4 de dez de 2012

A mulher dos homens

Caio Martins

Ao Luiz Zampronha.

Chegou como se fora: quieta, calada e hirta. Ao abrir-lhe a porta do tugúrio num décimo andar perdido no alfineteiro de prédios, somente ouvira: “- Posso?” - e lhe abrira a porta sem perguntas. Nem amigos, nem parceiros, nem amantes. Agora entrava - passado quase um ano - como houvesse sido ontem e o tempo não houvesse transcorrido.

Esparramado na judiada poltrona de couro vinda de brechó, a vê entrar no quarto, deixar a mochila num canto, despir-se e enfiar-se na ducha. Na pia da cozinha, metade de pizza já fria e uma lata de cerveja barata vazia, a térmica com café e um bule esmaltado, de antiquário.
 
Observa-a lavar-se prolixamente, feito gata. Prevê o resto: sairia do chuveiro e após secar-se viria à outra poltrona modernosa, restos de um casamento desfeito, de amigos. Viria enrolada numa toalha, outra enrodilhada na cabeça. Sentaria e esperaria perguntas que jamais seriam feitas. Depois, nada encontrando na geladeira, comeria a pizza e beberia o café devagarinho, olhos fixos no vetusto tapete esfiapado. Assim foi.
 
Mudos, não se olham, como estivessem ali desde sempre. Era da noite, das madrugas, dos palcos e arsenais eletrônicos, do assédio de ansiosas “princesas” solitárias e gratuitas ao som ríspido e frenético e áspero de tendências pesadas estrangeiras, imitador de imitadores talvez, mas, tinha seu brilho. No apartamento fora de moda não havia mais drogas há tempos. As conhecia a todas, correra infindos riscos e delas se livrara. Não, quanto à mulher.

Promíscua, vivia unicamente na busca do sexo por dinheiro, não mais sabia com quem ou quantos estivera, sem referências ou memórias. Outras eram suas noites e madrugadas, em serventias transformadas em lenda. Sempre voltava, indiferente e alheia se encontraria outra em seu lugar. Nisso, viraria “prima em viagem” no início, depois expulsaria a bola da vez e, por curto tempo, se apossaria do pedaço. Essa, a questão: sempre voltava...
 
Finalmente se encaram. Não mostram alegria ou tristeza, rancor ou amor, afeto ou ternura. Talvez, uma réstia de solidariedade pelo sentimento de, não se pertencendo, serem tão iguais. Nada com ela aprendera, nada lhe ensinara. Nada pedira, nada dera.   
- Estou cansada... posso ficar uns dias?
- Sabe que pode... algum problema?
- Não... só preciso um pouco de paz. Um abraço... às vezes estar só assusta...
Liga para um amigo e pede que o substitua uns dias numa banda qualquer, diz-lhe que fique com o cachê, que está com tendinite e os ouvidos zunindo demais, precisa... de um pouco de paz. Agradece e desliga.
- Vem cá!

Ela vem, se lhe aninha no colo, miúda e quietinha. Ajeita-se, familiar, suspira profundamente e logo adormece. Tira-lhe cuidadosamente a toalha dos cabelos e aciona o DVD, vasculha e vê-se improvisando um blues ao qual nenhum B.B. King poria defeito. O intitulara “A mulher dos homens”, o compusera de estalo da última vez que ela se fora. Observa-se “quebrando tudo” na “Fender Stratocaster 62” com prazer, esquecido e aquecido pela prostituta em seus braços. Beija-a suavemente na testa, percebe que sorri. Na sequência cai num sono leve, dele saindo por um carinho na face. Olham-se sem intensidade, talvez curiosos. Ela inverte a posição, acalenta-lhe o rosto ao peito, solene e séria:
- Eu te amo!
- Eu sei...

(img: viejo autorretrado con monica - fabian pérez - scs/12/12) 


Luiz Zampronha: Improviso




10 comentários:

  1. Caio, bonita crônica, referindo-se à solidão e aos iguais que não parecem ser mas se atraem e se consolam. Gosto de tema Abraço. MM

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    1. Grato, Milton! É a essência do texto. No que é aparentemente corriqueiro, o extraordinário se manifesta. Abração!

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  2. Gosto deste modo de escrever e mantidas as diferenças pessoais, é assim que faço meus contos, principalmente.
    O ambiente que Caio imaginou torna-se real, estes fatos acontecem mesmo como está descrito.
    Facetas do existir...

    Abraço,
    Jorge

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    1. Meu caro Jorge, há sempre o que aprender com os Mestres... As duas últimas frases pretendem definir o que - no contexto - não poderia haver. Umas palavras ouvidas daqui, uma música vinda de lá, vivências de outros páramos, e vamos dando as claves para decifrar essências. Forte abraço!

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  3. Belíssima crônica, onde a solidão se desfaz através da cumplicidade, liberdade, respeito e amor!

    Beijos

    Márcia

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    1. Márcia escrever é sempre um mistério... a visão de uma cena e seu palco é brevíssima e, ao tentarmos transmití-la, pega vida própria e age como um elemento autônomo e rebelde. Grato por suas palavras, é sempre uma honra recebê-las.

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    2. Só para completar meu comentário... Crônica riquíssima em detalhes e que exige leitura cuidadosa para descobrir as chaves que compõem a relação entre dois personagens solitários e solidários.

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    3. Para quem conhece o enrêdo, minha querida amiga, não há dificuldades. Se as personagens se aceitam com tanta simplicidade, achei que seria fácil aceitá-las sem julgamentos. Acho que consegui. Beijos.

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  4. Bela a crônica, bela a música. O texto faz o leitor mais ver do que ler. E´como estar escondido, espionando alguém que deixou a janela aberta.

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    1. Aracéli, essa foi a intenção, mais de janela que palco, mantendo vários elementos que desmentem a suposta indiferença. Quanto à música, nosso priminho Luiz sabe das coisas... é talentoso! Por mais que eu deteste música eletrônica conseguiu me pegar, nessa!

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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