9 de mai de 2010

HOJE


Caio Martins

Ao poeta Luiz de Miranda.










(img: fabian perez - autoretrato)

Hoje, poeta, escrevo
não mais como quem chora
lamenta ou enlouquece,
como quem foge
briga e apanha e bate
e crê salvar-se ileso
e aos faltos do universo.

Hoje, poeta, escrevo
não mais como quem morre
escorrendo por complacentes
moçoilas no cio, vadias
vulgívagas elementares
crendo de amor falar
a torpes desesperados...

Hoje, poeta, escrevo
de caso pensado, sem alma
adrede e premeditado
sem ira ou rancor ou tédio
como quem solerte se exprime
suspeito e dissimulado
para cometer um crime.

Hoje, poeta, escrevo
como quem, por afasia,
declina da Poesia...

26 comentários:

  1. Toda vez que adentro em seu espaço...é como se adentra-se em um espaço que vai além da poesia...

    ...Cada linha nos perfura nos mostrando o quanto as coisas simples e ao mesmo tempo extremamente complexas...!

    Abraço

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  2. Milton Martins9/5/10 18:06

    Caio
    Sei não, mas acho que não teve efeito a alegada "afasia" no "Hoje". Suas poesias sempre são com P maiúsculo, com afasia ou sem ela. Abraço. Milton Martins

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  3. Anônimo9/5/10 23:38

    Caio o poeta é mais um falador que fingidor... Finge dor, fala dor. "Afasia" os cambau, meu amigo. Tá é fazendo charminho com a Poesia que te recebeu no abraço quando nasceu e vai "jogar as cinzas no mar" quando morrer, é isso. Tremendo poema de quem como dizia o Luiz Tortorelo quando escreve a terra treme.

    Raphinha

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  4. Caio está sério demais!
    Onde estão as paixões loucas, as noites tumultuadas?
    Deve ser excesso de maturidade. ou é mais uma que ele apronta.
    Mas que o poema ficou bonito, ficou.

    Abraços
    Jorge

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  5. Juan, são simples, as coisas, na sua complexidade. Nós é que complicamos... Obrigado por suas palavras, vindas de quem escreve como quem vive.

    Milton, os amigos são sempre suspeitos, por complacentes e generosos. A Poesia é como território minado, Milton, sobre o qual voluteia essa imponderável bailarina. Um deslise, e o poema que se exploda... Obrigado pela força, meu irmão.

    Raphael, grata surpresa e alegria. Sabe que empilhar palavras para comer moça(o) tonta(o) nada tem a ver com Poesia... Tortorello, sim, ao usar a oratória, fazia a terra tremer, e às pernas dos "maus espíritos". Bandeira, ao dizer "eu faço versos como quem morre", "como quem chora", também escreveu, em Poética:...
    "Estou farto do lirismo namorador/ Político/ Raquítico/ Sifilítico"
    ... Eu também!
    Não será bem a Poesia, mas uma de suas Musas que lançará minhas cinzas ao mar. Está escrito.

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  6. Jorge Sader, quem sabe o mais certo seja a segunda hipótese? Nada a ver com as paixões e noitadas, "assunto sério", com tudo que têm do ridículo ao extraordinário. Tão-pouco tomei %$#&|/\*!... É defeito de fabricação, mesmo.
    Abração, meu querido amigo.

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  7. Escreva sempre!

    Que a gente adora te ler :)

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  8. Caio, quem tem na veia a Poesia jamais dela declina...no máximo, a deixa guardada num canto especial para, num momento também especial, apresentá-la e entregá-la (como a uma filha) ao mundo.
    O poema é um "Desencanto", de Bandeira, às avessas:

    "... Hoje, poeta, escrevo
    de caso pensado, sem alma
    adrede e premeditado
    sem ira ou rancor ou tédio..."


    Não há porque "fechar o livro", não é mesmo?

    Obrigada pela partilha.

    Beijos

    Márcia

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  9. Eita pau. Matou a pau. Caro amigo Caio, como sempre, balançou geral. Sua poesia é a melhor música de sentimentos.

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  10. Vanessa, tem dia no qual as palavras fogem, no outro mordem, de repente beijam. Têm muito de gatos: não convém encurralá-los. Você é muito gentil.

    Márcia, além do que disse ao Raphinha e à Vanessa, é bem "engenharia reversa". No último canto, todavia, está uma das chaves do poema: como quem declina, não significando necessariamente que assim proceda.
    Está mais para Maiakowsi e Augusto dos Anjos que para a enxurrada de lamentações e martírios emocionais, intestinais, vaginais, linfáticos, hormonais, geriátricos e quejandos daquela, doutras e desta época, em nome da coitada da Poesia...
    Em Fortaleza você ensina:
    Se no destino há tristeza,
    de encontro às pedras, eu sigo,
    construindo a fortaleza
    que me servirá de abrigo.

    Beijos, minha amiga querida.

    Leonardo, saudações! Um grande prazer vê-lo aqui. De vez em quando vai bem uma chachoalhada geral... Há outros do estilo, nos quais o poste faz xixi no cachorro... Abração, a casa é sua.

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  11. excelente, grande amigo, excelente

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  12. Meu caro Roger, vindo de você, muito me honra. Leva o "ofício" a sério sem perder o bom humor, a alegria de viver.
    "São tão fáceis os poemas", para eles hoje é sempre.

    Abração, Poeta.

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  13. Declina mas carrega a bagagem.
    Não se foge de verdade - de nada, de quase nada.

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  14. Caio, o declinar da poesia foi o alvorecer de um ótimo poema. Adoro ler-te.

    abrs!

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  15. Bárbara, declinando, em qualquer atividade, de padrões "politicamente corretos" (sic!), a pauleira sempre é braba. Há, por opção, que livrar-se de tralhas e carregar só o essencial. Abração, Guerreira.

    Ana Lúcia, o como quem define o contexto. Muitas vezes, ou quase sempre, para viver um grande amor há que dele não viver. O mesmo se dá também com a Poesia. Grato pela generosidade de suas palavras, minha amiga.

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  16. Acho que quando declinamos de tudo - alma vazia - é que encontramos a mais pura poesia, Caio. Belo! - como sempre. :) beijo.

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  17. Nydia, ao nos despojarmos de qualificações e quantificações, vaidades e orgulhos vãos, resta o "cara a cara" com o que de fato somos. A poesia, como a vida, é só um ritual de passagem. Beijos, Poeta!

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  18. Caio,

    Simplesmente fantástica.

    "...como quem solerte se exprime
    ...
    como quem, por afasia,
    declina da Poesia".

    Passar por aqui é embebedar-se de fluidos que inspiram a mente vagante, que geme por poemas, antes de se fazer louco delirante.

    Grande Abraço,

    Caminha

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  19. Diz aí, Poeta - tá firme com pegada de negão, lembrei do Paulinho da Viola dizendo que tem pena daqueles que se arrastam até o chão e que nunca vai fazer parte desse imenso batalhão. Que é %$#&|/\*! que você disse ao seu amigo Jorge? Aquele abraço.

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  20. Luiz, grato por sua visita, Mestre. Espero que esteja desfrutando muito da Festa na Ilha:
    Primeiro friozinho d'outono
    Lá vêm faceiras tainhas
    Comida de sobra, festa na mesa
    Pescador, pesca, pescada, doutor.

    Sem esquecer das moças, claro!
    Abração, vamo que vamo!

    Lima, deveria ter posto o vídeo do Paulinho, cai como luva. E a garatuja são os dois famosos átomos de hidrogênio com um de oxigênio, cujo nome não se profere... Abração, saudades de você e Chris.

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  21. E, hoje poeta Caio, vim me deliciar com poemas doces, com versos tenros, com sabor e cor.Vim escorregar pelo arco-íris das suas linhas...
    Amei ler você...Um beijo

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  22. Obrigado pela visita, Rosana. Você é sempre muito gentil, e bem-vinda.
    Beijos.

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  23. Muito bom voltar aqui, seus escritos meu caro, poesia clássica de palavras rebuscadas por aí a fora e belíssima imagem de auto retrato em todos os sentidos.

    Esse intervalo aqui me lembra um trecho do meu VADIAS MIMADAS.

    “vadias
    vulgívagas elementares
    crendo de amor falar
    a torpes desesperados...” – Caio Martins

    __________________________________________________

    “Usam a sexualidade
    Como o meio...
    ... De...
    ... Serem aceitas
    São...
    ... Imensamente necessitadas de entretenimento...
    ... Para não sucumbirem diante a reflexão...
    ... De uma...
    ... Própria inquietação
    Mulheres efêmeras
    Interiormente instáveis
    Vivem
    Atraindo prazeres...
    ... Em...
    ... Virtude do vazio...
    ... De seu...
    ... Mundo interno” – Pablo Treuffar

    Ahhh...
    Obrigado pelas palavras pra Tcheca das tchecas, envaidecido.
    Sorte pra ti
    Abço

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  24. Pablo, temos uma divergência: simples escrivinhador metido a besta, me assusto ao ser classificado como clássico... Viche, cumpadi, isso é pro Castro Alves, Shakespeare, briga de cachorro grande... Das palavras, todas são válidas, quando faltam há que inventá-las, como um artesão com suas ferramentas. Não há que ter preconceitos, nem rejeitá-las pelo desconhecimento ou pretensos modernismos, tá ligado, ô truta?
    O "Tcheca" é realmente um achado! Atirou largado, m'ermão! Abração, volte sempre.

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  25. Kaká,
    Esse poema no palco ou em cima de caminhão como nos velhos tempos arrebentaria as janelas. O menino modernoso aí de cima tinha que ler o FUZUÊ, na pala da periferia para se ilustrar: não tem cocotagem.
    A outra diferença é como se encara mulher num verso e no outro. Você gosta delas, e elas sabem.
    Manda bala, Mestre. Talento é pra quem tem.

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  26. Rafinha: Hehê! "Eu acredito na rapaziada", m'rmãozinho. Prefiro crítica a elogio, é aí que aprendemos alguma coisa. E realmente as mulheres me fascinam, por menos que as decifre. Nem quero! É magia muito poderosa, zifio!
    Abração. E, com todo carinho e respeito, Kaká é a ilustre genitora! Perdeu o respeito, menino?

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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