20 de set de 2009

TRATO COM O DIABO


Caio Martins

Aquilo era coisa muito antiga, diriam os amigos mergulhados em hi-tec, chips, TI e parafernália toda da nova era tecnológica... Mas, fizera um trato. Outra coisa fora de moda, característica sua, era a de cumprir compromissos e promessas. Ademais de estudar gramática, ler Castro Alves, Machado, Drummond, Guimarães, Veríssimo - a nata da literatura brasileira. Podia? Não, não podia...

Não fumava, não cheirava, de vez em quando tomava uma caipirinha aguada e ficava rindo feito besta. Era careta, sabia. Na indecisão, ficara uns dias na quietude de uma chácara, meditando. A velhinha encarquilhada e quase centenária lhe dissera, anos atrás, dedo em riste na direção do vulto que passava na rua em exagero de velocidade: - É o Capeta! Esse é o Diabo... - e correra, lentamente e resmungando, a acender vela branca, botar copo d'água no altarzinho da Virgem para o Anjo da Guarda. E cada vez que o Tinhoso, o Coisa Ruim passava com estardalhaço, largando fumaça e cheiro de enxofre, insultava corajosamente, apesar da idade.

Carregava o cansaço dos últimos da tribo, da galera nascida e criada junta, que agora se desfazia perigosamente, cada com seu par, outros destinos e desígnios e aquela fé e força que tanto os unira, destinava-se a objetos e pessoas fora do círculo acroamático original. O cyberespaço era infinito, a interação teclada substituíra, descontroladamente, aquele toque, aquela palavra, aquela troca de emoções miudinhas... até mesmo a boa trombada, vez por outra, por qualquer motivo fútil. Junto ao cansaço, trazia a determinação de mudar as coisas.

Daí, armara-se de coragem. Não tinha pelo menos uns mil e-mails carregados de intenções, propostas, promessas, sonhos, mentirinhas e mentironas, além das vezes em que, com jeito e manha, permitira levar-se ao topo do prédio e, dali, ouvira tantas vezes que tudo aquilo seria seu? Naquele dia, depois da meditação e passando longe dos incensos e velas da avó, agora mais que centenária, decidira-se: ia fazer a besteira. Foi uma longa preparação. Descobrir a hora e o dia certos, o lugar propício, preparar-se com requinte e, essencialmente, manter o mais absoluto e resoluto segredo.

Foi gentil, estava tão assustado quanto ela, porém, apesar de toda a paixão, a tratara como se delicada flor, precioso cristal. O trauma da virgindade perdida confirmara-se uma lenda, o outrora menino que infernara as ruas com a moto barulhenta e fedorenta mostrara-se muito carinhoso, paciente e cuidadoso. Choraram juntos. Esse, o trato... Terminando o dia, um pôr-do-sol fantástico sobre a cidade, ficaram abraçados quietinhos, sem nada dizer, comovidos feito o diabo.

(img: eros e psiqué - 1817 - óleo sobre tela de Jacques-Louis David)

8 comentários:

  1. Chris Dunch20/9/09 10:42

    Conheço alguma coisa muito parecida com esse relato... Nas imprevisíveis transformações que sofre uma mulher a primeira vez é uma aposta cega. Que bom, achar um "capetinha" desses capaz de ser um cavalheiro e respeitar a condição feminina... Achando um assim há mesmo que fazer um trato...

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  2. Choraram juntos... ficaram abraçados quietinhos, sem nada dizer, comovidos feito o diabo.

    Falar o que, diante de tudo isso?
    Pra lá de bom, Caio.

    Abraço.

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  3. Comovidos feito o Diabo é boa! Comovente o conto...
    um abração!

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  4. Chris, todos temos sorte se entendemos que sexo não é luta de MMA, K1 ou o que valha. Como toda relação, requer inteligência e sensibilidade.

    Jorjão, é isso, só quem viveu tais momentosos reconhece, e cala.

    Mari, grato pela sua presença, tão gentil. Obriga a melhorar cada vez mais, tentar escrever sempre com mais propriedade. Passo mais tarde pelo seu blog para respirar ares inspirados.

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  5. Caio, você disse tudo aqui... Por que complicar o que é tão simples? Gostei da cumplicidade do casal, fundamental para um relacionamento sadio e prazeroso.
    Linda crônica!

    Beijos

    Márcia

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  6. Márcia, grato pela deferência. "As coisas simples, como elas são" azedam quando mistificadas, dando respostas corrosivas.
    De aí meu respeito e admiração por seu estilo límpido, inteligente e sensível, exemplo a ser seguido.

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  7. Oi Caio! Vc quer sugestões para o seu Blog? O que vc quer mudar? Será que entendi direito? hehehe!!
    beijo

    Marisete Zanon

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  8. Mari, o Rapadura ficará como está, com seu jeito quadradão e simples. O Prosa e Verso de Boteco, com sua turminha braba, mudará devagar, passo a passo, sempre em função do texto e não da aparência. Obrigado pela presença, sempre bem-vinda.

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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