1 de jun de 2009

ROTINA


Caio Martins

O apartamento era simples, espartano. A janela da sala, de canto a canto, dava para o Norte. A parede Leste recobria-se de pano cinza-chumbo, na Oeste a cor era azul escuro. Ao Sul havia mesa de imbuia maciça, seis cadeiras artesanais e um grande armário de aço cinza. Sobre o piso de tacos, grandes chapas de papelão branco, aparentemente em desordem. Um aparador de fórmica separava as metades da sala, pelas laterais havia equipamentos novos e antigos. Cheirava a casa de fazenda, haveria um bolo no forno.

Enquanto esperava, observava cuidadosamente o ambiente. Dissera-lhe para ali estar antes das onze, teriam hora e meia para trabalhar. Uma assistente, quase uma menina, media a luz com um fotômetro. O outro limpava lentes na mesa dos fundos, em meio a pincéis, flanelas e um aspirador pequeno e barulhento. Quem pensasse em encontrar holofotes, refletores de guarda-chuva, focos de luz-do-dia, nada acharia: nem um flash de torre, sequer. Não sabia por que a escolhera para a revista, nem mesmo perguntara. Seria um bom dinheiro por pouco tempo de câmara.

A menina foi depressa para o quarto da direita, transformado em escritório. Ele veio limpando óculos, barba desgrenhada, meia camisa fora das calças e a eterna cara de papai-noel. Sorriu-lhe, pediu que viesse à luz da janela. Olhou-a de alto a baixo, sussurrou-lhe que fosse ao escritório, tirasse blusa e sutiã, vestisse uma camisa branca masculina de tecido leve e prendesse os cabelos num coque de bailarina, além de limpar a maquiagem. Voltou em minutos, para a escada de três degraus e plataforma na parede Oeste. Encantava-se com o rigor do preparo da seção.

A mocinha rondou, com o fotômetro na mão e fazendo anotações. Espalharam a cartolina em volta, algumas folhas inclinadas. O sol de fim de outono batia de Nordeste e viu-se envolvida numa estranha luz. Disse-lhe que desabotoasse a camisa até o quinto botão, e fizesse exatamente o que ele mandasse. Respiração, umedecer ligeiramente os lábios, postura reta sem forçar, olhar em frente, rosto ligeiramente de lado, mãos nas coxas, braços soltos. Seguia as ordens sem pensar, duas máquinas clicando intermitentes e a menina cantando números. Sentia-se bem, gostava.

Ouviu-o pedir as veteranas Hasselblad e a Pentax para preto e branco; flashes leves dirigidos ao teto quase não eram percebidos. Disseram-lhe que podia descer. Foi ao quarto-escritório, repôs as roupas e voltou. Na mesa, cafezinho feito na hora e bolo de fubá com erva-doce. Todos falavam ao mesmo tempo, sentou-se, recebeu elogios, ele dizia que tinham aproveitado ao máximo o momento mágico. A luz, garantia, naqueles instantes de horário revelava, mais que a imagem, a essência, a alma das pessoas. Segundos a mais, segundos a menos, todo o trabalho estaria perdido.

De repente, o silêncio baixou. Os assistentes foram desmontar o cenário parco e passar as fotos para o computador. A menina disse que revelaria as P&B e trancou-se no banheiro, na porta um aviso: “Não abra! Perigo de vida!”. Estendeu a mão fina e delicada pela madeira escura. A mão pesada a envolveu com carinho. Olhos nos olhos, assim permaneceram um tempo. A menina, saindo do banheiro-laboratório, quebrou o encanto, dizendo entusiasmada que saíra linda de morrer... parou, olhou uma e o outro, várias vezes.

- Vocês são uns cretinos, ‘tá? Toda vez é essa merda... Posa logo, pô! Se casem, juntem os trapos de uma vez... Que saco! Pior que criança, meu!

Ele inclinou a cabeça, coçou a barba. Ela olhou para o forro.

- Vai posar nua?
- Não! Nunca!
- Então, não caso! Cacete!
- Está ótimo! Nem que fosse o último fotógrafo no mundo!

Os assistentes se foram em seguida. Aquilo iria longe. Discutiriam a tarde inteira, se amariam perdidamente, sairiam para jantar, a levaria para casa e, novamente, nem se casariam, nem a fotografaria nua. Rotina da última dezena de vezes em dois anos.

(img:cvm -denise297-2002)

4 comentários:

  1. Lembrou-me "A vida como ela é", coluna diária assinada por Nelson Rodrigues. Pouco mais intrincado, mas lembrou.
    Abraço.

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  2. Ligia (a ex-quase-menina do fotômetro)2/6/09 19:00

    História levinha depois do poema e da promessa. A fotografia em branco e preto perdeu bastante ao ser transformada para .gif ou .png, mas deve ser muito boa num tamanho maior, que pode ser usado no Blogger.com sem problemas. Mas a expressão da modelo é ótima e cai como luva no texto, camisa branca, rosto inclinado, carinha de enfado. Acho que escreveu com base na foto. Valeu, manda mais.

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  3. Lígia, tem razão em tudo como sempre, obrigado. Na próxima publico a do Mestre Augusto Coelho ajeitando... digamos... a lingerie da nossa querida Jaquinha, e formato em 190X190 px. Muita saudade e carinho, quando vier a São Paulo traga a tribo e não deixe de avisar.

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  4. Hê!Hê!

    puta babado doido, mano.... fiquei foi aguado no bolo de fubá no cheiro da erva-doce tá ligado?? Tu mistura cada uma meu..... fui!

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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