5 de mar de 2012

O VESTIDO

Caio Martins
Por dentro, em cada célula, ainda a dor. A perda asquerosa fora imprevista e atingira surpresando, sem aviso ou notificação. Se fora... assim de simples... Nem uma palavra, um gesto, indícios e não havia mais a voz aliciadora, as mãos irreverentes, o corpo conhecido, a muralha contra o mundo. Nem o riso, nem o pranto. Nem o afeto, o carinho, a paixão: só lembranças, como em luto. Odiava a comiseração grudenta dos amigos - que não pedira - e o arzinho pérfido dos inimigos - que execrava. Uma linda mulher - e assim se sabia - subitamente só, abandonada, desprotegida e vulnerável : sentira-se, autopiedosa, como se nua e suja no meio da praça.

Olha novamente o convite de festa, garboso cartão dourado com letras negras rebuscadas, brega na forma e medíocre no conteúdo. Tensa, quase o rasga. Vêm-lhe, então, aos sentidos as faces dos amigos, dos quais se desentendera para não ver-lhes as caras compungidas e nem ouvir consolações indesejadas. Escolhera o isolamento e o silêncio. Metera-se na toca para lamber as feridas, feito qualquer bicho do mato. De repente, algo agita-se-lhe por dentro. Como por magia vai ao espelho e encara os olhos claros... Vê-se pálida, mas, em nada diminuída nos traços. Despe-se num ritual apressado e preciso. Tudo está lá, como sempre...


Alguns telefonemas, veste roupa corriqueira e, agitada, enfrenta o trânsito feroz, mesmo num sábado de verão esplendoroso. Horas depois regressa, passado o frenesi. A mulher que a acompanha, levando farto pacote, conhece seus gostos, manhas e chiliques há anos, sabe o que fazer. Desarmam o pacote em silêncio, iniciando cerimonial de vestais, iniciadas. Exigira sobriedade na maquiagem destacando, porém, o batom grená bem delineado e as sombras quase violetas nas pálpebras, com leve toque prateado do contorno superior. Ligeiro “brush” colorindo as bochechas, e só isso. “A bela, na singelez, se revela”, lhe dissera um poeta.

A lingerie, sofisticada, é a mais cômoda. Então, cerimonialmente, o vestido. Sente arrepios quando  desliza como seda, bicos dos seios feito botões e rara sensação de prazer.  A mulher o acomoda exímia, e lhe diz que tire o sutiã, ou ficaria escrachado sob o decote amplo. Faz. Sorri. Ajustes nas dobras dão-lhe, aos seios, segurança e postura. Minúsculos apliques brancos aleatórios e na barra quebram o padrão monocromático, vinho. Brincos e colar de pérolas, cinge-se com delicada corrente achatada de prata. Observa, satisfeita, o talho à esquerda, desde o alto da coxa. Sapatos estilosos, de ponta e salto tétricos, também grenás. 
   
A mulher a fotografa com o celular, após avisar as pessoas-chave que estava pronta. Chamam, que abaixo está o táxi. A caminho, ensaia o rol, já estivera de palácios a barracos, cerimoniais não a assustam. Na porta do bufê, respira fundo, entrega o cartão cafona a um porteiro embasbacado e entra. Há momentos em que o universo para. A notícia, feito raio, gerou o fenômeno. Desce a passo, pelo meio. E começa a correria, as amigas feito galinhas atrás de lagartixa, alvoroçadas, o ar de aprovação e desejo dos amigos, enfim, um espetáculo. O DJ bota “As time goes by” - o clássico de Casablanca - conforme o combinado.

Desfila impecável. Passa pela mesa do que se fora sem explicações e sequer olha, o sorriso iluminando a perfeição da mulher que enleva e domina não só pelo visual ousado - ainda que sóbrio - mas, pelo poder misterioro e irresistível do eterno princípio feminino universal, quando vai à guerra. Aplausos... muitos.  Depois ri, fala pelos cotovelos, dança, faz fotos com a matilha, chama toda a festa para si. Após, quase bêbada, sensação de paz, volta para casa descalça, sob chuva, pelo braço de velho amigo apaixonado que jamais lhe faltara nos momentos mais dramáticos. Agora, não era o caso... seria a recompensa. Ao despir o vestido, está liberta e feliz.

(img:femme en rouge - a. colin / floripa - 02/03/02)      



12 comentários:

  1. O vestido que esconde a beleza da mulher, pode também transformá-la em irresistível, dominadora.
    Ingrid Bergman provou isto, em Casablanca...

    Abraço, amigo Caio.
    Jorge

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Jorge, o projeto original previu, para a fêmea da espécie, graça e beleza, para a sua perpetuação. Realmente alguns penduricalhos aqui e ali catalizam a propriedade, mas, essencialmente, tudo é questão de atitude. Geralmente, bota-se por fora o que se tem por dentro. Abração.

      Excluir
  2. Milton Martins6/3/12 10:49

    Caio
    O tempo passa ou passou, mas não me sai da cabeça esse "poder misterioso e irresistível do eterno princípio feminino universal" que se resume a uma única palavra: sedução. Vai entender esse "poder misterioso", vai entender... Bela crônica na "semana da mulher". Abraço. Milton Martins

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah!, meu caro Milton, e que poder tem a sedução... Posso dizer, sem medo de errar, que define nossas trajetórias, e fazemos o inimaginável devido a ele. Entender, de fato, é quimera ousada... Como digo num poema, "nós, abobados, aplaudimos!". Grato por suas palavras, meu amigo.

      Excluir
  3. O esmero da narrativa, cheia de detalhes físicos e psicológicos, resultou nesta excelente crônica, Caio! Lembrei-me de "Super-homem", do Gil:

    "Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
    (...)
    minha porção mulher que até então se resguardara / é a porção melhor que trago em mim agora..."


    Há que ter sensibilidade para entender o universo feminino - e você a tem de sobra, o que fica claro não só nesta crônica como em vários poemas seus.

    Beijos

    Márcia

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Márcia, raras mulheres têm noção exata do poder que exercem pela maneira de ser e a aparência, talvez que fascinadas também por elas. O elo de ligação entre os gêneros dá-se, na quantidade, pelos hormônios e, na qualidade, pela sensibilidade. Quando perdido, a possibilidade de encontro torna-se não só desastrosa, mas, via de regra, lamentável. Obrigado por suas palavras, sempre uma honra recebê-las. Beijos.

      Excluir
  4. olá Caio! Beleza de texto! A voz de Sinatra é um ICON da musica romantica - CASABLANCA e Ingrid Bergam são o protótipo do filme eterno e da mulher que todas gostariamos de ser! Os tres ingredientes combinam na perfeiçao! O jogo da sedução é intemporal e faz parte da vida de qualquer e toda a mulher!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Você é muito gentil,Helena. O argumento é o da recuperação do amor próprio ferido via elementos externos, causando a metamorfose espiritual. E, ao menos na crônica, com final descompromissado e feliz... Casablanca, de 1942, é extraordinário filme não pelo argumento de renúncia à mulher amada, mas pela maestria de Ingrid Bergman e Humphrey Bogart, dirigidos por Michel Curtiz. Abraços.

      Excluir
  5. Excelente!

    Isto é conhecer e muito bem a ânima feminina.

    Bravo!

    Mirze

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Mirze, o "ânimus" junguiano explica muita coisa, porém, não justifica mistérios além da vã racionalidade, como a forma de ser feminina polarizada num simples vestido. Cai-se, queiramos ou não, no emaranhado da imaginação e da fantasia. Agradeço sua presença e sua generosidade.

      Excluir
  6. mire usted que belleza!!!! mirelo,y sepalo!!!
    un abrazo,muchas gracias!
    lidia-la escriba



    blog actualizado,vaya a saber por que!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Lidia, vós sabés que las mujeres son al mismo tiempo sencillas y misteriosas, complejas y transparentes... nosotros, abobados, solamente podemos aplaudir...
      Besos, gracias por tu presencia.

      Excluir

Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

Categorias, temas e títulos

Seguidores