15 de out de 2011

O Erro...

Caio Martins.

Saiu calmo, como se diz, “na moral”, “na boa”. A mulher o espiava da janela do hotel, deu-lhe festivo adeuzinho. No carro (como sempre imundo por fora, mas máquina ajustada em pleno exercício das funções e veterano de outros adeuses) relaxou tratando de ser ágil naquele já então inferno de amebas histéricas submergidas em gases tóxicos, aço e asfalto. Os hormônios da fêmea ainda agiam em suas veias, glândulas, instintos. Pagara a prostituta não pelo serviço, mas, para poder ir-se deslingado, ou para que ela assim se fora. Na estrada parou num frege-moscas, engoliu um gole de cachaça, um sanduíche qualquer com guaraná, um café fervido, calibrou pneus no posto, encheu o tanque. E acelerou.

Recebera avisos, alarmes, insinuações e conselhos. Desnecessários... Sabia que não haveria retorno - a menos que se tornasse um traidor - e que o momento era aquele. Horas mais, teria de brincar de herói ou tornar-se mártir. Não fora para o que nascera. Naquele “treze de dezembro de 1968, vinte e quatro membros do alto escalão do governo militar se reuniram e editaram o Ato Institucional 5, o famigerado AI-5, que possibilitara o fechamento do Congresso Nacional e acabara com o direito de habeas corpus dos parlamentares, direito adquirido com a Constituição - já fajuta - de 1967”. Os anos de chumbo tomavam seu perfil mais ensandecido.

O discurso de um senador, Márcio Moreira Alves, clamando pela volta da democracia, fechara as portas à luta legal e aberta. Era o momento da clandestinidade, da ausência absoluta dos entes queridos, amigos, família; tempo das identidades falsas, da solidão por escolha segura, dos segredos e das entrelinhas. Da certeza que era o momento só do bilhete de ida, e da presença ineludível da morte. Quando se elege lutar contra uma tirania - invés de calar-se ou fugir - e levantar-se em armas, os caminhos da vida se estreitam, beira-se precipícios e, não havendo estrutura moral que sustente, raia-se à loucura. Não há lugar para erros.

Não era o caso. Não temia a morte, mas a dor; não temia o combate, mas a tortura. Não seria presa fácil, como tantos que, inermes, se lançaram contra a máquina de moer gente. Dizia que não se importava em partir desde que levasse alguns canalhas consigo. Acelerava... No coldre uma automática, pelos bolsos carregadores e, dominante, uma saudade infeliz e incômoda, angustiante e incisiva da moça de olhos claros, franzina e esbelta, cujo sorriso lhe derretia as couraças e o transformava, de guerreiro, em deslumbrado menino. Meses... meses... Já não doíam mais o tiro na barriga, outro na perna, mais um no braço. O que doía, era a ausência.

Num posto perto do destino, mandou lavar o carro, fez a barba no banheiro. Cabelos curtos, terno impecável, postura alfa, passou barreiras de desajambrados soldadinhos, deixou o carro no cafofo, ao chegar à cidade, e não resistiu. Assumindo cuidados extraordinários, rondando feito lobo, entrou no edifício. Tinha as chaves, conhecia as manhas da velha fechadura. Girou o trinco, entrou e sentiu o cheiro de coisas de mulher. Acendeu a luz, trancou a porta. Ela deveria estar dormindo, seminua naquele calorão de fim de ano. Ouviu inaudível ruído, como um estalo de cama, dirigiu-se ao quarto na ânsia de vê-la.

Nem se deu conta ao levar o tiro na cara.

(img: cvm - tiro - 2011)




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