relíquia de guerra

 Caio Martins

Pegou a arma, relíquia de guerra,  e botou em cima da mesa. Reiúna, como diria seu já falecido e estimado compadre Trindade, que lhe dera couto e abrigo no passado, pondo a enorme estatura épica de ébano e parca artilharia contra as patrulhas do governo. Pois, fora um insurreto, um insurgente, um rebelado...  Dizia-se, a sorrir, velho, muito velho...

A moçoila, monitor à frente, ouvia e gravava - quase catatônica - as histórias de embates, combates, guerras, num rol de violência nos quais astúcias e manhas traçavam, em segundos, táticas e estratégias mais que exemplares: deslumbrantes! Afinal, sempre sobrevivera. Salvara-se de homéricas pancadarias, tiroteios, prisões, cercos, enfim... era um guerreiro. Não se salvara, incidentalmente, das mulheres de sua vida. Sempre estavam presentes, às vezes com muito espalhafato. Que paixões avassaladoras... que freges de tremendo sacana...
   
Dissera ser, ela, a primeira e única a ouvir seus causos, nos quais afirmava a fidelidade  a si mesmo e seus códigos de honra. A cara, um labirinto de rugas. Os olhos baços, com aquele cansaço antigo de quem já percorreu e viveu - ida e volta - a história do mundo. As mãos nem tão firmes, mas ainda capazes de carinhos e desatinos inimagináveis. Elegante. Era, para uma jovem fêmea ativa da espécie, um interessante macho solitário, renuente ao rebanho.

Fumava, o desgraçado... um após o outro. Tomava cachaça braba e, no arrepio das modas circundantes de amplas e abundantes ofertas gratuitas, pagava putas. Dizia, cínico, que não pelo serviço, mas, para que se fossem. Politicamente incorreto; porém, algum sentido oculto e definitivo, premente e sub-reptício, a atraía poderosamente. Mais que o necessário.

Pergunta-lhe, então, de mulher em sua vida. Remontando a placa lateral do revólver, ele pára e sorri, fixando mirada astuta  na câmera do notebook. E após compungido silêncio, barulhento como briga de facas, lhe devolve a pergunta: "- Por que?" Mais que em linha virtual sente-se em campo físico, material. Fora pega... Não por um moleque, descartável com simples e sonoro “- Vaza, mané!”. Mas, por um predador oportunista e experimentado, conhecedor de jogos que não mais são jogados pelas manhas, sensibilidade e inteligência exigidas. Ah! - saberia das coisas.

Prudente seria apertar o botão “off” e sair da entrevista, mas o sentido clandestino não permite. O temor? Por que, aceita a pauta, pusera-se a cuidar de arma enquanto não respondia, mas, virando suas perguntas pelo avesso, dizia somente o que queria? Seria um fato extraordinário - embora pavoroso - se o sujeito se suicidasse ante a câmera. Indícios. Não vacila: suplica-lhe o endereço, veemente, a voz uma oitava acima, já vestindo caríssima blusa de fio de garrafas “pet” recicladas, subindo acrobática nos saltos de policarbonato e exigindo-lhe, com autoridade que jamais pensara ter, que a esperasse. Não descarta o imperioso batom vermelho.

Encontra a porta aberta. No meio da sala de ares solenes de antiquário, a mesa posta à luz de velas, com rosas vermelhas gloriosas exibindo-se impudicas, sombreando um "cabernet" raríssimo à espera e, da cozinha, um cheiro irresistível de delícias inimagináveis vindas da "rotisserie" da esquina... fora, mais que traída, atraída. Mas, afinal, dava-lhe introito de Musa, tratando-a como se à última esperança de Balzac, em harmonia com a ascensão emblemática de Beatriz ao paraíso de Dante. E afinal, ao receber galante beijo na mão, vê ter porte altivo e superior, de quem se basta e providencia, de um cavalheiro intemporal. De quem realmente sabe das coisas... Rituais.

Diria, tempos depois e famosa, que um dia e por acaso, vésperas de Ano Novo, conhecera um homem que a levara a ser muito mais que prosaica mulher. Guardaria a relíquia de guerra como troféu da paixão feérica e deixar-lhe-ía  parcas  lágrimas e rosa vermelha única, no último ritual.

(scs - 12/12/12 - img: sean connery-highlander)


4 de dez de 2012

A mulher dos homens

Caio Martins

Ao Luiz Zampronha.

Chegou como se fora: quieta, calada e hirta. Ao abrir-lhe a porta do tugúrio num décimo andar perdido no alfineteiro de prédios, somente ouvira: “- Posso?” - e lhe abrira a porta sem perguntas. Nem amigos, nem parceiros, nem amantes. Agora entrava - passado quase um ano - como houvesse sido ontem e o tempo não houvesse transcorrido.

Esparramado na judiada poltrona de couro vinda de brechó, a vê entrar no quarto, deixar a mochila num canto, despir-se e enfiar-se na ducha. Na pia da cozinha, metade de pizza já fria e uma lata de cerveja barata vazia, a térmica com café e um bule esmaltado, de antiquário.
 
Observa-a lavar-se prolixamente, feito gata. Prevê o resto: sairia do chuveiro e após secar-se viria à outra poltrona modernosa, restos de um casamento desfeito, de amigos. Viria enrolada numa toalha, outra enrodilhada na cabeça. Sentaria e esperaria perguntas que jamais seriam feitas. Depois, nada encontrando na geladeira, comeria a pizza e beberia o café devagarinho, olhos fixos no vetusto tapete esfiapado. Assim foi.
 
Mudos, não se olham, como estivessem ali desde sempre. Era da noite, das madrugas, dos palcos e arsenais eletrônicos, do assédio de ansiosas “princesas” solitárias e gratuitas ao som ríspido e frenético e áspero de tendências pesadas estrangeiras, imitador de imitadores talvez, mas, tinha seu brilho. No apartamento fora de moda não havia mais drogas há tempos. As conhecia a todas, correra infindos riscos e delas se livrara. Não, quanto à mulher.

Promíscua, vivia unicamente na busca do sexo por dinheiro, não mais sabia com quem ou quantos estivera, sem referências ou memórias. Outras eram suas noites e madrugadas, em serventias transformadas em lenda. Sempre voltava, indiferente e alheia se encontraria outra em seu lugar. Nisso, viraria “prima em viagem” no início, depois expulsaria a bola da vez e, por curto tempo, se apossaria do pedaço. Essa, a questão: sempre voltava...
 
Finalmente se encaram. Não mostram alegria ou tristeza, rancor ou amor, afeto ou ternura. Talvez, uma réstia de solidariedade pelo sentimento de, não se pertencendo, serem tão iguais. Nada com ela aprendera, nada lhe ensinara. Nada pedira, nada dera.   
- Estou cansada... posso ficar uns dias?
- Sabe que pode... algum problema?
- Não... só preciso um pouco de paz. Um abraço... às vezes estar só assusta...
Liga para um amigo e pede que o substitua uns dias numa banda qualquer, diz-lhe que fique com o cachê, que está com tendinite e os ouvidos zunindo demais, precisa... de um pouco de paz. Agradece e desliga.
- Vem cá!

Ela vem, se lhe aninha no colo, miúda e quietinha. Ajeita-se, familiar, suspira profundamente e logo adormece. Tira-lhe cuidadosamente a toalha dos cabelos e aciona o DVD, vasculha e vê-se improvisando um blues ao qual nenhum B.B. King poria defeito. O intitulara “A mulher dos homens”, o compusera de estalo da última vez que ela se fora. Observa-se “quebrando tudo” na “Fender Stratocaster 62” com prazer, esquecido e aquecido pela prostituta em seus braços. Beija-a suavemente na testa, percebe que sorri. Na sequência cai num sono leve, dele saindo por um carinho na face. Olham-se sem intensidade, talvez curiosos. Ela inverte a posição, acalenta-lhe o rosto ao peito, solene e séria:
- Eu te amo!
- Eu sei...

(img: viejo autorretrado con monica - fabian pérez - scs/12/12) 


Luiz Zampronha: Improviso




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