20 de out de 2010

PRAÇA DA SÉ

Caio Martins









(img:cvm - torres sé - 2007)

Escadas rastejantes jogando
pasadas de bípedes cansados
zumbindo passivamente
saio do buraco
do metrô na Sé.

Cara a cara
com a negra torre do relógio
martelando vagarento sete horas
nos seus mecanismos atrozes
de solução final.

A Praça da Sé se move.

A catedral arrota
medieval solilóquio
de seu bojo estufado.

A catedral estatela-se
de costas, com graça
de gorda matrona gótica
de torres como ameaçadoras tetas
espetando a escuridão pastosa,
escadas de cabeleira
cheia de insetos transitando
em suas bocas.

A catedral boca.

Rara soma arderá
em seus altares solífugos,
enquanto Cristo passeia, cósmico
por outros mananciais.

A Praça da Sé se move.

O camelô vende milagres
um pivete vende santinhos
a zabumba bumba
funcão agastado
a xoróca zabaneira
e vunge
vunza no bolso do otário
que vasconceia, lúbrico
lambidas em seu pescoço.

Na distância de um pulo
a menina canta hinos
às bestas do apocalipse
o fim dos tempos
a palavra final...
Sedutora
vozinha
afinadinha
fatal...

A sanfona agita a bunda
tremelica os peitos
de cafona moça seminua
abrindo coxas e braços
e a dentadura alva
enrubescendo a calva
do marco-zero da cidade.

Não quer ser salva...

A menina hina hinos
olhando faceira o menino
que vende santinhos roubados
da mesa dos cardeais.
A polícia policia
suspirando aliviada
após a tensão formidável
de concentração sindical.

Na catedral o cardeal
absolve e o gado
se retira do quintal.
Em roda
ladrões, pivetes, saltimbancos
travecos, profetas, mascates
traficantes, bicheiros, ladrões,
vigaristas, craqueiros, putas
rondam a multidão passiva
entrassaindo do metrô
e a zabumba bumba um funcão
a catedral sina seu sino
os pregadores ameaçam o universo
e as bestas do apocalipse saem
dançando funque-forró.

A Praça da Sé comove
como a carcaça de um cão
atropelado e marginal
esfarrapado, e só.

(Pensão da Zulmira - 13/07/1987.)

8 comentários:

  1. Milton Martins20/10/10 21:26

    Caio
    Estamente às 21h20 de hoje (20.10) li sua poesia com surpresa, porque hoje passei pela Praça da Sé, suja, malencarada e abandonada. Não havia sanfonas e nem rebolados, mas sim, manifestação política em alto som que não acabava nunca. Cara, eu nunca ouvi tanto besteirol em revezamento. Acho que até a estátua do apóstolo Paulo, deveria estar tapando os ouvidos. Desço as escadas do metrô que cheiram urina. Pobre Praça da Sé. Quem viu e quem vê. Parabéns pelo seu poema tão real. Abraço. Milton Martins - Piracicaba

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  2. Belo poema, Caio! De tão real chega a ser surreal...

    "...a menina canta hinos
    às bestas do apocalipse
    o fim dos tempos
    a palavra final...
    Sedutora
    vozinha
    afinadinha
    fatal..."


    E depois ela ainda é capaz de dizer que é pecado usar o nome de Deus em vão.

    Descrição perfeita. Consigo me ver no meio desse frenético movimento.

    Parabéns!

    Beijos

    Márcia

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  3. E assim o homem atravessa locais iluminados e escuros, desta Vida tão incerta!
    Foi como entendi, Caio.

    Abraço,
    Jorge

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  4. Andei pela praça em teu poema e me senti parte dessa paisagem, comovido
    como a carcaça de um cão atropelado e marginal esfarrapado, e só

    T.

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  5. Gande Milton, mesmo a decadência urbana, inversão de valores e cenários cáusticos são motivo para tentar resgatar fragmentos de sensibilidade. Há cifras, chaves e metáforas ocultas, no poema. Saíram as sanfonas da praça, mas entraram os megafones...
    Abração.

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  6. Pois, Márcia, assim é. A Poética despida de amarras centra-se nas crenças, não nos pecados. Iconoclasta, não admite impérios, mas condoe-se da condição humana. E a representa no cão morto. Hinos, blasfêmias ou sinos tornam-se equivalentes e igualmente inúteis.
    Beijos, minha amiga.

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  7. Jorge, é como diz. O que seria um ponto de referência se revela ponto de desistência. Assumem-se, assim, papéis que justifiquem essa Vida mencionada. Todavia, o Tempo segue inexorável, não importam monumentos ou lamentos.
    Abração, meu amigo.

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  8. Tiago, agradeço sua presença e seu comentário. É a sensação das grandes cidades em decomposição e da marginalidade a que a consciência é reduzida. Resta, talvez, o alarme de um poema. De aí em diante, somos todos iguais.
    Forte abraço.

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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