1 de jul de 2009

O CÃO DE AVISOS


Caio Martins










(img: cvm - porta do cárcere da Central de Polícia montevideana, esquina de San José e Yi)

A estaca
estanca a corda
no caminho da rua.

Nesta madrugada em solitária
tudo foi gasto, perdido
na corrosão de mitos.

Já gritei, briguei, joguei
a sorte, a vida, a morte
preparei conspirações
quedas e ascensões.
Enjaulado
confesso ter perdido batalhas.

A estaca
estanca a corda
no caminho da rua.

Dentro da madrugada uiva um cão
louco e comovente
desde sempre preso.

Coleira, corda, portão
o caminho da rua e da vida
acenando do outro lado.
Solidarizo-me.

Sempre fui solidário
com vira-latas,
nem sempre minha mão ficou contida ...

Uiva, meu caro amigo.
Dentro da noite, noite adentro
uiva
até fundires teu lamento
ao cimento da tua estaca.

Uiva alto e a bom som
até fundirem-se, pele e couro
a coleira e teu pescoço, teu ódio
e o osso que roemos juntos.
Uiva, para a noite escutar.

De minha cela de prisão, compañero,
eu que já fui guerreiro
e já não sou poeta, mais nada
uivarei contigo
de meu poleiro.

(montevideo - 27/11/1969 - aislamento del centro general
de instrucción de oficiales de la reserva - cgior)


9 comentários:

  1. Caio,

    Primeiro, venho agradecer as doces palavras que deixaste pra mim no meu pequeno espaço de liberdade de expressão.

    Segundo, plena e inteira, eu me fiz leitura desses versos, e como pulsa os sentimentos e as sensações de cada palavra aqui formada, em algo que pelo que notei, foi vivido.

    Parabenizo com coração a ti.
    Lendo seu perfil, imagino o quanto és, e o quanto já não experimentou, para esse espaço ficar até pequeno para tanto que dentro há.

    Que haja muita troca entre nós.

    Beijos na alma

    Chris

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  2. Caio, este poema é tão intenso que chega a doer o peito, amigo!

    A prisão - um fato - revela também um sentimento: o de "estar emocionalmente aprisionado". As amarras existem e parecem querer estancar algo que não pode ser contido: a nobreza de caráter, a solidariedade, mesmo diante da solidão.

    Obrigada pela partilha!

    Beijos

    Márcia

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  3. Parada dura a casa de pedra mano.... tô na que o truta queimou a fita na boa mas ficou sempre na moral e tem mais história que a bíblia, tá ligado?? Bota o babado pra correr mano-véio que a galera toda quer saber cumé que foi. Valeu aí mano mandou bem. Fui....

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  4. Chris , tudo ficou na história. "Viajei, briguei, aprendi"( Drummond: As bruxas ), vivi. A vida foi complacente, não se foi. E essa delicadeza que em ti se reconhece, faz valer a pena.
    Marcinha, só há solidão quando nos ausentamos de nós mesmos, como diz, do Acre, o amigo Pitter Lucena. Que o beijo da vida "...seja um beijo mais do que faceiro", e teu sentir e expressão jamais se percam, num lindo "furor festeiro".
    Lima, Lima : "O poeta é um fingidor"( Álvaro de Campos ), ou, como diz o Dudu Nobre, "tinha cachaça no meio". Na hora do pega, bom malaco não chia, cabrito que é burro, berra. Passou, maninho. Ficou a certeza de que era justo. O resto, mais que poesia, é verso.

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  5. Como sempre, de situações duras e críticas, Caio acaba fazendo graça:
    "De minha cela de prisão,compañero,
    eu que já fui guerreiro
    e já não sou poeta, mais nada
    uivarei contigo de meu poleiro.
    Eita Venâncio!

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  6. Chris Dunch4/7/09 07:51

    Nunca nos contou a história querido amigo, paizão, mestre e conselheiro (não falas nada, escutas muito). Do que sabemos, ias fugir da prisão ajudado pelos operários de um frigorífico, que estacionariam um caminhão junto a um muro alto e pularias em cima com outros presos, e que um soldado da guarda punha no correio cartas tuas para a família e amigos. Tens que escrever a história toda não só por eles mas por ti e teu código de honra difícil de ser encontrado e mais ainda de ser seguido. A publicação desse poema nos dá esperanças de conhecer a saga de um poeta libertário, algum dia. Promete que sim, e também faço minhas as palavras dos demais, destacando as do Jorge Sader. Bjs. Tchüss.

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  7. Jorge e Chris: sempre há lugar para bom humor, principalmente se saímos vivos do incêndio. Prometo que um dia conto os causos. É só coincidir a insônia de todo mundo... faço dormirem rapidinho, com direito a cafuné e cantiga de ninar. Abração.

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  8. MILTON MARTINS. Piracicaba24/7/09 17:44

    Caio
    Trata-se este poema em prosa um dos mais lindos que li de sua autoria. Um sentido de auto-crítica, revelado fragmentos de um passado cujos espísódios eu próprio só conheço "fragmentos". Há passados que não podem ser passados, hão que ser passados para o presente e para o futuro. Agora, esta de "e já não sou poeta, mais nada...". Se algo vc é ou sempre foi é poeta, ô meu.

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  9. Grande Milton,

    sigo me encontrando só como mero escrivinhador metido a besta (talvez, a condição para a poesia) que não briga com, e nem rejeita qualquer momento do passado. Na trombada com totalitarismos, no Brasil e fora dele, tive sorte, saí vivo. Quem sabe a vivência na periferia da Vila Califórnia tenha ajudado muito. Mas, nada disso tem importância ante o significado da palavra amigo. Obrigado, meu amigo.

    Forte abraço.

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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