24 de fev de 2010

O JANTAR


Caio Martins

(Há um ano, "O Jantar" inaugurou o Poemas e Crônicas)

Acomodou o carro na garagem meticulosamente. Não fosse dar motivo para o salame do vizinho dizer que melhor aprendesse a dirigir, enfim, aquelas questões medíocres dos condomínios de luxo onde todos mandam e ninguém obedece. Porta do elevador, lembrou-se dos cigarros. Outro problema... Menina, e o bicho-papão era o sexo, com ameaças do inferno sob a égide dos pecados da carne fabricando gerações de infelizes, principalmente (como sempre) mulheres, durante séculos de fundamentalismo moral como base para a dominação político-ideológica. Entre queimar sutiãs e calcinhas e quatro décadas de guerra inclemente, agora eram livres e o mundo que se ferrasse. Entre a cama e o cinzeiro, nem tudo era só fumaças.

Foi ao botequinho ali perto, tomou um café cozido de máquina, pediu os cigarros sem remorsos e, feliz, olhou a rua com outros olhos, agora de um verde mais vivo sob cílios escuros impertinentes. Foi quando viu a mesma figura de décadas, jeitão de enfezado, passos largos e rápidos, claro que de cara mais enrugada e cabelos mais ralos, porém era ele, inteiro e elástico: amor de juventude jamais consumado, aquela paixão feérica beirando a loucura ainda enquistada nos ossos, com tantas esperanças quanto dilúvios em tantas fantasias densas e solitárias, até parecer completamente esquecido, e lá vinha subindo a ladeira, bagunçando-lhe a auto-suficiência. Parou no meio da calçada caprichando na pose.

Ele veio, veio e foi freando, ela miou-lhe o nome com o que achou ser o tom mais charmoso. Aí, reconheceram-se e deu até abraço, num segundo a vida posta em dia, ela alçando ombros e empinando retaguardas, ele olhando curioso, até meio sem-jeito. Rápida no gatilho, disse-lhe que no sábado haveria um jantar em sua casa, todos os antigos amigos de escola lá estariam, ele não poderia faltar. Tendo-o evasivo, fez beicinho, disse que era um desconsiderado, todos gostariam de vê-lo, seria a surpresa da festa, pediu e exigiu, implorou e choramingou, até uma lagriminha apareceu, vilã. Conseguiu o compromisso.

No dia, fez uma revolução no apartamento. Flores, incensos, lençóis limpos, velhas músicas de Johnny Mattis engatilhadas na anacrônica vitrola, as de Jobim, João Gilberto, Vinícius e outros no DVD-player, a comidinha caseira especial encomendada na medida no “dellivery” da esquina, um vinho branco geladinho, ganho nalgum fim de ano que ficara perdido na estante, luz de velas... Horas no banho, sais perfumados, hidratante, perfuminho aqui, corzinha ali, blusa transparente, bata fina, lingerie vermelha, enfim, todo o cenário pronto para o apocalipse. Vinha ninguém, não. Apesar das quatro décadas de atraso ele seria, finalmente, o prato principal da festa.

Atendeu à porta diluindo-se em sensualidades. Não fora, afinal, a ruiva mais deslumbrante da escola, gerando até pancadaria da moçada que com ela queria dançar, nos bailes devidamente vigiados por mães ansiosas de filhas desesperadas? Mas ele parou, perplexo. Olhou em volta, sorriu e balançou a cabeça, decepcionado e compreensivo. Nem sentou. Disse ter mulher a quem amava e que não ficaria, que o desculpasse e se foi, sem incomodar-se com suas lágrimas. Então, ficou ali sentada, chorando baixinho. Tantos anos passados e dela, que fora linda, ficara-lhe, como disse o poeta, apenas solitária lenda ante um jantar frio e o vinho quente, a frustração densa e o coração despedaçado a lamentar-se de que Deus não é justo com as mulheres.

(img: a ruiva jessica, em "uma cilada para roger rabbit".)

Atrás da porta - Elis Regina

Chico Buarque e Francis Hime



16 comentários:

  1. Belíssima crônica! Afinal, o que poderíamos esperar de Caio Martins senão presentes literários como este?
    Elis também chega para celebrar o aniversário do "Poemas", que espero permaneça em nossas vidas eternamente.

    Parabéns, Caio!

    Beijos, com carinho

    Márcia

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  2. Fiquei curiosa quando vi a foto da Jéssica Rabbit e pensei.."o que será que o Caio anda aprontando?".E já gostei. Ao ler, me deparei com uma crônica deliciosa...só você mesmo para superar as minhas expectativas!!

    Um super abraço!

    p.s: Obrigada pelo presente: Elis Regina!!

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  3. Guilherme Jr.25/2/10 10:35

    Caio, na sua sabedoria infinita Deus nos fez mulheres e homens e nos deixou a escolha e o risco do que fazemos com esse fato. Para quem vive de aparências parece que o preço é sempre muito alto no fim da fita. Pode mesmo terminar como diz o Chico Buarque no Atrás da Porta, cantado aqui pela maravilhosa Elis. De novo tudo se combina como sempre faz nas suas postagens.

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  4. Márcia, é privilégio ímpar contar com sua amizade, carinho e orientação. Nos obrigam, sem quaisquer exigências, a sermos exigentes com o que publicamos. Vamos aprendendo espelhados nos melhores Mestres, dentre os quais, você. Só temos que agradecer.

    Sol, em que pese a tragédia da personagem, haveria de ter um toque de bom humor. A escolha da exuberante Jessica Rabitt foi "dolosa". Igualmente, a letra do Chico.

    Guille, "Atrás da porta" é retrato do estado lastimável de uma paixão, quando o cérebro atinge estágio de ostra em estado terminal. Essa trilha sonora com a magia de Elis retirou, do texto "a seco", o aspecto hilário, estabelecendo cumplicidade dramática com a personagem.
    Grato por suas palavras sempre pertinentes.

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  5. E dessa vez não temos cabarés famosos, tangos alucicinantes, mas um caso que bem poderia ter acontecido com qualquer mortal!

    Ainda estou pensando no vinho branco quente, mangalô três vezes.

    Abraçosocythsa

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  6. Sader, uma amiga de muitos anos disse-me, há pouco, que os deuses, de qualquer gênero, nada têm a ver com isso... e que, na verdade, as mulheres é que não são lá muito justas com as mulheres. Nós? Seguiremos eternamente abobados com seu mistério e fascínio.

    Mangalô pro vinho quente? Truco!

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  7. Chris Dunch26/2/10 17:12

    Caio, venho do Boteco e deixei lá um puxão de orelhas para você e o Jorge Sader. Dou-lhe mais um por garantia mas amei esta crônica, que foi publicada no ABC Repórter em primeira mão em 2007. É verdade que não podemos viver de aparências e ilusões e que amor se constrói, não se compra e nem se vende. Li com a Elis cantando e fiquei muito comovida, que tragédia solidão com comida fria e vinho quente.
    Bjs. Tchüss.

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  8. Belo e triste.

    Sim, deus é injusto, rss.

    E essa música é de cortar em pedacinhos...

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  9. Chris, escrevera texto leve comemorando os 15.000 visitantes do Boteco em um ano, bem "festeiro" - como diz nossa querida Márcia Sanchez - enquanto acompanhava uma palestra do pessoal do WWF. Tétrico... Não há como não revoltar-se. De sequir o assassinato da Natureza, o planetinha maluco já era...
    Todavia, mesmo de orelhas-quentes, fiquei feliz em vê-la de volta. Abraços também para o Lima, e não sumam novamente, pô!

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  10. Vanessa, como inventamos os deuses à nossa imagem e semelhança, não poderiam ser justos... De aí o valor de nos solidarizarmos e comovermos, como você o faz, com um drama alheio solitário.
    Indubitavelmente, a canção nos tritura, e bem devagarinho...

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  11. Milton Martins28/2/10 01:32

    Caio
    Para mim, que perplexo vejo os dias se sucederem rapidamente, como nunca dantes, na sua crônica, a heroina não percebeu essa dura realidade.
    O tempo passou e ela não perguntou para o antigo amor o que para ele mudara. Claro que não quero "interpretar" sua bela crônica mui fácil de captar mas se trata de um tema que me interessa muito. Acho até que, de outro modo, com outros personagens já falei sobre isso (salvo engano, uma crônica sobre isso é "Solidão" ou outra "Como ousas?" que estão nalgum lugar inseridas). Crônica simples que diz tudo. Muito bonita.

    Abraço.

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  12. Grande Milton, seu comentário muito valoriza a crônica "O Jantar", vindo de quem se preocupa, desde muito jovem, com a dramática complexidade da condição humana.
    Tanto "Solidão" quanto "Como Ousas?", belíssimos textos, estão no Prosa e Verso de Boteco, a segunda também no seu blogue, o Temas Livres.
    Merecem ser lidos.

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  13. Qualquer expectativa em relação ao outro, é sempre perigosa .
    Momento de Elis , quem nunca o teve?
    Se bem que , a rejeição embute medo.
    Dois lados, sempre dois lados...

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  14. Bárbara, é fato: sempre verso e reverso, e mesma medalha. Sartre dizia que "o inferno é o outro", mas Simone de Beauvoir, sábia, afirmava que "Nós, para os outros, apenas criamos pontos de partida". Até quando terminamos ganindo atrás da porta...
    Abração, obrigado pela presença.

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  15. Oi Caio...
    Nunca pensei que não haveria festa...
    Nunca pensei que ela ousasse tanto...
    Nunca pensei que ele também ousasse de tal forma...
    Mulheres...
    Desta vez se fez presente a vontade dele...E ela amargando o sabor da decepção por ser tão ousada.
    Muiro bem escrito, elaborado...
    Apenas, amei!!!
    Beijo

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  16. Que bom tê-la novamente por aqui, Rosana. Agradeço pelo comentário "na medida certa". Virou e mexeu, o jogo sai torto... Ousar é sempre necessário... porém, só há que lamentar-se quando se é o ator errado, na cena errada e com o roteiro errado.

    Beijos, volte sempre. É um prazer.

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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