27 de out de 2009

SEGREDOS


Caio Martins










(img: cvm - leca-tela13- em "mulheres, imagens e poemas"/98)

Tens ar indefeso, indefinível
nem de mulher, nem de criança
e guardas segredos impossíveis
que os não entende a própria natureza.

E se, incauto, me lanço em tuas trilhas
- indecifradas trajetórias sem retorno -
telúrica força me aterra
porém, por paixão, não retrocedo...

E me retens como se fosses dona
- por mais que eu esperneie, e bata, e grite -
entre troncos, frutas e sementes
por saberes que sou teus descaminhos.

Conheço teu poder e tuas manhas
e mesmo se custando uma existência
só faço ceder à tua magia
deslumbrado ante tantos brinquedinhos...

12 de out de 2009

EXÍLIOS


Caio Martins

Para Maria Augusta - (Buenos Aires/1974)

Atrás, um exército, e dos lados, mata por cima. Aquela serra era, todavia ruim e trancada, léguas de mato menos inimigo que tantos tais que vira. Do grupo de besta de cidade metido em coisa de armas, salvava ninguém. Gabirus. Um me desafiava, passou bala perto da orelha, cismei. Vi que, mais uma, aquele estava morto. Ajeitei defesas, mamente, eu. A moça me tinha dito, séria, as tramas de levar-me para o bando deles, na sombra.

Nem sabia, desgostei profundo. Asco. Não cheiravam nem fediam.
Daí agradeci, ela estava com uma blusa aberta, mostrando um seio pequeno, gostoso de se brincar com ele; levei a mão, veio, arisco, tapa na cara, jaguatirica. Seguiu falando como se nada, a cara ardia - eitcha! - deslumbre que tinha pela moça; inteira. Nesse dia, já no terminar dos vam’bora, a gente caminhava passo a passo, serra acima, oscilando debaixo de fuzil e das mochilas. Pesadas, estavam. Muito arquejava demais, ela, que era coragem que se me esvaía. Derroteiros. Peleja alheia.

As correias entravam fundo nos ombros morenos, as pernas tremiam a cada passo, então parei - que a gente era bengala dos cegos - sem dizer nada arranquei-lhe a mochila, passei para mim, peso de mula de tropa. Ela falou só com os olhos. Fomos subindo, subindo, ela atrás de mim com as armas, empurrando quando eu pedia, a pendente aquela judiava, descaminhos. Cantava na cabeça para Ossãnhim, nenhum pé se perdia. Chegamos, enfim, onde era o ponto de descanso, numa beira de serra danada de funda; lá em cima, um ar que ardia. Ela ajeitou o mochilão, eu fiquei sentado, respirando fundo, fungando bufado. Todo o corpo um formigueiro, eletricidade, onçado. Chegaram, os assonsados.

Ela arrumou minha rede, pedi no chão, desarrumou, fez a cama dela colada. Aí o do comando arengou sobre tarefas, elogiou a vanguarda, ela e eu, me nomeou chefe de operações para o dia seguinte. Pedi, num particular, que não. Que já estava tudo no fim, fuga do cerco, que não começasse de novo então, incomodasse com besteiras, que não valia a pena, que a situação não dava para mais, que melhor assim, de pau-mandado, no cabresto, fazendo direito, mas não mandador, capataz sem autoridade de gente sem lei que não cidades. Adiantou nada. O caboclo estava trembleque nas pernas, injuriado: queria bicho do mato para garantir a fuga. Eu.

Daí, enfezado e armando desastres, deitei, antes passei na queda d’água para escorrer cansaço. E depois de tanto tempo - Eta! banho gelado da gota serena! - fiquei num cheiro bom de limpo e lavado; até peguei navalha e cortei barba, no escuro do lusco-fusco do pé da noite, tivesse uma água de barbear de cheiro, ficaria bom demais. Deitando, virei para o lado de lá do canto dela. Daí que depois da guarda, madrugadinhas, veio, e enveredou na minha lona. Chão, folhas debaixo.

Veio... Disparou meu coração tão forte que parecia que o mundo ouvia. Cheirava a sabonete, perfume de mato, cheirava a mulher nos aprontes, cheirava! Orvalhos... Foi uma eternidade muito devagarinha, aquela. Sem susto, cada um sabia do outro desde sempre, a gente era uma coisa que mal se movia. Chorou muda, dentes fundo no meu ombro, que não ouvissem. Clandestinos. Mundão errado, dentro de cada um do resto vivia uma violência pantanosa, como se tudo o que era sentido de vida atolasse, ali. Para mim, despenava, boi de guia. Uma só vez tanta ternura, definitiva, e nunca mais? Assim?

Zero nos prazos, pé no mundo, decidi que não voltaria à guerra. Não mais soube. Cada um com sua saga, tercei ferros, forçado, em outras terras sem matas, serras, ela. Ficou na cicatriz no ombro, no gosto e cheiro moreno, nos grotões das memórias tontas - tantas demais - delicadezas na ressaca de entreveros, na dúvida de ter pego - únicos hora e tempo certos - na serra, a senda errada da vida, ela para outros lados. Não mais. Exílios...

(img: cvm-maciçorubi /H52- trecho de “Anti-horário” - 1976 - RBI)


8 de out de 2009

ELEGIA MELANCÓLICA


Caio Martins










(img: cvm - sucatas - IRFMatarazzo.)

Não sabes inventar flores.
Apenas existe em ti
a certeza de carregar absurdos
diante destas interrogações todas.

Máscaras grotescas te espiam
dançando em cima do muro.

Tocar violão, ler jornal
andar na rua gritando
música de carnaval...
Adianta, tudo isso?

Mistérios sorridentes
acenam a cada papel que o vento leva.

Pois que leve então o vento
todas as revoltas, todas as violências
que deixares escritas com fel.

Não chegarás a viver os tempos
onde não haja mais negócios
sempre negócios, amigos à parte.

Não chegarás a viver o tempo
de sentar na rua e cantar
por gosto, bobeira, vontade.

Dentre poucas coisas
(complexos, medos
traumas, desejos
teu relógio e a certeza da morte)
carregas em ti a certeza
de não saber inventar flores...

Tudo o mais não é impossível.

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