12 de abr de 2010

O FIO DA VIDA


Caio Martins


À Elodi Barontine










(img: el federal café - fabián perez).

A fluidez das palavras desgastadas
confirmam que a certeza de viver
tanto amor descompassado
morreu! Sempre é partida...

Talvez se brinque, talvez se grite
talvez se brigue, talvez se seja
eternamente nada mais que talvez.

Dos olhos da cidade
maldita
a multidão espia:
hão de querer o poeta, o anarquista
pendurado pela perna em fio de aço
pirueteando sobre o Vale do Anhangabaú...

Hão de querer versos prematuros,
improvisados prantos e risos,
o aguardarão sempre pronto no palco
decorado, precisos
gestos encenados com apuro,
o poema pulando da boca
rápido qual um beijo ou cuspida.
Diferenças? Nada!

Sempre é partida...

Dezenas de metros sob a corda bamba
baba a multidão esperançada
de mais um desastre passional.

Rompesse o fio da vida e ficaria
o silêncio de chumbo oprimindo a vivência
mas ficam
a corrosão de tantas palavras requentadas
latejando nos ouvidos, teu canto
tua música, tua permanência cravadas
febrilmente em meus sentidos
destartalados...

É sempre a vida dispersando
a vontade confinada
aos precários confins do corpo
e infinitos ardis da memória.

Sempre, amor, a vida
é sarcástica partida.

(viaduto do chá - 1968 - editado em 11/04/2010)



20 comentários:

  1. o silêncio de chumbo oprimindo a vivência.


    ui.


    muito bonito.

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  2. Lindíssimo poema, Caio!
    Ressalto aqui os versos

    [Do poeta] "...Hão de querer versos prematuros,
    improvisados prantos e risos,
    o aguardarão sempre pronto no palco
    decorado
    (...) o poema pulando da boca (...)


    que dizem com propriedade o que se espera de nós. São expectativas às quais nem sempre podemos corresponder.

    Claro, há mais passagens e imagens magníficas nesta peça, mas hoje quis ficar com esta...como você diz, "pegou na veia".

    Um beijo e grata pela partilha.

    Márcia

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  3. Quase ouço a multidão da cidade gritando Pula! Pula! Porque é isso que acontece quando assistimos espetáculo que desafiam a vida, a convivência com a possibilidade iminente de desastre. Mas a vida é mesmo o que você descreve:ardis para continuar viva e dispersar a saída dramática, de drama, espetáculo. "Ninguém pode morrer pela beleza do espetáculo", diz a vida que quer viver, viver. Anos pesados, sem horizonte visível. Anos passados que saltaram da corda sobre o Anhangabaú e estatelaram-se no grande nada do asfalto. E estamos aqui, mais velhos, talvez um pouco mais espertos...
    Abraço fraterno.
    Clélia Helmann.

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  4. "hão de querer o poeta, o anarquista
    pendurado pela perna em fio de aço
    pirueteando sobre o Vale do Anhangabaú..."

    Que sintonia, Caio - me fez lembrar Gonzaguinha:

    "a plateia ainda aplaude ainda pede bis
    a platéia só deseja ser feliz"

    beleza de poema!!! beijooos

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  5. Esse silêncio de chumbo oprimindo a vivência de mais de 50 anos de vida me traz um eco de 1968, então escuto em minha consciência atual a ditadura imposta com a corrosão de tantas palavras requentadas.
    Seu poema mexeu mesmo comigo!
    É para isso que se faz literatura, içar sentimentos adormecidos.
    Obrigada.

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  6. Amor descompassado não sobrevive nunca. Eu não conheço nenhum. Na mosca, Caio!

    Abraço
    Jorge

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  7. Ano: 1968
    Lugar: Viaduto do Chá
    Idade: 23 anos
    Ofício: poeta, saltimbanco e cantor
    Armas: lápis, papéis, o corpo e a voz
    Estágio: combatente clandestino ainda não descoberto pela polícia...
    Estado: a vida por um fio.

    O "Fio da vida", lido no XI de Agosto e no Centro Acadêmico de São Caetano, publicado em jornais da cidade em 1968, foi definido por Ricardo Bandeira como um grito contra os "fiosdasputas".

    Vanessa, essencialmente, nada mudou: ao derrotado silêncio covarde imposto sucedeu-se a gritaria medíocre aposta. Abusando do seu sofá, digo-te que ganhamos a batalha e perdemos a guerra.

    Márcia, Neruda morreu de banzo no exílio e, a Lorca, calaram-no com uma bala. Não suportam os libertários que não se prestam a divertir os poderosos. Jamais seremos, nas pegadas de Carlos "...poeta[s] de um mundo caduco". Mas, na esência de teus versos o amor, intrépido, resiste, persiste, insiste...

    Clélia, Clélia: que alegria vê-la assim, a cada instante mais sensível e mais sábia... Tuas premonições me acompanharam a vida, a sorte. A multidão seguirá urrando: mas não saltaremos "da ponte/ e da vida" severina... E "não pode[mo]s/
    sozinho[s]/ dinamitar a Ilha de Manhatan". Não seria sábio...

    Nydia, irmãzinha na espiritualidade... Teu "dos poetas, loucuras e vaidades", publicado no mesmo dia no Longitudes, diz: "no fino fio/ que a lucidez/ separa da loucura/o poeta se equilibra[...]/ sou apenas uma tola/(uma louca de pedra)"...
    De um maluco de pedra para outra, meu mais terno abraço.

    Rita, vivemos, hoje, sob um "barulho de chumbo"... Aqui e o "Prosa e Verso de Boteco" são focos de resistência, mesmo que frágeis e precários. Como diz a Clélia, estamos mais velhos, mais sábios... Mas, "É preciso estar atento e forte/ não temos tempo de temer a morte..." E, também tenho soberana bronca de traças: belíssima matéria em seu site, a "Minhas Cartas".

    Eitchaaa!!! Esse é o Jorjão da gota serena... Quanta pedra empurrada ladeira acima! 'tá certo: amor exige sincronização, afinidade e harmonia, mesmo e principalmente através de dissonâncias. Que honra, "cumpadi"... Meu irmão, amigo, parceiro e Mestre!

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  8. Fuad Sayar13/4/10 05:17

    Caro Caio

    Lindo. Contudo muito triste.
    Podes crer, entendo sua
    postura.

    Fuad

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  9. Elodi Barontine13/4/10 14:12

    Lindo!... Lindo!...

    Eta amigo véio.... Que saudade!... O bom é que esses tempos nunca passam. E vão seguir com a gente e...ternamente...

    É o fio da vida.... é isso aí meu querido.

    Beijão.

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  10. Caio, doce poeta...Fiquei imaginando o poeta na corda bamba, querendo dizer seus versos de amor e de esperança, de raiva e de desatinos e o povo lá, querendo escutar, antes que ele se vá...É triste esperar pelos poemas que queríamos escrever e não conseguimos...Está aí, meus aplausos pro poeta que escreve o que eu queria escrever...quanta sensibilidade! Eu AMEI, pra variar...
    Beijo...

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  11. Meu querido Turko Loco Fuad, imensa alegria em vê-lo aqui. Grato por suas palavras. Partimos, e é triste; nos encontramos, e é só alegria. E novamente, e o ciclo se repete...
    Meu abraço de irmão e amigo, também empurramos muita pedra ladeira acima. E seguiremos.

    Elodi... que posso dizer-te, a mais que o poema? Sei:

    Meu amor
    tu partiste há tanto tempo, mas
    essa dor que tua ausência traz
    faz-se infinda neste peito meu...


    Na doce voz de Célia, tuas mãos mágicas, nos fios de mágico violão, tecendo harmonia rara em dissonâncias, tom menor... Depois, as palavras de carinho de Simone, e foi só um adeus... Fazemos novas canções? Tom maior, samba enredo? Sim?

    Beijão, abração!

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  12. Milton Martins13/4/10 19:50

    Caio
    O seu poema traz uma dose de amargura. Partida, chegada, chegada, partida é tudo mais ou menos a mesma coisa. O Fuad disse que é triste. Eu concordo, mas é sobretudo bonita poesia. Abraço. Milton Martins

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  13. Milton, realmente tudo é a mesma coisa, parte de nossa passagem pelo planetinha maluco. Carregar mágoas, rancores e tristezas é vereda que não trilho, todavia a visão de mundo, senão sarcástica, é áspera. Somos uns animaizinhos muito perigosos.
    Grato pela visita, e parabéns duplo, pela belíssima crônica "Como Ousas? Tudo o que ficou" no Prosa e Verso de Boteco, e a sobre os candidatos, no Milton Martins & Artigos. As recomendo a todos os leitores.
    Abração.

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  14. "Hão de querer versos prematuros,
    improvisados prantos e risos,
    o aguardarão sempre pronto no palco
    decorado, precisos
    gestos encenados com apuro,
    o poema pulando da boca
    rápido qual um beijo..."

    Lindo demais!!

    amplexos!

    Márcia

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  15. Márcia Cristina, você diz em "A vida" no Poetar é preciso:

    [...]
    "A vida é cachoeira, é fogo em brasa
    É bolo de fubá, café com pão"
    [...]

    Pois, a multidão que espere: celebrar a vida é ritual demorado, exige paciência de cachoeira e pertinência de braseiro, ou haverá engasgos com o bolo de fubá, café com pão...

    Grato pela presença, volte sempre.

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  16. Os precários confins do corpo têm um dono - nada precário.
    No Viaduto do Chá um achado de belezas -cruas - mas belezas.

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  17. Olá, Caio! Vim de seu amigo Jorge até aqui...

    Belo texto!...

    Bela e pensativa
    A mulher põe no olhar
    Versos de um poeta

    Um abraço.

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  18. Bárbara, é vero... As coisas, sem fantasias ou ilusões, tais como são, têm beleza própria. Há que saber ver. Você sabe. Grato pela visita.

    Tereza, meu querido amigo e irmão Jorge Sader é uma das figuras humanas mais plenas que conheço.

    Uma honra, recebê-la aqui. Tenho uma muda de cajueiro ainda na lata, logo a passo ao quintal e esperarei, ansioso, pelas flores e frutas. Certamente algo escreverei, para festejar.
    Abração.

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  19. Teimamos em quere tudo para sempre....mas sabe, pode ser sarcástico, ou um ardil.

    Porém, dentro de mim, existe um lugar onde tudo é pra sempre.

    Ler vc, me mostrou esse lugarzinho de novo.

    Eu acredito...até em fadas, quando leio um poema assim, otimista de verdade. Sério!

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  20. Walkíria, sábias palavras... creio que cada célula e seus componentes guardam tudo para sempre, memórias... A vida, dinâmica e indiferente, segue seu curso queiramos ou não. E vamos nos despedindo e chegando, um pouco a cada dia.

    Abração! Grato por sua chegada, sempre positiva e confiante.

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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