26 de ago de 2010

COISAS TUAS

Caio Martins











(img: dance3 - isabel fillipe)

Teus passos leves
tuas palavras mansas
tua presença...

Teu sorriso calado
teus gestos inconsúteis
teu pejo...

Teus momentos breves
tua entrega esconsa
tua fragrância...

Teu ser entranhado
teus nãos inúteis
teu beijo...

É quando, febril,
te suplico angustiado:
Vem, amor! Dançamos uma valsa?

Tua ausência...





(Valsinha - Chico Buarque e Vinícius de Moraes)

17 de ago de 2010

O PICADEIRO MÁGICO

Caio Martins.

Ao Carlos Drummond










(img: cdandrade - edit.bestbolso)

O circo cinza
estremece
cinzas espalha e pó
e nós tocamos um clarinete afônico
menor.

Caem
as cortinas de teu palco
onde foste, impretérito,
palhaço, público, equilibrista
ator.

Lá na porta estrafalária
do céu da poesia
o Vinícius, o Andrade, o Bandeira,
tantos outros,
a te receber.

É então
que choras enfim liberto,
poeta, quando
vestida de canto azul
Elis vem te encantar.

Nós ficamos
olhando teus óculos
o mundo nos teus óculos
num peso, numa
pena danada.

(BsAs –06/07/1988)

1 de ago de 2010

A CASA DA ESQUINA




(Elis - Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim - 1968.)

Caio Martins
(Terceiro Exílio)














(img: cvm - den230/2001)

A casa fincada na esquina
era sempre uma escolha,
uma decisão, ninguém
ficaria além do necessário .

Já da rua anterior à casa
vieram amigos, conhecidos
poetas, os artistas todos
boêmios, bêbados, mulheres
da vida, baratas e de luxo,
os suicidas
um amontoado de crianças tristes
avisar do som de passos
que a vida seria punida.

Já antes, na casa, a mulher
beijara meu rosto, a face
parcamente em lágrimas
enquanto um homem sério perguntava
o endereço de lugar nenhum
mudo
farto de despedidas.

Já antes dos sons de passos
silenciosos pela rua escura
trouxera das mãos só frases tronchas
e da boca nenhum verso esfarrapado.

Em cabeças ocas as palavras
ressoam imponentes e fáceis
acelerando o sangue nas veias
pedindo, as pessoas tontas
perdão por crimes impossíveis
tempo nenhum praticados:

- Mea culpa! Mea culpa! Mea maxima culpa...

Vieram os passos silentes
e a casa da esquina ruiu
pedaço a pedaço, devagar
e gritos de revolta
não feriram meus ouvidos.

O mundo já estava torto.

Elevaram-se cantos lamentosos
a mulher viu-se inocente e destruiu
a casa das decisões mais graves
e o epitáfio do amor mais lindo
com simples palavras claras
rasgando paredes sujas:

- Perdão! Eu te amo!

Ficou na sombra a frase amarga
nas mãos o verso inóspito
na garganta teu nome embriagado:

- LAURA!... Laura...

O mundo já estava morto.


(CASCS-17/04/1968 - SP-29/07/2010.)

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