1 de ago de 2010

A CASA DA ESQUINA




(Elis - Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim - 1968.)

Caio Martins
(Terceiro Exílio)














(img: cvm - den230/2001)

A casa fincada na esquina
era sempre uma escolha,
uma decisão, ninguém
ficaria além do necessário .

Já da rua anterior à casa
vieram amigos, conhecidos
poetas, os artistas todos
boêmios, bêbados, mulheres
da vida, baratas e de luxo,
os suicidas
um amontoado de crianças tristes
avisar do som de passos
que a vida seria punida.

Já antes, na casa, a mulher
beijara meu rosto, a face
parcamente em lágrimas
enquanto um homem sério perguntava
o endereço de lugar nenhum
mudo
farto de despedidas.

Já antes dos sons de passos
silenciosos pela rua escura
trouxera das mãos só frases tronchas
e da boca nenhum verso esfarrapado.

Em cabeças ocas as palavras
ressoam imponentes e fáceis
acelerando o sangue nas veias
pedindo, as pessoas tontas
perdão por crimes impossíveis
tempo nenhum praticados:

- Mea culpa! Mea culpa! Mea maxima culpa...

Vieram os passos silentes
e a casa da esquina ruiu
pedaço a pedaço, devagar
e gritos de revolta
não feriram meus ouvidos.

O mundo já estava torto.

Elevaram-se cantos lamentosos
a mulher viu-se inocente e destruiu
a casa das decisões mais graves
e o epitáfio do amor mais lindo
com simples palavras claras
rasgando paredes sujas:

- Perdão! Eu te amo!

Ficou na sombra a frase amarga
nas mãos o verso inóspito
na garganta teu nome embriagado:

- LAURA!... Laura...

O mundo já estava morto.


(CASCS-17/04/1968 - SP-29/07/2010.)

5 comentários:

  1. Bem vindo de volta.Magnificamente!
    (Festejando merecidamente)Bj

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  2. Uma tristeza, quando o mundo acaba assim.
    Mas como nada é para sempre, a gente chora e continua...
    Está muito bem escrito, Caio. Parabéns pela volta.

    Abraço,
    Jorge

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  3. O exílio é sempre solitário, não? Mesmo que rodeados de pessoas com afinidades, não há como não doer demais. A saudade aperta, o medo do que pode estar prestes a acontecer por vezes parece inundar nossa mente, nosso corpo, nosso mundo.
    É como você diz:

    "O mundo já estava torto (...)
    O mundo já estava morto."

    Lindo poema, Caio!

    Beijos

    Márcia

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  4. Maria Alice, obrigado. É muito bom contar com sua presença. Obriga a caprichar cada vez mais, um dia aprenderemos. Beijos.

    Sader, não acaba, muda. De aí o extraordinário valor dos amigos, nesta estação. Creio que na próxima também. Eu é que agradeço, meu irmão.

    Juan, retribuo o abraço e fico feliz em vê-lo por aqui. Vamo que vamo!

    Márcia, o primeiro exílio foi fácil. O segundo bastande difícil. E o de agora muito difícil, de vez que "jamais, na história deste país", valores e princípios foram tão degradados. Resta ser degredado em Pátria própria, sabendo que não haverá mais tempo de voltar. E pagar o preço de despertencer.
    Beijos, minha querida amiga.

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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