13 de jun de 2009

O VELÓRIO


Caio Martins

Tanto tempo passado e continuava a angústia e o sobressalto ao toque do telefone, ou ao abrir o correio eletrônico; de noite, então, piorava. Os sonhos insistiam, mudavam somente cores e cenários, ela nos meio-tons de cinza e semitons dos sons de cordas desafinadas. Ah!, mas não era durão, já não trocara chumbo com bandido, terçara faca com psicopata, saíra sozinho na mão com meia-dúzia (enfim, um tranca-ruas ainda que bem intencionado)? Agora, caído naquele estado lamentável de paixão desgraçada e degradante, amando em seco, a auto-estima em cacos...

De um lado a TV muda, de outro o som sem imagens do estéreo com Tchaikovsky e a Entrada 1812 pela Filarmônica de Berlim. Coisa fina... Na frente, a telinha do PC. Nela, a imagem de olhos e cabelos negros, traços severos, seios líricos, o corpo em curvatura felina, longos braços e pernas e pés e mãos de joalheria. No peito o aperto, nos olhos a lágrima na boca do destape, mudou o fundo de tela. Deixou sóbrio cinza. E foi aí que aconteceu o desastre: o telefone tocou. Um choque, como raio, correu do peito ao cérebro. Respirou fundo, os canhões disparando, na música.

No repicar dos sinos, a Bastilha tomada, pegou o aparelho. Era ela. Cancelou a sinfônica, perguntou-lhe o nome bestamente, a porcaria da voz tremelicando ao tentar impostá-la. Seca, disse que lhe morrera a mãe, onde e a hora do velório, exata como equação linear. Destravou-se e transmitiu-lhe a pena que sentia. Gostava da ex-sogra. Perguntou-lhe se estava bem, ela disse ser dura e firme, agüentava bem as cacetadas da vida. Perguntou-lhe se queria que ele fosse. Respondeu que a mãe gostava muito dele, qualquer coisa menos que sim. Disse, assim mesmo, que iria.

Inícios da manhã entrou no local. Abraçou um que outro no caminho, nem viu como e estavam frente a frente, esbranquiçados. Deu-se um abraço longo e intenso, colado, quando soluçou ela pediu-lhe que não chorasse. Murmurou que não era pela ex-sogra, mas por ela. Como, sentindo-lhe o cheiro e o calor, os braços a enlaçá-lo sem pejo, de amante, outra coisa seria? Sentiu-lhe um estremecimento, soltou-a. Pessoas da ex-família vieram, não o viam desde a separação, queriam lamentar-se, saber dele, contar-lhe estórias. Suportou, sufocado, umas duas horas falando de banalidades.

Então, algo rasgou por dentro. Evitara ficar perto ou mesmo fitá-la, mas naquele momento o fez. Viu-a miúda e encolhida, tensa, nos mesmos tons de cinza dos sonhos. Nada a ver com a sensualidade do plano de fundo do PC, ou dos delírios dominantes até se com outras mulheres. Alegou compromissos e despediu-se polidamente de cada um. Enfrentados, novo abraço denso, agarrado, sôfrego, agora com platéia patética e hipnotizada na frente do espetáculo, passaram a milésimos de beijo indecente. Ele, amarelado, em fuga. Ela, enrubescida, quiçá na beira da asfixia.

Disse amar, pediu-lhe que o deixasse ir. Partiu impávido, sem olhar para trás. No trânsito, deu estrondoso berro dentro do carro, catando-se os cacos sem glórias, heróicas lágrimas lavando-lhe a honra e a memória. Naquele velório enterrara uma ilusão, despedira a esperança, cortara definitivamente os laços, achava-se, enfim, liberto!

Ao menos, até o próximo telefonema...

(img:cvm/cris/0702)

6 comentários:

  1. Uhhhhh! Essa doeu..... Tô sabendo dos babado mano-véio que a parada quase atropela. Dá um boi nessa letra abre um verde e cafofa no seguro, tá ligado??? E nóis tá aí na fita que mano é mano e mané é mané.... E fui....

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  2. Show de bola manovei. Abraço.

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  3. Pseudamente liberto! Despedida não compatível com o autor. Onde a chradeira neurótica, tentativa de suicídio - para inglês ver, mas tem? Excelente texto!

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  4. Oi Caio,
    primeiro obrigada pela leitura, senti muita honra, não conhecia o seu Espaço, vim aqui, gostei demais!
    Este que li, achei lindo , um bela escrirta, tensa, emocionante e emocionada.... bem real!
    adorei!
    abraços
    Rose

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  5. Caio
    Beleza de crônica. Bem se vê que o cara está dominado e, na verdade, o enterro a sogra,também o enterrou na mágoa do amor que foi mas não foi, fica. Esse estágio é um troço complicado. Parabéns. Milton Martins. Piracicaba

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  6. Linda crônica, Caio. Daquelas que envolvem e não nos deixam sair mais.
    Destaco uma imagem muito boa, diria até surreal:

    "(...)De um lado a TV muda, de outro o som sem imagens do estéreo com Tchaikovsky e a Entrada 1812 pela Filarmônica de Berlim. Coisa fina..."

    Obrigada pela partilha, amigo!

    Um abraço

    Márcia

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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