17 de fev de 2011

PAPEL NO BAR


Caio Martins.


Amigo fiadaputa... tomava cachaça, nada além de cachaça e chope, dizendo que uísque e quejandos eram coisas de boiola - sem fazer concessões para qualquer química colorida ou perfumada. E triturava, feito um degenerado, pratadas soberanas de torresmo na falta de iscas de peixe, amante obcecado de feijoadas, picanhas, costelas, pernas de cordeiro... Magro feito um cabo USB apesar de tudo, calado e quieto e olhos vigilantes, parecendo estar sempre pronto para saltar e sair na porrada. Não sentava de costas para as portas ou janelas, escolhia sempre os cantos, de onde observava, com olhar cínico e perfunctório, a mulherada. E as havia, aos montes, solitárias e ansiosas e despudoradas.

- E aquela loiraça? Vai dizer que não é um avião? Já-já ‘tô nessa, mano...
- Uh! Sei não! 'Cê ‘tá muito antigo, m’ermão. Agora é informática... Avião já era... Fosse, essa seria teco-teco... Perna curta, bunda baixa, teta de silicone, tingida e mais rolada que pedra de rio... Sucata!
- Caaraalho! Já se olhou no espelho, meu? Passou do prazo de validade faz tempo, nem falar da garantia e esnoba um mulherão desses? ‘Tá precisando de camisa de força, meu!
- ‘Tá afim de faturar uma grinfa, ou tá dando mole p’ra cima de mim? Quero não! Bagulho por bagulho fico comigo mesmo! Vai lá, que o açougue tá aberto, meu! Vai, borracheiro!

Chamou o garçom e pediu mais uma e mais um. Saiu para fumar na esquina. Nestes tempos de “politicamente correto”, era um belzebu anacrônico - a moda era “bala”, cristal, cocaína. Voltou, o amigo papeava com a loiraça, ambos cheios de risos e salamaleques de moda nas baladas. Era dos tempos das noitadas e boemia. Tomou a cachaça de a golinhos, triturou um torresmo, arrematou com o chope. Daí o novo casal da balada veio; levantou-se frio feito rabo de foca. Apresentados, olhou a moça da cabeça aos pés, rodeou, pediu licença e passou-lhe a mão na bunda. Ela deu um pulinho e disparou num riso incontrolável. - Cara mais louco! - repetia.

- ‘Tá certo... Tá certo... Inda ‘tá de jeito, dá pro gasto. Vão com deus, crianças - e voltou a sentar-se, aparentemente alheio a tudo e todos. O outro - indignado - catou a boneca, de arranque, e saíram sem despedirem-se. Ficou no canto, isolado e invisível, os olhos incisivos não perdoando nada nem tudo, manguaçando ritualmente. Levantou o dedo, o garçom veio pachola. Pediu papel e uma caneta. Impudica e misteriosa, ousada e atrevida, mas solene e serena feito uma gota de orvalho num parabrisas (tinham-se extinguido, há tempos, as flores), a lágrima levou uma eternidade até explodir no tampo sintético da mesa. Não é fácil escrever à mulher amada, ausente pelos milênios etc.. - Puta ironia! - se dissera ao despedi-la.

Escreveu um poema devagar e com letra excepcionalmente caprichada como não se usa mais, depois leu várias vezes. O garçom trouxe outra leva de mineirinha esperta, dispensou o chope e o torresmo. Deixando o papel sobre a mesa saiu para outro cigarro politicamente incorreto, chovia parcamente. Pertinho, a praça. Na praça, o banco... Alí o encontraram - a falsa loira siliconada de bunda baixa e o amigo - quase no raiar do dia, teso e lagrimado da chovisna, um rito feliz no rosto paraláxico e mortinho da silva.

Morrera de amor e de saudades.

(img: amigos - tela de joão werner)







16 comentários:

  1. Excelente conto de poesia, de amor, de vida e de morte, acompnhado de maravilhosa canção interpretada por divina artista...fecha-se o círculo perfeito.Bom demais!

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  2. Milton Martins17/2/11 17:53

    Caio
    Um cara que come torresmo e bebe cachaça e fuma morreu de amor, de saudade...e de cachaça e torresmo e de fumo. Putz. Legal a crônica tragi-cômica. Abraço. Milton Martins.

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  3. Aracéli Martins17/2/11 21:26

    Esse poeta morreu mais é de torresmo e de birita,concordo com o Milton; muito confortável responsabilizar os velhos amores ausentes havia milênios pelas gororobas que engoliu anos a fio. A cigarraiada que entupiu seus pobres pulmõezinhos ficam inocentes, isentas de qualquer peso. "Fumar é um prazer, sensual, lalala´... fumando espero aquela que mais quero..." Estranha felicidade, bem narrada num tom de ironia.Gardel ao fundo.

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  4. Que imagem bonita a da lágrima, Caio! E o poema, escrito com letra caprichada para falar à mulher amada! Sentimentos e atitudes que a humanidade insiste em matar, mas que permanecem intactos em quem não tem a alma pequena...

    Beijos

    Márcia

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  5. Caio, cada vez que eu venho no teu blog mais encantada eu fico com teu absoluto bom gosto na forma e no conteúdo. Espero que, no futuro, todos sejamos como você. Bjão.
    Isabel.

    www.isabelvasconcellos.com.br
    facebook.com/IsabelVasconcellos.Caetano
    twitter: @bellavas

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  6. Guaraciaba, tentei deixar margem a todo tipo de especulações, dado que vivemos num tempo no qual "não se morre mais de amor". Feliz que tenha gostado, volte sempre.

    Milton, a personagem atípica (e contraditória) revela, no fundo, que tudo "politica ou culturalmente correto" é de celestial chatice... Todavia, ri muito do seu comentário, poético apesar do pragmatismo. Forte abraço, Mestre.

    Aracéli, como autor bom de garfo/copo e boêmio, não "mataria" a personagem de cirrose, embolia pulmonar, enfarte ou bala, seria muito melodramático: a chave é a frase da despedida da mulher ausente (morta) há milênios, ele ficando: "-Puta ironia!" E, foi atrás, foi feliz... Preferi, por isso, Pixinguinha e João de Barro, por Elis, ao Gardel. De fato, "estranha felicidade". Beijos, maninha.

    Essas são outras âncoras da crônica, Márcia: o "ponto final" da lágrima, ausência de flores (humanidade), a letra impecável para palavras não reveladas, o papel ficando no bar com seu mistério. Ausências insolúveis podem ser extremamente pungentes. Grato por sua presença, minha amiga. Beijos.

    Isabel, é uma honra receber suas palavras tão generosas. Creio, definitivamente, que melhor seria serem, todos, como você. Obrigado pela visita, é sempre bem vinda. Beijos.

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  7. No fundo todos quereriam um tasco do torresmo do tempo do jeito.
    Desce tudo muito bem com uma geladinha.

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  8. Muito fiel à conversa de bar e criações etílicas! Parabéns!

    Araceli Sobreira

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  9. Cronista da vida.Gostei.Cronista de noites e bares.Muito bom.

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  10. Me fez voar no tempo, velha Porto Alegre...
    saudações,
    Paulo.

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  11. Até o título tem alguma coisa camuflada e o personagem fêz o seu "papel no bar" antes de ir desencantar na praça. Todo mundo vai um dia, que importância tem se foi de colesterol ou de amor. O "b" está certo, manda uma gelada com torresminho para acompanhar a ouvir a Elis. E tenho dito.
    Osmar Grazzini

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  12. Bárbara (b), está certa! Tenho muita precaução com fundamentalistas, principalmente os inquisidores xiitas da moral e dos costumes. Saúde!

    Araceli (Pedra do sertão), agradeço sua visita e o comentário. Quem escreve, como você, sobre jasmins e ama beija-flores, só pode ser iluminada dos deuses. Volte sempre. Abraço.

    Cristina, o que incomoda é existir tanta riqueza por aí, pela Vida, e não sermos capazes de retratá-la nem em várias existências. Mas, não há que parar de tentar. Grato pela visita, volte sempre.

    Paulo, que saudades da velha Porto Alegre... Tenho por aí o meu irmão Luiz de Miranda, que a canta (e decanta) em versos épicos e líricos. Agradeço sua visita, suas palavras e o cumprimento pelo seu blog.

    Osmar, fez seu papel, sim... Não importa como se morre, mas, como se vive. Em tempo: "b" não é menino, é menina... Abraço, volte sempre.

    Vanessa, fiquei feliz com sua visita (sempre uma honra), estava sentindo sua falta. Lembranças à Luísa, sempre inefável e intangível. Quando um dia eu morrer de alguma coisa, que seja de amor... o resto é muito prosaíco. Beijo.

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  13. Um bar, noite, cerveja, cachaça e torresmo. Loura suspeita complementando.
    Então o poeta pega a pena e num papel deixa o seu verso. O que seria? Caio não conta!

    Abraço,
    Jorge

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  14. Jorge, não é preciso dizer, está nas entrelinhas. A noite dos bares é carregada de fatos, situações e intenções - quase sempre insólitas - dentre tantas solidões perdidas. Às vezes, "la vida nos dá sorpresas". Abração, Mestre Escriba.

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  15. Eis a noite do poetas...E se fazem poetas hj como os de antigamente? Menos bares, bebidas e torresmo, mais vida e muita poesia...
    adorei o texto!

    bjs

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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