9 de mar de 2010

IMPACTO


Caio Martins


Para Ana Lúcia.










(img: fabian perez - marmol negro II)

Já não seria, este
um tempo de lágrimas.
Que dizer, então,
palavras?

Fechadas as portas todas
farpados quaisquer caminhos
restaria, e nada resta,
senão
tuas formas bobas de beijar-me
eu, de morder-te
e polir velhas nuanças
de estruturas corroídas.

Que o meu amor nada é,
senão angústia e pânico
desconcertado de voltar
ao lugar-comum de gestos
parcos, solidão e vácuo.

Que, no salto intempestivo,
é acre o meu amor mais doce
desdelírio, sombra e sal.

Não, não!

Não seria, este
um tempo de sim, e sim
de espasmos
pois já não seria, era
será
o chocar com portas
farpadas
rasgar-se em cercas
fechadas...

Resta, meu amor,
por nada creditar ao amor
que não liberte,
este tempo ácido
cinza
de não.

15 comentários:

  1. Belíssimo.

    Tempos ácidos, cinza, não.

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  2. Tem razão aqueles que entendem ser o não de cor cinza...

    Abraço
    Jorge

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  3. Anônimo9/3/10 21:35

    O amor tem um gosto, a lembrança do amor, outro. às vezes se tinge do desgosto de viver. Mas o bom do amor pode alimentar depois de passado, ido com os anos, como amável fantasma. Recebemos um não do que já foi sim; deixar o sim e o não despegarem-se da cola de nossas mãos, e inventar o hoje?
    Bela forma de um poema inconformado!
    Clélia Helmann

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  4. Só fica cinza quando dói, ao contrário de que quando felicita, ele colore o tempo mesmo com chuva e relâmpagos.
    É assim, dói, machuca, faz ferida e depois fica ali, a marca, que nada mais é que a saudade em forma de cicatriz...

    Poeta...amei ler você...

    Beijo

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  5. Vanessa, assim são algumas épocas. E há que dizer não ao desamor, ao descaso, ao despropósito, ao desmando... Então, o tempo suaviza e as cores voltam.

    Jorge, há cor cinza também no aço... O "não" é tão conclusivo quanto um golpe de espada. Encerra o caso, corta os eventos que um "talvez", ou "sim" acarretariam.

    Clélia, extremamente inconformado e muitas vezes, para que o amor espalhe sua essência libertária, há que dizer não. Foi ao ponto, como sempre.

    Rosana, de aí o amor só iluminar e colorir o tempo se realmente "deixar[mos] o sim e o não despegarem-se da cola de nossas mãos, e inventar[mos] o hoje..." como diz a Clélia. Sem sérias cicatrizes, de preferência.

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  6. "...Que o meu amor nada é,
    senão angústia e pânico (...)

    (...)é acre o meu amor mais doce
    desdelírio, sombra e sal (...)

    (...)por nada creditar ao amor
    que não liberte..."


    Quando não resta nada a dizer nem a chorar, quando o sentimento aprisiona e angustia, não há mais por quê delirar. Só nos resta o "não" como certeza de algo findo, o que nos possibilita abrir o coração para novos "sins".

    Parabéns, Caio.

    Beijos

    Márcia

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  7. Márcia, essa é a questão: nada há que creditar a ilusões, como não há mérito algum em lamentar-se por delas viver, ainda mais restringindo a dores metafísicas de corno ou cotovelo.

    Nestas épocas sombrias que vivenciamos, a única opção é buscar os "sins" que libertam. A nós, e aos demais.

    Esta é a mensagem do que você selecionou do núcleo do poema. Sou-lhe grato por isso, de todo coração.

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  8. Ô Caio, que poema mais triste, meu querido... e ao mesmo tempo tão forte e tão "volta por cima"... até o gatinho sumiu.Muitos beijos e sabe que estamos sempre com você no coração.

    Marly e Guto.

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  9. Marly e Guto, não creio que seja triste, o sentido é mais de inconformismo e atitude. Mandei o pulguento passear por estar retardando a abertura da página, uma hora qualquer ele volta.

    Meu abraço carinhoso, voltem sempre. Feliz com a visita!

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  10. incrível.
    e obrigada mesmo, por todos os comentários. me fazem continuar.

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  11. Liih, que alegria, vê-la por aqui. Tenho mencionado você para pessoas "choronas", pela sua atitude e determinação.

    E sei que, detrás da figurinha apaixonada por girafas e muay-tai, chaveiros do Garfield, há uma delicadeza imensa vertendo em palavras de alento para todos nós.

    Volte sempre, é uma honra.

    Beijos.

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  12. Tudo que quremos é lindo.Até à vida que às vezes é colorida,sempre está com mesma cor.Martins,grato pela visíta à minha pagina. Um abraço de amigo.Seja feliz. boscolysilver.

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  13. Boscoly, obrigado pela visita. E tenho certeza de que se trabalharmos para tal, seremos felizes, superando dificuldades e conquistando objetivos.

    Forte abraço.

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  14. Seu poema me deixou tonta com a rodada de saias que você deu, mesmo sem possuí-las. E o amor deve ser assim mesmo encarado: não se gasta à toa,não se esfarela a pedra de sal que lhe dá sabor, e nem se corrói dele a pilastra mor.
    Melhor o não aberto, escancarado, que o sim dúbio
    que provoca feridas com o choque em suas portas farpadas, como disse você muito sabiamente.
    Bom fim de semana.

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  15. Teresinha, não por isso, se minha mulher as tem, são minhas... Não pode haver amor onde não houver libertação. Senão, é coleira, grilhões. E tem de aparecer o tempo de "não".
    Abraços, volte sempre.

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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