20 de mar de 2012

MUSAS VIVAS, MUSAS MORTAS...

Caio Martins

Para Jeanne.


Tomou uma, do frasco portátil de inox... carecia levantar a coragem. Foi à cozinha e pegou do lixo uma lata vazia de leite condensado, lavou prolixamente. Ao carro, um alicate e dobrou uma pestana irrepreensível. Tinha um cinzeiro! Voltou à redação e ao computador decidido. Acendeu o primeiro cigarro. Heresia, ali até a palavra fumar era vetada. Aos que reclamaram, não vacilou na resposta: “- Praputaquepariu!!!” - e o susto os calou. Não era assim, era sempre gentil. Algum mistério havia... Então, rasgou a pauta e selecionou mentalmente as canções e as cantoras que magicamente lhes davam vida, as suas Musas. Não escreveria sobre as ciborgues no cio e o lixo eletrônico da atualidade para a página de cultura do jornaleco nanico.

Achou, num site de postagens de vídeos, Clara Nunes com “Canto das três raças”, de Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte. E já o nó apertou feio no gogó... A ouvira pela primeira vez estando fugido em país inóspito, depois de uma guerra. O “brazil”, ainda era o Brasil, mesmo que envolto em chumbo naqueles idos de 1974. Clara clareara o exílio externo, o interno. A alegria de Clara, a beleza, a graça, a sensualidade, a voz... e a revivência daquela fase jamais transcrita, dos tempos em que se julgava imortal. Suspirou fundo, de cortar o coração. Clara era morta... Clara não estava mais...

Buscou frenético, para recuperar-se e despedir-se do verão, “As rosas não falam”, de Cartola, com Beth Carvalho, felizmente viva... E o efeito foi devastador... Por injunções temerárias sabe-se lá de que raio de divindades, passaram-lhe, uma a uma, as mulheres amadas, as paixões perdidas, os grandes amores idos... não voltariam ao jardim. Engoliu vezes em seco, o nó apertando devagar, sem pressa, poderoso... Mais uma, para recuperar a coragem.

Socorreu-se de outra sobrevivente, Maria de Fátima Palha de Figueiredo, a sua querida "Fafá de Belém", primeira a deslumbrá-lo quando regressara do exílio e após a prisão em Viracopos pelo DOPS e Polícia Federal, fins de 1979 e antes da anistia anestésica. A vira na TV, na casa de amigos, fuzarcando  o “Estrela Radiante”, de Walter Queiroz, e saíra cantando “ylaiê, aê ilê ilá” pela sala, tomado pela adorável gordinha. E cantava junto agora, empolgado, apontando dedo para o céu, a cadeira estalando, o povo perplexo.

Passou então para a também respirante Gal Costa - escolheu “Força Estranha”, de Caetano Veloso. E sentiu, novamente, aquele sopro de esperança, aquele tesão de viver surgido nas ruínas das separações com os encontros tantos num país do qual não entendia mais nada - ano da graça de 1981 - e que não o detonaram por pouco. Agora, sim! Poderia ouvir e escrever sobre outras, sem que lhe partissem - o delírio, a emoção e o sentimento - a compostura e a dignidade em público. Era cria de tempos em que homem tinha, obrigatoriamente, de ser durão.

Buscou “A noite de meu bem”, de Dolores Duran, há tanto tempo encantada... e lá se foi a valentia para o ralo. Novamente, as ausências e os buracos delas decorrentes pegaram pesado na veia... Dela, o jornalista Antônio Maria dissera: "Dolores Duran falou de sentimentos como ninguém, em todas as línguas. Seu idioma era o amor!" E arrastava, subrepticiamente, a sensibilidade a níveis críticos, comovendo como o diabo... Dolores fora, lá pelas bandas de 1960, inspiradora de seus primeiros trágicos versos de “amor”: “Quando tiveres nas mãos macias/ outras que não sejam minhas mãos/ fuja desse mundo de ilusão/ onde essas mãos são sempre frias"...

Compungido, a estatura feita trapos, o pranto na boca do bote, a ausência daquela que mais o seduzira bateu duro e forte, impiedosa e cruamente... Elis... Pegou “Cadeira Vazia”, de Lupicínio Rodrigues... Daí, congelou... O vídeo ruim todavia lhe mostrava a intensidade da emoção da sua Musa morta “entre um agudo/ que comove o verso torpe/ e uma porção de cocaína...” - e novamente ela lhe dominava o cérebro, nervos, músculos... era visceral, orgânico, o fascínio de Elis... O som, em que aceitável, doía nos ossos... Aquela cadeira estaria eternamente vazia...

Terminou de escrever, enviou ao editor, derrubou o sistema, tomou longa mais-uminha até secar o frasco e o jogou no lixo, acendeu o undécimo cigarro e, altivo mesmo que trocando pernas, saiu levando seu cinzeiro e tropeçando em seus fantasmas pela rua... Não mais foi visto.

(img: clara-nunes - arquivos. sc do sul - 20/03/2012)

5 de mar de 2012

O VESTIDO

Caio Martins
Por dentro, em cada célula, ainda a dor. A perda asquerosa fora imprevista e atingira surpresando, sem aviso ou notificação. Se fora... assim de simples... Nem uma palavra, um gesto, indícios e não havia mais a voz aliciadora, as mãos irreverentes, o corpo conhecido, a muralha contra o mundo. Nem o riso, nem o pranto. Nem o afeto, o carinho, a paixão: só lembranças, como em luto. Odiava a comiseração grudenta dos amigos - que não pedira - e o arzinho pérfido dos inimigos - que execrava. Uma linda mulher - e assim se sabia - subitamente só, abandonada, desprotegida e vulnerável : sentira-se, autopiedosa, como se nua e suja no meio da praça.

Olha novamente o convite de festa, garboso cartão dourado com letras negras rebuscadas, brega na forma e medíocre no conteúdo. Tensa, quase o rasga. Vêm-lhe, então, aos sentidos as faces dos amigos, dos quais se desentendera para não ver-lhes as caras compungidas e nem ouvir consolações indesejadas. Escolhera o isolamento e o silêncio. Metera-se na toca para lamber as feridas, feito qualquer bicho do mato. De repente, algo agita-se-lhe por dentro. Como por magia vai ao espelho e encara os olhos claros... Vê-se pálida, mas, em nada diminuída nos traços. Despe-se num ritual apressado e preciso. Tudo está lá, como sempre...


Alguns telefonemas, veste roupa corriqueira e, agitada, enfrenta o trânsito feroz, mesmo num sábado de verão esplendoroso. Horas depois regressa, passado o frenesi. A mulher que a acompanha, levando farto pacote, conhece seus gostos, manhas e chiliques há anos, sabe o que fazer. Desarmam o pacote em silêncio, iniciando cerimonial de vestais, iniciadas. Exigira sobriedade na maquiagem destacando, porém, o batom grená bem delineado e as sombras quase violetas nas pálpebras, com leve toque prateado do contorno superior. Ligeiro “brush” colorindo as bochechas, e só isso. “A bela, na singelez, se revela”, lhe dissera um poeta.

A lingerie, sofisticada, é a mais cômoda. Então, cerimonialmente, o vestido. Sente arrepios quando  desliza como seda, bicos dos seios feito botões e rara sensação de prazer.  A mulher o acomoda exímia, e lhe diz que tire o sutiã, ou ficaria escrachado sob o decote amplo. Faz. Sorri. Ajustes nas dobras dão-lhe, aos seios, segurança e postura. Minúsculos apliques brancos aleatórios e na barra quebram o padrão monocromático, vinho. Brincos e colar de pérolas, cinge-se com delicada corrente achatada de prata. Observa, satisfeita, o talho à esquerda, desde o alto da coxa. Sapatos estilosos, de ponta e salto tétricos, também grenás. 
   
A mulher a fotografa com o celular, após avisar as pessoas-chave que estava pronta. Chamam, que abaixo está o táxi. A caminho, ensaia o rol, já estivera de palácios a barracos, cerimoniais não a assustam. Na porta do bufê, respira fundo, entrega o cartão cafona a um porteiro embasbacado e entra. Há momentos em que o universo para. A notícia, feito raio, gerou o fenômeno. Desce a passo, pelo meio. E começa a correria, as amigas feito galinhas atrás de lagartixa, alvoroçadas, o ar de aprovação e desejo dos amigos, enfim, um espetáculo. O DJ bota “As time goes by” - o clássico de Casablanca - conforme o combinado.

Desfila impecável. Passa pela mesa do que se fora sem explicações e sequer olha, o sorriso iluminando a perfeição da mulher que enleva e domina não só pelo visual ousado - ainda que sóbrio - mas, pelo poder misterioro e irresistível do eterno princípio feminino universal, quando vai à guerra. Aplausos... muitos.  Depois ri, fala pelos cotovelos, dança, faz fotos com a matilha, chama toda a festa para si. Após, quase bêbada, sensação de paz, volta para casa descalça, sob chuva, pelo braço de velho amigo apaixonado que jamais lhe faltara nos momentos mais dramáticos. Agora, não era o caso... seria a recompensa. Ao despir o vestido, está liberta e feliz.

(img:femme en rouge - a. colin / floripa - 02/03/02)      



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